sexta-feira, 30 de março de 2007

(não) Despedida


São como as rosas de um dia,
Os amores de um estudante,
Que o vento logo levou;
Pétalas emurchecidas,
Deixam no ar o perfume
De um sonho que se sonhou;
Capas negras de estudante
São como asas de andorinha
Enquanto dura o Verão:
Palpitam, sonham uns instantes
Aninhadas nos beirais
Do palácio da Ilusão.
Quero ficar sempre estudante,
Para eternizar a ilusão de um instante,
E, sendo assim, o meu sonho de amor
Será sempre rezado baixinho dentro de mim
Os amores de um estudante
São franjas de ondas do mar
Que os ventos logo varreram;
Pairam na vida um instante,
Logo descem, depois morrem,
Mal se sabe se nasceram.
Mocidade, ó mocidade
Louca, ingénua e generosa
E faminta de Ilusão,
Que nunca sabe os motivos
De quanto queira um capricho
Ou lhe diga o coração!

21 de Março/07 (quarta-feira) // 21h31 // Festival de Tunas // ISEP
Uma noite de recordações…
Chorei…
Senti orgulho… Parabéns amiga, estavas tão bonita (o lacinho azul fica-te muito bem). A Guarda, a Tuna, o traje, tudo te põe bonita e é delicioso fazer parte das tuas recordações de tunante, ser o elo que terás na capa pela tua vinda ao Porto.
Lembrei-me de tudo… Da água fria dos Leões, aos gritos orgulhosos em frente à tribuna. As minhas meias rotas, a minha capa cheia de Vinho do Porto, as minhas fitas assinadas, as lágrimas embriagadas das serenatas. A madrinha, o padrinho (conselheiro), os afilhados, os amigos, os anões…
A cumplicidade!
Percebi, perante tunas de tantas casas, que nunca tive casa. Não pela expulsão ou pela segunda fase, mas porque é mesmo assim… Há sempre aqueles que são órfãos, aqueles que não esquecem o tricórnio, mas que têm muito orgulho por ter abraçado a Torre dos Clérigos.
Chorei…
Chorar de saudade é bom, faz bem ao espírito, liberta os receios que estão cá dentro.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Sinais


"Da cidade de Zirma os viajantes tornam com recordações bem distintas: um negro cego a gritar no meio da multidão, um louco a debruçar-se do terraço de um arranha-céus, uma rapariga a passear com um puma pela trela. Na realidade muitos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céus há sempre alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nos terraços, não há puma que não seja criado por um capricho de rapariga. A cidade é redundante: repete-se para que haja qualquer coisa que se fixe na mente.
Eu também estou de regresso a Zirma: a minha recordação compreende dirigíveis que voam em todos os sentidos à altura das janelas, ruas de lojas onde desenham tatuagens na pele aos marinheiros, comboios subterrâneos apinhados de mulheres obesas cheias de calor. Em contrapartida, os companheiros que estavam comigo na viagem juram que viram um único dirigível pairar por entre os pináculos da cidade, um único tatuador colocar na banca agulhas e tintas e desenhos perfurados, uma única mulher-canhão a abanar-se na plataforma de uma carruagem. A memória é redundante: repete os sinais para que a cidade comece a existir."

“Cidades Invisíveis” (capitulo II)
Ítalo Calvino

Um livro que parece ter perninhas. Lá voltaste à minha bolsa, à minha rotina, às minhas horas de descanso, ao jardim visitado depois de almoço, ao autocarro apinhado na hora de ponta. Mas tens de voltar à estante. Vou pôr-te um ponto final. Preciso de mais, tu já me deste sinais que chegue.

terça-feira, 20 de março de 2007

Partilha


A força dos desejos e dos impulsos
Desta vez matinais

Abre-se a porta, num murmúrio
Entras pé ante pé

Volto a sentir a tu boca e o teu toque
Sou tua, porque sempre fui
Mesmo não tendo sido

