sábado, 29 de dezembro de 2007

Uma noite como as viagens...

Um senhor em mangas de camisa, apesar de ser noite de Inverno, uma menina enterrada no cachecol e nas luvas, alguns que ignoravam o frio e rodopiavam as fatiotas porque a noite (que não é criança nenhuma) pode estar sempre, conforme a vontade e às vezes a força e outras vezes a necessidade, a começar e a acabar.
A começar e a acabar… havia também os que estão habituados ao cenário e já nem estranham o reboliço, embora, muito atentos, mantenham o ar de que estão a cumprir o seu papel.
Depois entrou um que não sossegava o telemóvel, contra todos os pedidos silenciosos dos outros, aquele que, mais tarde se descobriu, falava com sotaque brasileiro e ainda não sabia o que fazer na noite de Passagem de Ano. As outras já sabiam, até o convidaram, já tinham decidido que não iam dar tréguas à noite. Eram duas, uma, a extrovertida e que conhecia o brasileiro, outra, a tímida que queria conhecer.
Entretanto chegou um menino com o cabelo a tapar os olhos, pouco dado a viagens, estava irrequieto, atento ao movimento dos que cumpriam o seu papel na noite, e atento ao número de paragens que faltavam.
Por fim, um senhor de gorro, ar de estrangeiro, aquele tipo de estrangeiro que é antónimo de turista, cara muito gasta do frio, roupas de trabalho, olhos ávidos de calor, e mãos entrelaçadas a ensaiar o acender da fogueira, assim que chegasse a hora do destino.
Estava tudo composto. Anunciavam-se paragens, atrás de paragens. O primeiro a sair, como se previa foi o rapaz do cabelo estranho e camisa aos quadrados muito larga – passo rápido, a dar a sensação de que não se podia olhar para atrás. Depois saiu o senhor estrangeiro que não precisava, nem necessitava, nem tinha obrigação de olhar para trás. Seguiu-se o brasileiro, esse sim, saiu ainda como se tivesse dentro, com acenos e gestos efusivos, com o ar de quem pede para ser seguido, ou porque se quer uma boa conversa ou porque afinal se partilha a vontade de aprofundar conhecimentos.
A noite que começava para uns, e acabava para outros, como a viagem que acabava para uns e continuava para todos, aqueles que seguiriam com aqueles para quem também começava, estava fria, estava surda, apesar de não estar muda, enquanto permanecia pouco cega.
Chegaram
(a meio)… O senhor em mangas de camisa, que já agora era branca daquele branco que é trocado no roupeiro do trabalho quando o atrasado da hora não obriga a correrias, já tinha o casaco vestido e quase em posição de partida, correu estação fora.
Já a menina das luvas, sonolenta e friorenta demais para correr, acreditou na sua sorte, não desejando, naquele momento, mais sorte do que estalar os dedos e estar quente em casa, mesmo que isso dependesse de mais empenho que não depositava.

Alguém perguntou as horas, e alguém respondeu a custo.
Os da farda azul ficaram-se pela estação nova, elevaram a pose de trabalhadores da noite, cara de gente de respeito, pela gente de respeito.

Os outros seguiram viagem…
E a menina teve sorte ou azar porque ainda esperou mais 10 minutos pelo próximo. E aquilo que antes a impedia de correr, agora fazia-a mover de trás para a frente, como se o frio fosse uma cruz que carregava por não ter direito a outra, por inércia. O senhor que agora estava de casaco azul terminou um telefonema carinhoso, prometendo chegar rápido, e ensaiou duas vezes sentar-se no banco frio. Preferiu estar de pé.
Na espera interminável, e na
chegada (ao fim de linha) ainda houve mais intervenientes, outros nomes (que não se sabem, mas há sempre nomes) porque a noite que começava para uns e acabava para outros, é mesmo assim, como uma carruagem de metro, à sexta-feira à noite, pela uma da manhã, entre Matosinhos e a Trindade, até chegar ao S. João. Com rostos, com histórias, com desejos de partida e de chegada, e com nomes, mesmo que não se saibam quais. Quer dizer, o da menina até se sabe

Tudo...

Olha, sabes aquela história que te contei? Desculpa! Não é verdade.
Não sei porque é que o sentimento, que nem sei se é de culpa ou de alívio, decidiu que era hoje que te confessava tudo. Mas já que estamos em maré de coragem…
Olha, sabes aquilo que te disse e te obriguei acreditar, quanto te pedi que confiasses em mim e em tudo, aquilo que te descrevi como sendo como dizia que era… Sabes? Era mentira. Desculpa!
O meu maior erro foi cair na tentação de lhe inventar um nome. Aliás, não foi um erro, foi o começo de tudo, e não se pode chamar erro aquilo que começa o tudo. Mas, sim, confesso-te, inventei-lhe um nome, pois, e os outros todos também não são verdade, exacto, nem o sobrenome, nem o diminutivo… Desculpa!
Não me perguntes porque o fiz. Pergunta-me antes porque é que não o fiz mais cedo.
E não me julgues também, por favor. Pensa primeiro que, ao te pedir que me desses uma hipótese, estava certa que a merecia, por ter tanta certeza de que a queria, assim como te ia contando. Por isso, não te zangues, nem tens o direito de te zangar. Eu também te dei a hipótese de acreditares em mim.
Pequei? Sim! Porque de todas as vezes tinha um pormenor novo para juntar a tudo. E pecaste! Sabes? Pecaste porque alimentaste a minha busca insaciável de pormenores, de cenários e de construções.

A culpa não é tua, nem nossa, só que também não a queria só para mim.
Olha, sabes que não me arrependo. Desculpa porque te menti, mas é que não consigo arrepender-me. Já tentei! Não consigo! Até sorrio de cada vez que recordo os teus olhos ávidos de mais pormenores, as tuas mãos suadas quase a invejar o que te contava, o teu ar preocupado quando te dizia que a coisa era séria… Desculpa! Não estou a fazer troça de ti, mas também te vais rir, quanto te passar a raiva, disto, de tudo…
Não me posso arrepender. Não, mesmo que mereças tudo (acho que já te tinha dito isso, ou era acreditava que merecias, porque querias) não me arrependo porque aqueles momentos deram-me tudo, e se fiz de ti o que sempre foste mais uma vez (e não me refiro à parte em que confesso a mentira) era porque sabia que estarias à altura de tudo…
Olha, sabes nem eu própria te consigo explicar o que foi aquilo, o porquê daquilo, como é que começou, cresceu, e ganhou as proporções que conheces e que agora te confesso, não são verdade.
Ah… Foi alucinação!
Aliás, o facto de existires é o quê? Tu também és… A alucinação de sempre!
Sabes que mais? Retiro as desculpas! Já viste que sou sempre eu?


