segunda-feira, 16 de setembro de 2013

QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.
           
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.
           
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.
           
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.
           
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
           
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.
           
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
           
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.
           
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.
           
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.
           
Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.
           
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.


Natália Correia, Dimensão Encontrada, 1957
,,,, 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Linha Amarela

Mais um dia que acaba
e a cidade parece dormir,
da janela vejo a luz que bate no chao
e penso em te possuir.
Noite após noite, ha ja muito tempo,
saio sem saber para onde vou,
chamo por ti, na sombra das ruas,
mas só a lua sabe quem eu sou.

Lua, lua,
eu quero ver o teu brilhar,
lua, lua, lua,
Eu quero ver o teu sorrir.
Leva-me contigo,
mostra-me onde estas,
é que o pior castigo
é viver assim, sem luz nem paz,
sozinho com o peso do caminho
que se fez para tras...
Lua, eu quero ver o teu brilhar,
no luar, no luar.
Homens de chapéu e cigarros compridos
vagueiam pelas ruas com olhares cheios de nada,
mulheres meio despidas encostadas à parede
fazem-me sinais que finjo nao entender.
Loucas sao as noites, que passo sem dormir,
loucas sao as noites.
Os bares estao fechados ja nao ha onde beber,
este silencio escuro nao me deixa adormecer.
Loucas sao as noites.

Nao ha saudade sem regresso, nao ha noites sem
madrugada,
Ouco ao longe as guitarras, nas quais vou partir,
na névoa construo a minha estrada.
Loucas sao as noites, que passo sem dormir,
loucas sao as noites.
Loucas sao as noites, que passo sem dormir,
loucas sao as noites...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

massa



A solidão tem tanto de perigosa como de sagrada. Estar só, numa espécie de isolamento voluntário, decidido e conquistado, pode tornar-nos vermes como também pode transformar-nos heróis. Acho que a solidão cria um misto de verme e de herói. Reconhece-se o ser rastejante mas também o ser feito de uma qualquer massa inquebrável. E orgulho! Muito mais do que medo! A desejar e a berrar e a resistir e a fazer tantas e tantas vezes de conta, o orgulho nessa massa substitui o medo. A solidão carrega o perigo da crueldade. Os humanos que se alimentam de outros humanos, canibais e vampiros de ideias e de sentimentos, para se fortalecerem. Os vermes! Um dia heróis! Mas quase sempre canibais! Canibais quando sugam momentos de felicidade alheios ou mesmo imaginados para alimentar a alma e o corpo carentes de toque. Vampiros, quando saboreiam sentimentos que não lhes pertencem como se fossem seus, só para armazenarem defesas que lhes permitam rastejar mais. E eis outra vez o orgulho! Acho que é o orgulho do verme que tem um quê de herói, mas consciência plena de que, no fundo, lhe sabe melhor a força e a certeza e a convicção e os dentes cerrados. Sabe-lhe melhor o pó da terra. Sabe-lhe melhor a água turva. E, é assim, que a solidão se torna sagrada… Na força! 
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quarta-feira, 10 de julho de 2013

calor + berros = VIDAS!

CULPA: TNT Todos no TOP da Comercial!
NOME: A música do verão 2013!
CONCLUSÃO: Vidas!
E é para cantar aos BERROS, apesar da caminhada ser de phones algures num quarteirão adormecido de calor e de paragem letiva!!!!!!!
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