Os raios de sol confundem-se com nosso calor
Que ternura

Adormeço
Num embalo… perfeito

Já tenho saudades
Tenho sempre

Faz-se silêncio
Silêncio sentido, feliz
Partilhado na dualidade da distância

segunda-feira, 19 de março de 2007

Insónia


Era tão bom que tivéssemos um botão daqueles botões de on/off.
Não quero voltar a entregar-me a vocês.
Passo a mão pelo corpo, suspiro, tapo-mo e destapo, não sei se tenho frio ou calor, não sei o que tenho, só sei o que quero.
Quero dormir!
“O General e o Juiz” de Luís Sepúlveda é o livro de cabeceira, mas estou inquieta demais para ler e o acto de ler merece mais de mim.
Já tentei tudo.
A música desperta-me e não me embala. Alias, não gosto de nada. Hoje só se fosse Fado Vadio.
A mão outra vez. As mesmas curvas percorridas. Procuram alguma coisa, alguém de quem já são dependentes. Culpam-me! Censuram: outra vez!
Estou confortável, os suspiros confundem-se com o olfacto assim como a memória ignora a vontade de dormir.
Mas preciso tanto e não quero entregar-me a vocês.
78 cêntimos no telemóvel, casa vazia, quatro resistentes na net. Aturam-me os 93 do costume, aqueles que já adivinham as minhas noites assim e sabem que são cúmplices delas.
Já são horas… vocês estão a ganhar terreno. Sou fraca!
Enrolo-me nos lençóis, rebolo na cama, fecho, abro, pisco os olhos com força.
Já não consigo pensar, só quero adormecer!
Mas resisto, não vou entregar-me a vocês outra vez!

Esta noite lembro-me…


Lembro-me de ser pequenina e ter medo da noite que hoje amo tanto.
Lembro-me de ter medo de não acordar no dia seguinte.
Lembro-me de ficar contente por a minha avó me chamar para rezar o terço quando ela tinha insónias.
Lembro-me de rezar e até me lembro do que rezava, mas há muito tempo que não rezo.
Lembro-me da minha irmã me embalar o sono, desesperada porque não a deixava dormir.
Lembro-me de ter aprendido a tabuada por a ir repetindo ate adormecer.
Lembro-me de não gostar de ver o meu pai à noite porque era sinónimo de jantar e cama.
Lembro-me de gostar de o ouvir chegar das jantaradas ou de jogar futebol, às quintas, e de querer acompanha-lo enquanto comia qualquer coisa. E lembro-me de ser a única a gostar de ser acordada por ele e de sentir orgulho nisso.
Lembro-me de gostar, já nesse tempo, de ficar do lado direito.
Lembro-me que gostava mais da cama de Guimarães do que da cama da Póvoa. Até me lembro do meu pijama preferido na infância.

Lembro-me que, antes das obras, a televisão se via só de um dos lugares da cama, e que esse lugar era, pelo respeito da idade, da minha irmã.
Lembro-me de gostar de sexta e de sábado, porque ela voltava a casa, e já nem me interessava o lugar da tv.
Lembro-me de achar que tinha monstros debaixo da cama.
Lembro-me de ligar as luzes todas, uma por uma, para ir à casa de banho.
Lembro-me de olhar para a luz do despertador e achar que eram os “olhos do mau”.

Lembro-me de pedir, à minha irmã, que me acordasse se me ouvisse a deixar de respirar.
Lembro-me de ela me agarrar forte durante o sono, enquanto sonhava, e de gostar disso.

E tu lembras-te destas coisas? Lembras-te das competições para ver quem vestia o pijama primeiro? Lembras-te de mim, às vezes, antes de adormecer?

Hoje lembrei-me, de uma forma muito nitida, como se fosse um eco, da frase que inventei contigo, com a pessoa com quem melhor dormi na vida, que mais descanso ao sono me deu até hoje. Quero dizer-ta porque não a dizemos à muito tempo. Gosto de ti assim, gosto muito dele também, do meu novo irmão mais velho, mas tenho saudades de ti solteira... “Boa noite, até amanhã, dorme bem, sonha com os anjos e comigo também” (só nossa)