...
FOTO: (um bocadinho da) Praia de Vilamoura_Outubro/07
ENQUANTO TENTAVA AGARRAR

domingo, 9 de dezembro de 2007

"Ninguém te pode ajudar"

Tiveste gente de muita coragem
E acreditaste na tua mensagem
Foste ganhando terreno
E foste perdendo a memória

Já tinhas meio mundo na mão

Quiseste impor a tua religião
E acabaste por perder a liberdade
A caminho da glória

Ai, Portugal, Portugal

De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Tiveste muita carta para bater

Quem joga deve aprender a perder
Que a sorte nunca vem só
Quando bate à nossa porta

Esbanjaste muita vida nas apostas

E agora trazes o desgosto às costas
Não se pode estar direito
Quando se tem a espinha torta

Ai, Portugal, Portugal

De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Fizeste cegos de quem olhos tinha

Quiseste pôr toda a gente na linha
Trocaste a alma e o coração
Pela ponta das tuas lanças

Difamaste quem verdades dizia

Confundiste amor com pornografia
E depois perdeste o gosto
De brincar com as tuas crianças

Ai, Portugal, Portugal

De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Ai, Portugal, Portugal

De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

LETRA: Portugal, Portugal - Jorge Palma
FOTO: Na Câmara Municipal
(Matosinhos/Dez.07)

"O raio da bagagem"


Mifá
É de um comboio que eu te escrevo,
Mifá
São os teus olhos que eu levo,
Mifá
Dentro dos meus
Vê lá tu

Mifá
O amor nem sempre é brincadeira,
Mifá
Quer a gente queira ou não queira,
Mifá
As coisas são mesmo assim

E toda esta conversa
É só por tu teres vindo comigo
Por termos conseguido chegar juntos ao ninho

Por esses momentos em que eu
Não fui sózinho
Mas depois foi a bagagem
E o inevitável adeus do caminho,
Mifá
Tem cuidado contigo

Mifá
Não vou soluçar por ti,
Mifá
Mas tenho um espaço vazio aqui,
Mifá
No meu coração
Vê lá tu

Mifá
Solamente una
Dói se pensarmos que
Isto é o fim
Mas resta sempre
Alguma coisa
E toda esta conversa
É só por tu teres vindo comigo
Por termos conseguido chegar juntos ao ninho

Por esses momentos em que eu
Não fui sózinho
Mas depois foi a bagagem
E o inevitável adeus do caminho,

Mifá
Tem cuidado contigo
E toda esta conversa
É só por tu teres vindo comigo
Por termos conseguido chegar juntos ao ninho
Por esses momentos em que eu
Não fui sózinho
Mas depois foi a bagagem
E o inevitável adeus do caminho,

Mifá
Tem cuidado contigo
...

LETRA: Mifá - Jorge Palma
FOTO: Aniversário dos 20 anos dos Paços do Concelho
(Matosinhos/Dez.07)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A árvore das latinhas


A Casa da Juventude de Matosinhos está a construir uma árvore de Natal, com a utilização de materiais recicláveis. Este ano, a árvore é de latas de conserva, uma vez que esta indústria é considerada o ex-libris do concelho de Matosinhos.

Paralelamente, as turmas do 3º e 4º anos das Escolas EB1 da freguesia de Matosinhos estão a realizar visitas às conserveiras locais: Pinhais, Portugal Norte e La Gôndola.

A inauguração da Árvore de Natal e da exposição “A Juventude com as conserveiras no Natal”, será amanhã (dia 07 de Dezembro) às 16h00, na Casa da juventude de Matosinhos.

Qualquer criança, jovem ou adulto pode participar e ajudar a construir a árvore de Natal amiga da Natureza, só tem de dirigir-se à Casa da Juventude de Matosinhos e colocar uma latinha! (reciclavel ;-)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Como o Outono (na perfeição)


Gosto de ti como quem gosta do sábado
Gosto de ti como quem abraça o fogo
Gosto de ti como quem vence o espaço
Como quem abre o regaço
Como quem salta o vazio
Um barco aporta no rio
Um homem morre no esforço
Sete colinas no dorso
E uma cidade p'ra mim
Gosto de ti como quem mata o degredo
Gosto de ti como quem finta o futuro
Gosto de ti como quem diz não ter medo
Como quem mente em segredo
Como quem baila na estrada
Vestido feito de nada
As mãos fartas do corpo
Um beijo louco no Porto
E uma cidade p'ra ti
Enquanto não há amanhã
Ilumina-me
Gosto de ti como uma estrela no dia
Gosto de ti quando uma nuvem começa
Gosto de ti quando o teu corpo pedia
Quando nas mãos me ardia
Como o silêncio na guerra
Beijos de luz e de terra
E num passado imperfeito
Um fogo farto no peito
E o MUNDO longe de nós
Enquanto não há amanhã
Ilumina-me
Ilumina-me
PEDRO ABRUNHOSA
...
Um dia destes (um qualquer, daqueles sem amanhã) tirei esta foto para ti
Para te mostrar o fim do Outono ou a sobrevivência do Outono
Tirei-a porque… Partilhas!
Gosto de partilhar o Outono, a cor do fogo, o dia de Sábado
(que teve manhã, tarde, noite e amanhã)
Porque gosto do MUNDO e tu és o MUNDO
(sempre em nós)
Gosto de ti…
Das cidades, dos sinais, do Porto, e das paixões, e do toque louco no meu peito, e do ardor das minhas mãos que brincam
Ahh e do beijo também

Foi agora que a foto se encaixou (como nós) na perfeição no que ouvi
E o que te digo é tão sincero como o brilho dos teus olhos de menino, apesar das mãos de homem. Como o Outono…

sábado, 24 de novembro de 2007

Sorrisos e olhares... e olhares com sorrisos


Eram muitos
Todos com um sorriso daqueles que contagia o mundo
E um olhar repleto de sonhos
Dizem, entre palmas, dizem-no calados:
“Porque estás triste hoje?”
“Como podes estar triste?”
“Alguma vez me viste triste?”





FOTOS: Inauguração do 11º Juntos pela Arte (22 nov. 07)

Sugestão: Visitar o JUNTOS PELA ARTE (exposição e venda de Natal) // Galeria Nave da CMM // de 22 de Nov. a 7 de Dez // Organização - CMM e Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Matosinhos

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

(está quase...) NICOLINAS 2007 (nº 15)

«
Exposição "Ser Nicolino" promove sugestão de candidatura das Nicolinas a Património da Humanidade
A exposição de fotografia "Ser Nicolino", da autoria de José Bastos, está patente no Vira Bar - Cervejaria/Restaurante, de 13 de Novembro a 8 de Dezembro, numa iniciativa conjunta da associação Tertúlia Nicolina e daquele estabelecimento comercial. Associando-se aos seculares festejos, o Vira Bar disponibiliza também aos clientes uma "Ementa Nicolina", concretizando assim uma sugestão apresentada na conferência/debate promovida pela Tertúlia Nicolina aquando da ExpoGuimarães e subordinada ao tema "As tradições culturais enquanto elemento turístico e de desenvolvimento. Nicolinas: O que fazer com este património? Que valor Turístico?".

De igual modo, são distribuídos aos vimaranenses e aos turistas os marcadores de livros editados pela Tertúlia Nicolina para promover a sugestão de candidatura das "Nicolinas a Património Oral e Imaterial da Humanidade: um objectivo estratégico".
O conjunto de fotografias em exposição do Vira Bar, a preto e branco, ilustra momentos das Festas Nicolinas de 2000 em que José Bastos, através da objectiva, fez um registo artístico - imprimindo também uma componente jornalística - de várias fases dos preparativos e dos números das Festas Nicolinas. Trata-se de um olhar e de uma óptica, que extravasa o mero registo fotográfico, procurando evidenciar através da imagem o ser e o sentir dos Nicolinos.
Além das fotografias, a exposição integra vários objectos relacionados com as Festas Nicolinas. Segundo Diogo Leite Ribeiro, Presidente da Tertúlia Nicolina, esta iniciativa "é mais um contributo da associação para a promoção das Festas Nicolinas e da sugestão de candidatura a Património Oral e Imaterial da Humanidade, desta vez num contexto diferente do habitual, procurando atingir públicos diversos".
Para Miguel Cardoso, sócio-gerente do Vira Bar, a abertura do estabelecimento de restauração a este tipo de eventos decorre da "constatação que a sociedade civil em geral e os empresários em particular também devem participar e contribuir para a divulgação das tradições culturais".
A exposição está patente no Vira Bar Alameda de São Dâmaso, nº 27, Guimarães, até ao dia 8 de Dezembro.
»
...

Depois de ver uma caixa de mail que raramente consulto, surgiu um novo impulso digno de registo...
Consultada a newsletter da Associação Nicolina, e cumprida a sugestão de consulta do site, novo copy/paste impulsivo.
Mas as novidades e as notícias estão longe de se ficar pelo Vira Bar (publicidade não paga) por isso segue o registo que gerou o impulso: http://www.nicolinas.net/

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Ouvir / Sentir

És a estrela da alvorada
E a madrugada junto ao cais
És tudo o que eu vejo em ti,
És a alegria e muito mais
És a minha maçã de junho
És o teu corpo e o meu
Amo-te mais que à vida,
Que a vida sem ti morreu

És a erva perfumada,
Debruada a girassóis
O trago do café quente
Nas manhãs entre lençois
És a minha maça de junho
E a minha noite de verão
Anda, vem comigo,
Vamos,dá-me a tua mão

És o encontro na estrada,
És a montanha e o pôr do sol
O vinho bebido em festa,
És a papoila e o rouxinol
És a minha maça de junho
E a minha estrela polar
Sem ti eu não tenho norte,
Sem ti eu não sei amar.

JORGE PALMA
Maçã de Junho
(para ouvir em...)
Madrugadas tranquilas
Noites intensas
(para sentir...)
Sempre
Entre embalos profundos
Sonos partilhados
(ouvir e sentir)
Quando os sentimentos e as emoções gritam, silenciosamente

domingo, 4 de novembro de 2007

Tempo, sinais e intervalos sorridentes



Hoje (anteontem) as horas também me deram sinais
Desejos… sempre!
E ansiedade de chegar ao aconchego da música que ficou a pairar de manhã, nunca mais parou, nunca mais saiu, nunca mais abandonou o cérebro que não pensou o dia todo, às vezes de músculos contraídos sem sintonia com os movimentos.
Já a adivinhar o querer, já a piscar o olho às horas, por ter vontade (apesar do medo), e também por ter falta de vontade (apesar do dever).

Depois, depois foi vinho.
Foi vida.
Muita partilha.
Tanta luz.
Imensa paz.
E descobertas. Ou seriam investigações?
Um intervalo sorridente (Obrigado!)

As horas deram sinais, o tempo, desta vez (porque quase nunca é o tempo, e a maioria das vezes, nem é o espaço) também deu sinais. Aceites. Partilhados. Sintonizados.
(sem medo, e até com dever cumprido)
Soube bem.
Hoje (ontem) o cérebro conseguiu pensar.
Tranquilamente e feliz!
...
FOTOS: Parque do Carriçal (Senhora da Hora - Matosinhos)
guardadas para quando fosse o tempo a ditar sinais
TEXTO: Às xx horas e xx minutos, do dia e do mês xx, ano XXXX (x de anteontem e x de ontem)

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

(...) suspiros

Porque deixei de saber distinguir
Porque a viagem é cada vez mais longa
Dou por mim sem saber se a quero longa ou curta
Acho que quero longa, para não ter de sair, para ter tempo de pensar
Acho que a quero curta, para ser rápido o regresso
Quero-a inteira
E suspiro
Sem decidir como te quero
Viagem
Cidade
Vida
Suspiro
Não a tenho inteira, sei lá se me pertence ou não
Sei que a quero, mas não sei se a tenho, porque lhe rogo pragas tantas vezes, para me arrepender e voltar a suspirar, com vontade de voltar para traz, e vontade de seguir em frente
Os sinais começaram aqui
Aceitei-os
Até sorri ao óbvio, ao fácil, ao sabor cobarde de não ter de pensar mais, por ser assim, felizmente sem culpas, aliás, com a cumplicidade de se encolher os ombros ao mesmo tempo
Tenho medo dos sinais que restam
Se é que restam, se é que se manifestam, se têm coragem
Só sei que a quero inteira, por isso é que me quero inteira também, sem ter culpa pelo ar (único) que respiro... feita a viagem
Agarra-te e dá um passo
Tens de saber distinguir o que sentes, abraçar a viagem e respeitar a vida!


E segue, segue, segue... sempre com mestre e a lembrança de uma noite aliviada e suspirosa. Sabe tão bem acompanhar o ouvido com a imagem desfocada do sentimento. Segue, segue... quando os olhos pedem leituras ligeiras e acabam presos à mente, a tentar distinguir o que é pensar e o que é reflectir, sem leituras ligeiras, e com o livro de bolso - boa escolha, modestamente!

(...) e mais mestre (...)

*Não há maior nitidez do que o verde que suspira*

Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?

Quando o teu cheiro me leva às esquinas do vislumbre

E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?

As redes são passageiras, as arquitecturas da fuga

De toda a água que corre, de todo o vento que passa
Quando uma teia se rasga ergo à lua a minha taça
E vejo nascer no espelho mais uma ruga

Quando o tecto se escancara e se confunde com a lua

A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela

Por favor, diz-me que és alguém, de novo?

Quando a janela se fecha e se transforma num ovo

Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?

JORGE PALMA
Quem És Tu, de Novo
FOTO: Porto Sounds 2007
(Setembro, Parque da Cidade)

leituras (...)

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refugio o não poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com a deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulhado na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora…
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto,

Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
...