domingo, 18 de março de 2007

Promessa é promessa…

(Sobre: quinta-feira, 15 de Março/07)
Sentadas no Piolho na que foi a verdadeira “saída caseira”: primeira vez sozinhas, a vez mais cúmplice, com a solidariedade a embrulhar a noite sem lua, ouviu-se: “Tens aí aquele livro de poesia?” ; “Sim”.
Aberto ao acaso, que nunca se engana, eis o poema que celebra o nosso momento. Prometi publica-lo (apesar de ser enorme) em jeito de dedicatória e de sumário da noite.
A foto: os Aliados como cenário, a bebida de eleição (quantos foram? Ahh 2+3+4) e algo de natureza para fazer-nos sentir os pés na
Terra.
Promessa é promessa colega… (olha o titulo com os três pontinhos de que gostas tanto) aqui tens, para ambas reflectirmos e partilharmos!
...
Tenho o furor de amar. Meu coração é louco.
O quando e o onde, e a quem, importa pouco
Que o clarão de beleza, virtude, ou pujança
Brilhe, e ele se precipita, e voa, e se lança.
E, enquanto a posse dura, de mil beijos cobre
O objecto ou o ser que o seu entusiasmo dobre
De um valor que não tem. Quando a ilusão se encolhe.
Regressa triste e só, mas fiel, como quem escolhe
deixar de si aos outros, ele, alguma cousa
De sangue ou carne. Mas não morre, nem repousa,
E o tédio o faz partir para a terra das Quimeras,
De onde nada trará, só lágrimas severas
Que saboreará. Teimoso segue avante,
Sem querer se dar conta que na infinitude,
Navegador casmurro, há sempre um escolho que há-de
Fazê-lo naufragar antes que aporte à margem
A que apontara o rumo da perdida viagem.
Mas trampolim ele faz do escolho, e logo nada
Para a praia. Lá está. Mas estranha vezada
Será que avidamente não corra e percorra,
Desde que o sol é nado até que o presente morra,
De lés a lés o promontório inteiro.
E nada! Árvore ou erva ou fonte no braseiro,
Mas fome só, e a sede, e o sol como metal,
E nem vestígio humano, um coração igual!
A ele não – jamais há-de encontrar alguém –
Mas coração humano, um coração também,
Que esteja vivo, ainda que falso, palpitante!
E espera, sem perder a força latejante
Que a febre lhe sustenta, e que o amor lhe ganhe,
Que um barco o mastro erecto ao longe lhe desenhe,
A que faças sinais, e venha, e que o recolha:
Assim ele raciocina. E quem se fia? Olha!...
Apóstolo tão estranho, um dia há-de acabar.
Se a morte o deixa sempre, aos outros quer matar.
Os mortos, os seus mortos, mais morto ele está
Uma fibra qualquer, sempre nas tumbas há,
Do seu fogoso ser, que aí vive docemente.
Aos mortos amo como uma ave o ninho quente.
Lembrá-los – almofada em que adormece e vai
Sonhar com eles, vê-los e falar-lhes. Sai,
Ainda embebido deles, para uma aventura horrenda.
Tenho o furor de amar. E então? Não tenho emenda.
...
Paul Verlaine

sábado, 17 de março de 2007

Amorzade

Tive uma semana muito boa no que se refere a esse sentimento que tem tanto de bom e profundo, como de inseguro. Os amigos servem para amar e mostrarem/projectarem amor. Disseram-me que também serviam para perdoar, eu penso que servem para aceitar.
Gosto de estar presente em festas de anos, acompanhar as etapas felizes, da mesma forma que gosto de marcar presença naquele cafezinho ao fim da tarde que tem sabor de desabafo.
Gosto de trocar um olhar cúmplice com a amiga de sempre por causa do miúdo giro do canto da sala, da mesma forma que gosto de piscar o olho ao amigo que precisa de um ombro.
Esta semana senti-me sozinha no meio de uma multidão (multidão de gente, multidão de sentimentos) e quase ao mesmo tempo recebi bonitas demonstrações de amizade, momentos espontâneos de afecto que souberam a reencontro. Um reencontro silencioso marcado por um abraço voluntário entre corpos que quiseram perdoar-se… Não, quiseram aceitar-se.
Entre silêncios partilhados (palavras que me parecem cada vez mais conjugáveis), embalos nocturnos, encontros que projectam o passado a provar que esta vivo o presente, e eternizado o futuro, entre jantares simples, com cozinhados simples, feitos com o coração, saídas que começam e acabam com solidariedade, e entre algumas promessas íntimas e solitárias, alguns ciúmes que só elevam o ego, e frases que, interpretadas como elogio, sabem a reprovação e ameaça… tive uma semana pautada de amizade.
E a amizade é amor!
É tão bom sentir amor outra vez…



Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado.
Goethe

terça-feira, 13 de março de 2007

Duas amigas


20h00//Ermesinde //Condomínio das Formigas//Jantar e um belo serão

Uma sopa de ervilhas porque o feijão verde dá trabalho a arranjar e afinal, nem é preciso, porque é primo das ervilhas. Pizza congelada a lembrar a vida de estudante (que saudades das noitadas, da paprica, da casa acolhedora perto de tudo) e frutinha aos bocadinhos para ficarmos bem alimentadas.
Cigarrito e cozinha arrumada, chega a hora de pegar na tese e nos artigos da edição desta semana para o belo JM.
Conversa caseirinha: “Queres tostas com Vaca que ri? Olha que é ligth”, diz a Lena. “Tu não és preta, a mãe é que é branca demais”, diz a Paulinha. “Já não gostava do cenário mas acho que ainda ta pior” (sobre o “Um Contra Todos”). Resposta: “Ta xoxo”. (fica no ar “xoxo” é com ‘x’ ou ‘ch’?). Aleluuuuiaa (com quantos ‘u’? 3/4, com quantos ‘a’ – põe só 2).
Perdeu-se um talento musical por causa das muitas faringites de infância: consta que a Lena tinha uma boa voz para as visitas pascais.
Regina Duarte e Sónia Braga, duas actrizes brasileiras bem conservadas e que não precisam de provar nada a ninguém, protagonizam o momento novela deprimente da noite: “Tapa de amor não dói”. Por sua vez, Isabel, Simone e Jorge de “Páginas da Vida” protagonizam o melhor momento: “Tou com você para rir e para chorar”.
ESTA DECIDIDO – vamos postar isto nos nossos blogs. Perfeito, perfeito… Só se fosse ao mesmo tempo!
Da brasileirada passamos para a Maria Laurinda e viva a Floribela acabou, paz à sua alma, mas só temos um mês de férias, porque a “Tripeirinha” às flores ressuscita daqui a um mês.
23h12
Tese: 0 – Noticias JM: 0
Humor: muito – Responsabilidade: pouca
GANHA: a amizade, que é como quem diz, ganha o ócio, o belo do “não fazer nada”.
Lena chiba-se, vai ganhar o dobro em Viseu, junto do aconchego dos pais, numa empresa que já lhe chama mestre, mas numa plataforma que ainda não domina. Paulinha responde: “Vai pra Viseu, já nem tenho pena de ti, minha desgraçada”.
Eis que surge o som do grande Tony Carreira na TV, cabelo seco, pijama emprestado, soninho a vir e a ir entre a escolha da foto apropriada ao momento.

“Eram duas amigas desfolhando a sorte
Acenando os dotes que a vida lhes deu
Eram duas compinchas a tagarelar
Dispunham de tempo e espaço
O limite era o céu”
JORGE PALMA
...
PS: faltam tantas saídas brilhantes da noite bem passada, cortamos na casaca de tantos/as. É vida, não registamos, não por cobardia, mas sim porque não queremos ferir susceptibilidades e guardamos para a memória o melhor do (re)encontro/despedida das formigas.

Um convite simples

O nome surgiu por causa do papel de parede escolhido, a rua é a da Picaria, pleno coração da baixa portuense. Chama-se Rosa Escura e é um salão de chá/lounge café que faz o paralelo entre o bem-estar e a arte.
“A nossa intenção é ter um público-alvo semelhante ao do Lusitano [ali tão próximo - Rua José Falcão] e dinamizar a baixa do Porto”, explica Pedro Torres, um dos dois sócios do Rosa Escura.
A decoração do espaço ficou a cargo de João Madureira. Sobressaem as cores quentes do mobiliário de época (anos 60/70) que se interligam com o verde água da parede ou com o “muro” de papel cheio de rosas negras. A conjugação entre os elementos da natureza é conseguida através das almofadas cor de vinho e verde forte, enquanto uma cor prende o cliente à terra, a outra encarrega-se de o ligar ao ar e ao mar. “Queremos que as pessoas estejam confortáveis como se estivessem em casa”, adianta Pedro Torres.
Uma das curiosidades deste café é que todo o mobiliário está à venda. Qualquer cliente que se sinta atraído por um dos candeeiros de pé ou pelos espelhos e quadros que ladeiam as paredes e o balcão, pode pedir a lista de artigos e consultar os preços. Segundo o sócio do Rosa Escura, a ideia é “garantir que este espaço estará em permanente remodelação”.
E para além de desfrutar de um espaço confortável que convida o cliente a pôr a leitura em dia – a mesa com jornais diários e revistas fica logo à entrada – estão patentes exposições de artistas autopropostos. O pintor Alexandre Santos foi o primeiro e Pedro Torres lembra: “Estamos abertos a propostas. Além de pintura temos projectos ao nível de fotografia, escultura e artigos em prata”.
Aconselham-se os chás e fatias de bolo para o lanche e os copos de vinho acompanham uma boa conversa ao serão.