GRANDES SÃO OS DESERTOS
Poesia de Álvaro de Campos

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Vamos para a ILHA DAS CORES

Na Ilha Das Cores
Tu podes viver
A grande aventura
De muito aprender
Há mar e flores
Canções para cantar
Histórias para ouvir
É só descobrir
Há o abecedário
Do A até o Zê
E ainda o kapa
Igrego e o duplo Vê
A Ilha Das Cores
É tão divertida
Que vais ter vontade
De passar lá a vida
...
Nós vamos para a ILHA DAS CORES... juntos!
Porque lá podemos viver a grande aventura de muito aprender. Há cores, mares e flores, pessoas diferentes e pessoas iguais, que têm vontade de passar lá a vida a cantar canções (de embalo por exemplo) e a ouvir histórias, por saber ouvir histórias, ou pelo menos tentar porque é só descobrir. É tão divertida a Ilha das Cores, e pura, e feliz. Nós vamos!

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Completo...

Completo egoísmo de ser, completo egoísmo de querer, completo egoísmo de sentir.
Raciocinar e raciocinar, ou fazer de conta que se pensa porque se deve, porque é importante, se exige.
E sentir os braços prostrados, o pensamento vazio, apesar da mente cheia, o corpo dormente com os braços ao longo do tronco, caídos, desistentes dão o alerta… sentir o corpo a desmaiar, passivo, conformado, em sintonia com o pensamento.
Surge um sorriso, um piscar de olhos tranquilo, e finalmente um bocejo.
Não há energia mas há vontade e já não se pensa, e os sinais falam por si, se fossem sons ecoavam na mente que se quer vazia acompanhar o pensamento que se quer desistente.
Sem vontade, cada vez com menos vontade, com menos sentido de vontade de sentir o mesmo de sempre, sentindo, mas não interiorizando o completo egoísmo que sou.

BOA NOITE

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

(está quase...) NICOLINAS 2007 (nº 36)


Uma imagem que pode não dizer muito a quem não vive, não conhece, quem não sente. Mas lembrei-me agora, porque está quase... Hoje lembrei-me, o impulso exige registo, marca a contagem decrescente que se repete ano após ano... Que se repita a contagem e que se repita o sentir!
...
29 de Novembro - Noite do Pinheiro em Guimarães, o primeiro número das NICOLINAS
(E seguem-se muitos números, até se esperar por outro ano)

sábado, 13 de outubro de 2007

NÓS

Eu Não Existo Sem Você
Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham prá você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você
...
Vinicius De Moraes
FOTO (Bruxelas/Maio 07) - a FOTO que sinto, porque é simplesmente sentidamente, com certeza

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Sentidos a respirar teatro

“E se eu me levantasse agora e me abraçasse a eles?
No fundo podia!”
...
TEATRO “Quem disse que não há vida depois da morte? Pode ser que tenhamos 100 sentidos, e só usamos cinco deles. Depois da morte usamos os outros 95” – disse um deles
“Louco” – gritaram os restantes
“Talvez” – pensaram os presentes
“Obrigado” – suspirei

- ­ O Cerejal ou a vida sem resposta. A insolvência da propriedade anula todas as soluções racionais, e só um milagre, como aquele que Vária espera, poderia resolver o conflito, porque se trata aqui de uma dupla salvação – Georges Banu*
­
- Drama, tragédia, comédia, pessoas no dia-a-dia, confundem-se na plenitude de algo que lhes escapa: o futuro. O Teatro no jogo da História e do Tempo – Rogério de Carvalho*

- Há dois factores muito importantes na vida de Tchékhov. Primeiro: ele era um homem condenado, tinha a morte no seu encalço. Segundo: perante isso, com a premonição das pessoas que vão morrer jovens, tinha uma energia inconcebível – Peter Brook*

- Neste ambiente espectral, os actores aparecem em cena como se fantasmas se tratassem. As figuras tchekhovianas configuram-se como fantasmas que somente no palco assumem voz e materialidade – Rui Pina Coelho*

RESPIRAR SENTIDOS
e... recordar o(s) sonho(s)
Inesperado, às vezes as coisas inesperadas são as mais saborosas
Sentir os sentidos a fervilhar
…inesperadamente…
e admiti-lo outra vez
…silenciosamente…
e admirar, fascinada, a força do tacto
Ouvir gritos, ouvir vozes, ouvir passos, ouvir musica, ouvir roncos, ouvir gargalhadas
Saborear, de longe, e com o olfacto o aroma do charuto de Iacha
Observar tudo, procurando pormenores, decorando pregas de vestidos longos e percorrendo o cenário, adivinhando modificações
Saber, querer, perceber
…suspensa… com os músculos contraídos em luta com as sensações…
(na impossibilidade de agir, nunca chegando a concretizar) a força do tacto!

O Cerejal // TeCA (Porto) // de 4 a 21 de Outubro // terça a sábado 21h30 e domingo 16h00 // M12 // de Anton Tchekhov; encenação Rogério de Carvalho; produção Ensemble – Sociedade de Actores
...
*excertos retirados do roteiro de apresentação da peça

terça-feira, 9 de outubro de 2007

(hoje estou...) Ao sul

À procura do meu Norte
Subo as águas desse rio
onde a barca dos sentidos
nunca partiu
Lá longe
Inventei o dia azul
E o desejo de partir
pelo prazer de chegar
Ao Sul
Cada um tem a sina que tem
os caminhos são sempre de alguém
Ao Sul
Ao Sul entre dois braços abertos
Bate um coração maltês
Que se rende, que se dá
De vez
Por amor
Corto os frutos que criei
Corto os ramos que estendi
Pela raiz que abracei
Ao Sul
João Monge- Ala dos Namorados
FOTO: Em Lisboa (junho 07) contigo como hoje e como sempre

sábado, 29 de setembro de 2007

O verdadeiro "pulguinha"


Cinco barracas, mais de 20 anos a viver em contentores, e poucos minutos bastaram para demolir o que já foi a casa de sete familias. Já estão realojados no Bairro da Biquinha em Matosinhos, mas alguns não deixaram de aparecer para dar uma última espreitadela aquilo que lhes serviu de “lar” durante mais de duas décadas.
(...)

Depois da miséria…
Perto das 11 horas da manhã, já os camiões se preparavam para recolher o entulho, as máquinas deitavam abaixo barracas de madeira e placas de zinco, em algumas ainda era visível a casa de banho improvisada, e porque quem muda de casa, muitas vezes, procura “vida nova”, no chão era possível ver alguns dos antigos pertences das famílias que saíram dos contentores junto ao Estádio do Mar.
(...)

José Moura, reformado de 60 anos, viveu durante 24 anos num dos contentores removidos. Agora vive num T2, diz ter sido “muito bem recebido” pelos vizinhos: “Passei da miséria para uma casa com sala, dois quartos, e casa de banho”, disse. O sorriso fazia antever a frase seguinte: “Estou muito bem agora, antes não tinha condições nenhumas, agora posso dizer que vivo numa casa”.
(...)
...
Demolição de barracas // Junto ao Estádio do Mar // pela Câmara Municipal de Matosinhos // 25 de Setembro de 2007

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Volta amanhã

Acendo um cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

GRANDES SÃO OS DESERTOS
Poesia de Álvaro de Campos

Momentos óbvios

Uma fuga que começou num telefonema, num impulso, continuou numa resposta positiva, acabou num reencontro de desabafos e lamentações, numa fuga óbvia.

“Aqui não”; “Aqui também não”; “Espera na Trindade”
E agora?
Aliados?
Esplanada, café, tabaco?
“Conta!”; “Desabafa”; “Eu percebo”; “Eu também”
Óbvio!
“Já vou mais leve”; “Pois…”
Repetimos?
Quando?
Esplanada, café, tabaco!
É óbvio!

...
FOTO: Esplanada dos Aliados com a Cláudia (20.Set/07)

Casou duas vezes, a primeira com o primeiro amor.
Sim, o primeiro amor…
Há pessoas que têm a sorte de cumprir o primeiro amor, e um primeiro amor não tem de ser mais verdadeiro que o segundo, apenas – não por privilégio, mera cronologia – é o primeiro!
O primeiro amor dele era mais velho. Dizem que a idade não importa no amor, como dizem que pelas leis da natureza, os mais velhos desaparecem primeiro.

Às vezes não, apesar de desta vez, nesta história (que não é história) até ser mesmo assim e ao contrario também: “Não me importava a idade. E olhe, a segunda era nova, mas também foi antes de mim”, sorriso feliz, sorriso conformado.
Casou duas vezes, a segunda com o segundo amor.
Sim, o segundo amor, porque foi segunda, por culpa, talvez e apenas, do destino: “Amei as duas. A primeira é a primeira, a segunda foi a minha melhor companhia. Amo as duas, sem ciúmes de nenhuma”.
Há pessoas que têm a sorte de cumprir o amor, uma, duas vezes… Dizem que só se ama uma vez, mas também dizem que se pode amar de maneiras diferentes muitas vezes, e dizem que amor é quem o sente…
Casou duas vezes e teve a sorte de amar as duas, provavelmente foi amado pelas duas, quis casar duas vezes, e enviuvou duas vezes.
Arriscou? Viveu. Tudo?
De sorriso nos lábios: “Não tive filhos. Não calhou”; “Ainda está a tempo”, atirei; “Agora? Só se fosse com a terceira, mas não amei mais ninguém”.
Mãos grossas, calos nos dedos, foram anos dedicados à agricultura e mais de trinta a descarregar barcos no Porto de Leixões. Reforma merecida, provavelmente uma sensação de missão cumprida e grande sorriso nos lábios.
“A faca de peixe não dá jeito nenhum”, disse-lhe a sorrir. Recebi um encolher de ombros como quem pisca o olho à delicadeza, sem intenção de confirmar o óbvio, aliás, mais atrás já se tinha falado no sabor das couves da horta, do peixe de Angeiras, do vinho do Douro, de que valia acenar ao óbvio?
Queríamos o mesmo…
E fugimos, cada qual no seu ritmo e da forma mais discreta: “Boa Sorte”, desejou (sentidamente); “Muito prazer”, respondi (agradecida).
Com 50 anos de diferença, queríamos o mesmo…
Que a espera fosse curta!
...
FOTO: Jantar de inauguração do Bar de Fuzelhas, Leça da Palmeira (21.Set/07)

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Aos que sabem


Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer,
Como esta pedra cinzenta
Em que me sento e descanso,
Como este ribeiro manso
Em serenos sobressaltos,
Como estes pinheiros altos
Que em verde e oiro se agitam,
Como estas aves que gritam
Em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho

Eles não sabem que o sonho
É vinho, é espuma, é fermento,
Bichinho álacre e sedento,
De focinho pontiagudo,
Que fossa através de tudo
Num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
É tela, é cor, é pincel,
Base, fuste, capitel,
Arco em ogiva, vitral,
Pináculo de catedral,
Contraponto, sinfonia,
Máscara grega, magia,
Que é retorta de alquimista,
Mapa do mundo distante,
Rosa-dos-ventos, Infante,
Caravela quinhentista,
Que é cabo da Boa Esperança,
Ouro, canela, marfim,
Florete de espadachim,
Bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
Passarola voadora,
Pára-raios, locomotiva,
Barco de proa festiva,
Alto-forno, geradora,
Cisão do átomo, radar,
Ultra-som, televisão,
Desembarque em foguetão
Na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida,
Que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.



António Gedeão
Pedra Filosofal, Movimento Perpétuo, 1956
FOTO: Inauguração da Escola EB1 de Custóias, Matosinhos (Set/07)
...
*O “timing” impõe que se acrescente: post dedicado à Su Maria que como a própria diz, está a crescer, é crescida aliás, e sabe que O SONHO (realizado, a realizar-se aos bocadinhos, com coragem) COMANDA A VIDA*

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Luz


As pessoas precisam sempre de luz, sempre de sol, sempre de claridade, mesmo quando elegem a noite como melhor cúmplice, esperam, sabem, e esperam sempre, a aurora, a luz.
Às vezes, além de precisarem de luz, há quem precise de ver a luz. E há aqueles que a sabem sentir, e os que não sabem, e ainda aqueles que acham que a sentem e são donos dela, e os que só a querem avistar um bocadinho. Contentam-se com pouco, talvez… Ou se calhar contentam-se com tudo.
Uma noite, muito iluminada, uma noite em que tinha a luz brilhante (de sempre) ao meu lado, apesar de ser noite, tinha a luz (cada vez mais), luz que chegou mais cedo, quando ainda (já) era de noite, lembrei-me de uma história:

Há muitos anos atrás (ou ontem, ou sempre) existiu um reino daqueles que têm príncipes, princesas, cavaleiros de espada, alguns só de palmo e meio, artesãos que trabalham mesmo à porta da oficina a ver passar as carruagens de forasteiros, ciganas de mão estendida, gente de trabalho, gente de (nas) tascas, gente num frenesim, e gente que respira, muita gente, um reino normal com um rei e uma rainha, muito protectores, bons, mas protectores, e às vezes não eram tão bons, porque eram demasiado protectores, muitos criados, aqueles fieis, e do outros também, e existia uma feiticeira que cobiçava o reino (mesmo sem saber porquê, simplesmente, cobiçava sem ter descoberto porquê), e existia uma princesa doente…

Um dia o rei resolveu pedir ajuda à feiticeira porque temia pela vida da princesa, e nesse dia (que foi há muitos anos atrás, ou mesmo só ontem, mas foi um dia de coragem, que exigia coragem), a feiticeira ajudou o rei, mas quis o reino em troca. Pai, porque era pai, antes de rei, apesar de existirem tantos que são reis antes de serem pais, entregou o reino à feiticeira, mas quis saber o segredo da cura da filha…

“Vou mostrar-lhe o sol, esperar que ela receba o sol, vê-la a aproveitar o sol, e o sol vai fazer o resto” – disse a feiticeira, agora rainha, sem bondade, só cobiça, a feiticeira rainha, ou rainha feiticeira que conhecia a formula do sol, apesar de viver na escuridão da noite.
A menina, porque já não era princesa, ficou boa, sem fortuna, sorridente, e passou a gostar da aurora como o melhor momento do dia, dos seus dias iguais, de vendedora ambulante, e de olhos serenos a ver as carruagens de forasteiros passar.

A menina, e entretanto o rei também, e depois a rainha, e muitos dos súbditos, que já não eram súbditos, souberam apreciar a luz. Aprenderam! “Às vezes só é preciso um pouco de coragem” – disse a menina a um dos forasteiros, aquele que a queria levar a conhecer a luz pelo mundo fora.

E ela foi, ou vai um dia…

FOTO: Mosteiro de Leça do Balio, Matosinhos // Feira Medieval “Os Hospitalários no Caminho de Santiago” // Setembro de 2007.
Uma foto com luz, uma luz partilhada, corajosa, convidativa, repetida, ou não, uma luz… de um dia, sem luz (ou com pouca), mas que apelava à coragem!

sábado, 1 de setembro de 2007

Meu encantador senhor

Tantas e tantas vezes lhe tenho escrito, sem nunca lhe ter revelado o segredo do meu coração. Conversava consigo, via-o quase todos os dias, trocava impressões sobre livros, cinema, passeios e nunca me atrevia a dizer-lhe o que fosse acerca deste afecto que nasceu dentro de mim, desde a hora em que o vi pela primeira vez.
V. por certo adivinhou, nos mil nadas em que se revela o amor, o que eu há tanto tempo guardo para mim. Não o vai surpreender esta confissão, pois sou obrigada a fazê-la, porque percebo, enfim, que é hora de confessar. Amo-o e amo pela primeira vez!

Ahh você sempre soube?
Mas quis saber qual a impressão que lhe causa a minha pobre confissão, tão oca, mas tão sincera.
Gostaria que me dissesse o que pensa do que lhe digo, para que eu parta se tiver de partir, lute se for esse o caso, mais segura do meu próprio destino.
Apesar dos receios da resposta, e da ansiedade na recíproca, saiba... pretendo lutar e vencer quantos obstáculos se depararem no meu caminho, caso tenha a dita de ser atendida por si, ou para desesperar e viver num inferno, se o meu afecto não for correspondido, tal como desejo que o seja.
Que poder de sedução tem V. para me ter atordoado ao ponto de não ver outra imagem senão a sua, mesmo quando estou longe de si. Sabe? V. domina, maneja como quer os meus destinos, tem o dom diabólico que o fazem senhor de todo o meu ser. E, passa sereno, por ser altivo o seu dom, por entre os míseros mortais que todos somos.
Perdoe o modo ligeiro com que eu mascaro o meu sentir. Sou, por índole, humorista, e disfarço com bom humor tudo o que possa, de longe ou de perto, ter a marca do sofrimento que lhe causo, ter a marca da saudade que a distância me causa, a marca que carregamos como o sangue português que me corre nas veias.
V. não me conhece completamente, mas queira saber que quero que aumente esse conhecimento e que quero, também eu, dar-me, eu própria, a conhecer. Creia-me, creia na sinceridade da minha confissão, e dê tempo ao tempo para que o convença de que, realmente, sou honesta quando me entrego, e lhe mostro que desejo oferecer-lhe uma dedicação sem limites.
É inútil procurar camuflar e encontrar rodeios para lhe dizer que esse fluido misterioso em que meu coração se inebria é, sem dúvida, o prelúdio dum grande amor.
Tenho esperança, porque também esse sentimento me corre nas veias lusitanas, que V. possui uma alma feita para amar. Ora, não pode deixar de aceitar o amor tão espontâneo, tão verdadeiro que, sinceramente, ofereço apaixonada.
Certa que V. terá pena de mim, pena destas horas de agonia e de intranquilidade, e porque vai longa a carta, despeço-me. Saiba que lhe disse pouco do que me vai na alma inquieta, mas acredite na confissão sincera e tenha benevolência por esta exposição.
Sem mais, subscrevo-me com o ardor que a pena me causa entre os dedos, por saber que me exponho a si deliberadamente, mas muito sinceramente e agradecida,
**

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

(ocorreu-me)

Acredito que...
"mais vale tarde que nunca"
Mas...
sinto-me sempre
ATRASADA!
...
(durante uma conferência sobre o futuro das profissões)

domingo, 26 de agosto de 2007

Através do vento


Hoje quis que o vento me levasse até ti
Desejei voar e ser invisível
Poder chegar dar-te um beijo e fugir
Hoje quis ter o dom do toque que sabe a vida
Do toque discreto que sussurra
Quis ser vento para puder voar até ti
Sem que notasses, sem que me visses, deixava-te um beijo e fugia
Não tenho o dom, mas tenho o desejo
E por não conseguir ser vento
Por não saber voar
Hoje depositei um beijo que chegará até ti
O sussurro é do vento, o toque é do beijo e as asas invisíveis procuram o dom que cumpra o desejo

Recebe-me… recebe-me bem
Vou de braços abertos
Foi a força do desejo que me fez chegar até ti

sábado, 25 de agosto de 2007

Sozinho... à espera

Arrastava-se pela praia queimado pelo sol, a pele já estava gasta, era grossa, exposta aos raios, exposta ao sal. Os dedos até já tinham perdido a conta às feridas, que saravam até ao próximo anzol ferrugento, até à próxima rede rasgada. Arrastava-se pela praia porque já não sabia o que era levantar os pés, grossos e ásperos, e porque a pele conhecia a areia e desconhecia, há muito, o uso de sapatos, ele próprio questionava-lhes o conforto, enterrando ainda mais os pés pesados, na terra molhada. Os colegas do tasco invejavam-lhe a cabeleira grisalha, um cabelo cada vez mais claro e cada vez mais fino, grande e vasto para a idade, sempre penteado de acordo com o sopro do vento e cortado a lamina, por jeito e amizade, por uma das peixeiras, uma das habilidosas, da aldeia. A roupa, trocava-a como se cumprisse um ritual. Traje de trabalho: uns pares de camisolas de lá, calções de botões, e traje de festa (domingueiro, chamado "o de ir à missa"): calças compridas, camisa branca de colarinho esfolado pelos anos de uso, ou azul, muito comprida e larga por seu primeiro dono abastado em gordura.
Os restos de peixe sabiam-lhe, todos os dias, a iguarias preparadas por ninfas do mar, mas eram as mãos grossas e secas, as suas as responsaveis pelo único repasto que lhe dava gozo. Preferia acreditar na qualidade da ementa, e fazia bem. Há umas semanas que o vinho tinha acabado, ou melhor a zurrapa de vinho velho misturado. Restava-lhe o "cheirinho" que tomava para acompanhar o cigarro cravado todos os dias, à mesma hora, ao mesmo "patrão" que só ia ao tasco para ler o jornal do povo, que parecia mal levar para casa.
Calado, gostava pouco de dar nas vistas, chegava discreto e anunciava-se com um quase inaudível "boa noite", pouco dado às cartas, por preferir o silêncio do xadrez, era rápido no jogo, sucinto nas frases trocadas, sôfrego nos goles. Cigarro acendido pelo parceiro, olhos no chão, leve acenar de cabeça, reflectia-se no caminho para casa.
Depois os olhos procuraram qualquer coisa para entreter a falta de sono, a soleira da porta convidou-o a sentar, os que passavam cumprimentavam, alguns com fome de conversa rendiam-se rápido às respostas monossilábicas. Tempo de ver o que as estrelas reservavam para o dia seguinte: "Vai estar bom tempo", atirava para despachar que lhe incomodava a tranquilidade. Era respeitado por saber ler as estrelas e por entender bem as marés. Ainda ajudou o vizinho, o bêbado da rua, a rodar a chave na porta, ouviu gritos, viu luzes acenderem-se e curiosos escondidos atrás de cortinas de renda branca.
Até que, serenada a rua e cansada a vista, deitou-se, não dormiu, há anos que não dormia, mas esqueceu a vida, sonhou (sim, sonhou acordado) com o barco de outrora, com a vida de antes, com a caldeirada de peixe que serviu da última vez que recebeu gente em casa. Boa forma de passar as horas.
Todos os dias, a mesma rotina.
Na sua pose de sempre, sorria uma vez: ao levantar, rezada a lenga-lenga do costume, e mesmo antes de comer e depois de passar agua pelo rosto queimado, sorria… Sorria quando beijava um dos dedos da mão esquerda, o anelar, o que servia de refugio a duas alianças de ouro, muito iguais, mesma gravação. A única, mesmo a única, riqueza que tinha entre quatro paredes com cama, cadeira, fogão… cada vez menos móveis, nada a decorar, além da foto antiga mantida à cabeceira, qual santuario improvisado.
Lembrava-se bem do dia em que tinha trocado o sono e os sonhos com planos, pelo correr das horas entre recordações. Lembrava-se que naquele dia, a sua mão esquerda tinha ganho riqueza, já o coração tinha ficado mais pobre.

Era um novo dia…
Chamavam-lhe o "Velho do Mar da Aldeia de Baixo", nome longo para quem apenas era um homem só que estava à espera.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Sabe tão bem...


"Vou viver
Ate quando eu não sei
Que importa o que serei
Quero é viver
Amanhã
Espero sempre um amanhã
E acredito que será
Mais um prazer
A vida é sempre uma curiosidade
Que me desperta com a idade
Interessa-me o que está para vir.
E a vida
Em mim é sempre uma certeza
Que nasce da minha riqueza
Do meu prazer em descobrir
Encontrar, renovar, vou fugir ao repetir"
...
António Variações
...
Sabe tão bem sentir
Sabe tão bem receber
Sabe tão bem dar
Sabe tão bem dar e receber
Sentir a mesma cumplicidade
E que o carinho de sempre, por ter sido sempre muito mutuo, existe
Sempre
Seja no Porto, seja entre o Porto e Viseu...
Porque seja como for, sabe muito bem ser adoptada por uma madrinha com um coração tão grande!
Por isso... VAMOS VIVER!
(obrigado pela prendinha ;-)

sábado, 11 de agosto de 2007

SIM, cá estamos nós outra vez

Olá!
Sempre apanhaste o tal comboio?
Eu já perdi dois ou três...
Entre o ócio e as esquinas ganhei o vício da estrada
Nesta outra encruzilhada talvez agora a coisa dê
O passado foi à história, cá estamos nós outra vez!

Conheço a tua cara mas não sei o teu nome
Escrevo já aqui não sei o quê arroba ponto 'com'
Eu vou-te reencontrar noutro bar de estação
Ou talvez quando perder mais um avião
O barco vai de saída, tu estás tão bronzeada
É tão bom ver-te assim ardente... tão queimada

Eu quero reencontrar-te noutra esquina qualquer
Sem saber o teu nome ou se ainda és mulher
Quero reconhecer-te e beber um café
Dizer-te de onde venho e perguntar-te porquê
Sorrir-te cá do fundo e subir os degraus
Eu quero dar-te um beijo a 50 e tal graus!

JORGE PALMA
Voo Nocturno
(numa madrugada que esperava a manhã, o amanhã)

Eles MUITO vivos

Sem tempo e sem espaço… Ontem, ou anteontem, nunca há tempo, e só há, às vezes, espaço, era um concerto, era sentir num concerto ao ar livre, e ouvir a música (mais algumas partilhas) a ecoar no meio do barulho das árvores, misturada na natureza – estão sempre fundidos na natureza. Hoje era água, se calhar ontem é que era água, e muito verde, e pés descalços na terra.
Sem tempo e sem espaço… Apesar de terem falado, talvez, numa ilha, ou em duas, ou em bocadinhos de uma, ou até nove… Sem tempo e sem espaço… Porque nem o tipo de música sabiam, nem escolheram. Não precisavam, os sentidos guiam-nos sempre, e guiam-nos bem – sim conhecem os instintos, as ambições, as vontades, o querer, o saciar – deles, juntos.
Sem tempo e sem espaço, com confiança nos sentidos guiados pelo toque, pelos lábios, pelo abraço dado na hora exacta, quiçá na hora em que a saia rodada se apresenta com ar tímido, mas assumido, desafiador, nada inocente, diz ele, simplesmente encantado, diz ela… Quiçá na hora em que as mãos se tocam disfarçadamente ou as pernas se cruzam depois de se procurarem como se procuram quando só a troca de olhares não basta… Quiçá no concerto ou na ilha, com música, com árvores, com dança descalça na terra, ou era na água?


Sem tempo e sem espaço… Ela do seu lado direito, ele naturalmente à esquerda, porque ela não sabe estar, com ele, sem estar protegida... Só sabem que, onde ou quando não sabem, só sabem que estão vivos!

FOTO: Óbidos (junho/07) depois de um concerto, antes de uma ilha, sempre e cada vez mais a sentirem que estão vivos

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Equador SEMPRE ao mesmo ritmo


Equador…
Os sons quentes…
Flauta de pau e cavaquinho, a América do Sul corria a rodar a saia de flores, de flores coloridas com pé descalço.

Bato no peito de olhos fechados. Palmas no peito ao ritmo do som quente dos instrumentos de corda, de sopro… de pau…
O ritmo confunde-se com as batidas do (meu) nosso coração, porque as pernas também tremem, também dão dicas, também querem embalos, desta vez embalos na dança quente.

Um espanhol que não domino de ouvido, nem de conhecimento.
Um espanhol que domino de sensação, de vontade, de ansiedade, de certeza que um dia vamos…
Se calhar até dominamos de pretexto, ou talvez de hipótese, porque connosco qualquer coisa é possível, qualquer hipótese, não há pretextos, e até pode ser espanhol, o importante é ir, é ser…

Quero rebolar-me em ti
Quero estar envolvida
Quero ser arrepiada por ti
Quero enrolar-me nos teus braços
Quero perder-me em nós
Quero estar suada, escorregar pela tua pele, ter as tuas mãos a balançar-me as ancas, o meu peito cravado no calor do teu
Quero com força, quero com tudo, quero dentro de mim, quero a ouvir o som quente e a dançar descalça

Ao mesmo ritmo
Vamos dançar no Equador, com o Equador, a ouvir Equador

Ao mesmo ritmo
Vou louca… louca… dançar entregue a ti
...
(em noite de Festival de Folclore Internacional a ver o Grupo de Danças Tradicionais Ecuatorianas Agosto/07)

domingo, 29 de julho de 2007

Xailes e guitarras portuguesas


As fadistas tinham xaile,
e os outros tinham guitarras
(uma delas era portuguesa)
e depois começaram as palmas
e os gritos a pedir mais, a elogiar, a mandar piropos…

Veio a fadista da terra
(sorridente, entre amigos)
e depois aquele que também canta ao desafio

Houve fado vadio (como eu gosto)
mas também houve fado do fado
fado da saudade
fado cá de dentro,
fado sem palmas,
fado sem brilho, só com brio
Porque até ouve lagrimas (algumas minhas)

Depois ainda veio a que era "cabeça de cartaz"
aquela que invocou a Diva três vezes
e que cantava de olhos fechados
buscava lá no fundo as notas
que atirava ao público como melodias brutas

E por fim veio o que vive na terra
mas ninguém sabia que cantava
(e cantava bem)
o que fez uma festinha na cara da minha mãe,
enquanto cantava "Minha mãe mora no céu"
e gritou, em fado, contra as injustiças da vida… do fado.

Nesta noite... entre fados...
(vi) O sorriso feliz da minha mãe
(ouvi) As letras que me sabiam a lições de vida e (ao) o som da guitarra
(suspirei) A palavra que me lembra tudo o que respiro
(apreciei) Os xailes, acho que me envolvi neles para aquecer a alma

(decorei) Frases que vão ficar bem no artigo desta edição
(descobri) Quero uma casa portuguesa (embora dispense um ou outro elemento de decoração)
No fim... ouvi gritar: "Ser fadista é ser português"
E fechei os olhos em alguns momentos para... desfrutar e acalmar o fado dentro de mim
E dei descanso ao cansaço, descanso à rotina, e descanso à fuga de sempre, através de outra fuga.
...
Noite de Fados // Junta de Freguesia de Guifões // Matosinhos // Sabado, 28 de Julho/07
...
FOTO: Amigo guitarrista na tasta do costume - Guimarães - 15.07.05

Um fado para esta noite

Anda deitar-te,
fiz a cama de lavado
Cheira a alfazema,
o meu lençol de linhado
Pus almofadas com fitas de cor,
Colcha de chita com barras de flor
E à cabeceira, tenho um santo alumiado
Volta esta noite pra mim,
Volta esta noite pra mim,

Canto-te um fado,
no silêncio, se quiseres
Mando recado ao luar,
que se costuma deitar
Ao nosso lado,
pra não vir hoje, se tu vieres
Ponho o meu xaile,
pra te servir de coberta
E um solitário ao pé da janela aberta
Pus duas rosas que estão a atirar
Beijos vermelhos,
sem boca para os dar
Sem o teu corpo,
minha noite está deserta
Volta esta noite pra mim,
Volta esta noite pra mim
Ser agarrada,
por teus braços atrevidos
Quero o teu cheiro sadio,
neste meu quarto vazio,
De madrugada,
beijo os teus lábios adormecidos
Mando recado ao luar, que se costuma deitar,
Ao nosso lado, pra não vir hoje, se tu vieres


Música e letra: Fernanda Batista

Povo que lavas no rio

Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.
Fui ter à mesa redonda
Bebi em malga que me esconde
O beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
A água pura, puro agreste
Mas a tua vida não.
Aromas de luz e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.
Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.

Música: Fado Victoria
Letra: Pedro Homem de Melo

Uma casa portuguesa

Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riquezade dar, e ficar contente.
Quatro paredes caiadas,
um cheirinho à alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
uma existência singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tigela.
Quatro paredes caiadas,
um cheirinho à alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

Música: V. M. Sequeira; Artur Fonseca
Letra: Reinaldo Ferreira

Nem às paredes confesso

Não queiras gostar de mim
Sem que eu te peça,
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça
Vê se me deitas depois
Culpas no rosto
Eu sou sincera
Porque não quero
Dar-te um desgosto
De quem eu gosto

nem às paredes confesso
E nem aposto
Que não gosto de ninguém
Podes rogar
Podes chorar
Podes sorrir também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso.
Quem sabe se te esqueci

Ou se te quero
Quem sabe até se é por ti
que eu tanto espero.
Se gosto ou não afinal
Isso é comigo,
Mesmo que penses
Que me convences
Nada te digo.

Música: Ferrer Trindade, Artur Ribeiro
Letra: Maximiano de Sousa
Intérprete: Amália Rodrigues

terça-feira, 24 de julho de 2007

Chama-se esperar

Depois de ter visto (porque sim) na ultima vez que fui ao cinema a apresentação do filme que demorou vinte anos "a fazer", depois de 18 temporadas e 400 episódios, e mesmo lutando contra mim própria, porque não gosto de lhes chamar "a família mais divertida da televisão" – continuo fiel aos "Flinstones" – depois de um artigo na "Visão" que faz a ronda pelo intelecto de cada um dos amarelinhos, e de hoje (ontem à hora de almoço) ter trocado mil coisas importantes para fazer por uma página do "Público" com testemunhos e descrições sobre a antestreia do filme em Springfield, depois de ter dado por mim a procurar fotos do Homer, da Lisa, do Bart, da Marge, e da minha preferida a Maggie, na net às duas da manhã… e depois de não me terem enviado mensagem a confirmar as minhas mil tentativas de ganhar bilhetes para a antestreia em Portugal (quarta-feira à noite estarei totalmente "amarela" de raiva de quem me disser que conseguiu), enfim… acho que a isto se chama esperar por alguma coisa.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

O Meu Amor Existe (mestre)

O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Sarou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura.

O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe.

JORGE PALMA