Rosa Escura
Rua da Picaria
Aberto das 10h00 às 01:30 (até às 02h00 aos sábados)
Sem consumo obrigatório
TEXTO: escrito em Out/06

segunda-feira, 12 de março de 2007

Soneto do Amor Total


Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


Vinicius de Moraes
"Poemas de Amor e Abandono"

Carinhoso

Meu coração
Não sei porque
Bate feliz, quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim, foges de mim
Ah! Se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E muito e muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor
Dos lábios meus
À procura dos teus
Vem matar esta paixão
Que me devora o coração
E só assim então
Serei feliz, bem feliz

João de Barro
Pixinguinha

sexta-feira, 9 de março de 2007

Elogio a uma paisagem singular

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar
Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
erigida sobre um monte
no meio da neblina.
Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós. E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria
Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento
E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

Porto Sentido
Rui Veloso

terça-feira, 6 de março de 2007

Os (pequenos) momentos que compõem a vida

A manhã (de ontem): o sono muitas vezes interrompido pelo coração a bater muito rápido. Voltaram os momentos que nunca soube explicar em que acordo comigo mesma, e repare-se, não é por mim mesma, mas comigo. O telemóvel fez as honras ora com mensagens (umas enviadas outras por enviar), ora com um despertador que já nem dá credito à dona. Arrependimento – muito; relaxe – o suficiente; coração – não foi desta que saiu do peito.

Ensinamento da tarde: se fizer sempre isto vou ter de conviver com a minha própria culpa. Não ir à redacção, por capricho, é o mesmo que o “bom jogador” não saber agarrar a titularidade por chegar tarde aos treinos. Ai… sempre atrasada, sempre indecisa, sempre a ver a repetição do Golo, porque estava distraída com qualquer coisa que se passava do outro lado do campo.

Pela noite dentro: uma entrevista de duas horas desgravada às cinco da manhã, depois de muito petiscar na cozinha, duas Super Bock’s no café (mais ou menos) do costume, em dia de capas negras, uma novela na TV, uma novela caseira com uma colega sorridente, duas séries e um filme qualquer apanhado por acaso num zapping tresloucado de quem quer adiar o trabalho.

Do filme, que nem sei o nome, regista-se o diálogo entre os assaltantes do banco. Teddy diz: “a vida é uma série de coincidências”, ao que Billy responde: “a vida é uma comédia de erros”. Bruss não concorda e fala em amor. É tão bom ver o durão da fita (porque nesta não havia maus da fita, só moços desajeitados) a falar em amor.

Da entrevista, com o senhor presidente da Junta, registam-se frases boas para título, frases boas para se iniciar um romance e outras que não lembram a ninguém (haja humor e criatividade). Fica a certeza de que não gosto da minha voz e de que, quando estou nervosa, faço as perguntas mais parvas da história. A pseudo-jornalista lenta e dislexica aprende que há que dar uso ao e-mail, quando a chefe e o entrevistado não se importam. E que palavras simples como “demasiado”, se escrevem exactamente assim e não mil vezes “demaseado”, mil vezes sublinhada pelo word a vermelho.

Inicio de um novo dia: eis que a colega de casa ensonada pergunta porque acordei tão cedo. “Ainda não dormi direito”, respondo. Daqui por horas, ela não sabe se sonhou ou se cruzou comigo e eu ainda não tenho a certeza de que não estou a viver um delírio. Nasce um novo dia lá fora, a chuva mostra que veio para ficar, mas isso não me incomoda, gostei de lhe acompanhar o humor durante a madrugada, foi e voltou, assim como o passageiro de autocarro segue viagem rumo a mais um dia de trabalho.

Expectativas? Mais mundinho matosinhense, mais conversas banais (ou não) na redacção e na net, joguinho de futebol entre o Chelsea e o FC Porto (que ganhe o pior ou perca o melhor), uma festa de anos para fechar a noite, possivelmente com amigos antigos com quem não estou há algum tempo e, com sorte, a responsabilidade bate-me à porta e volto a casa cedo, ou então ninguém sabe o que reserva a noite, porque esse é o encanto da vida e dos seus pequenos momentos.

Com muito, muito, muito brilho, BOM DIA!

segunda-feira, 5 de março de 2007

Vida

A vida faz-se de momentos únicos
A vida faz-se de recordações e de remember´s do passado com os amigos de sempre
A vida faz-se de regressos a casa com a chuva a cair na cara
A vida faz-se de cigarros cravados com um olhar
A vida faz-se de mensagens receosas e telemóveis em silêncio quando o coração treme por mais

A vida faz-se de corpos fundidos, como que por magia e sem explicações
A vida faz-se de fruta descascada com muito amor
A vida faz-se de chaves emprestadas a um casal de amigos para que cumpram os apelos de si mesmos
A vida faz-se de copos de vinho eternos
A vida faz-se de coisas simples e de histórias simples e de conversas simples e de jantares simples e de partilhas simples
A vida faz-se de tardes de Inverno em frente ao mar e de Verões na serra com o ar condicionado avariado
A vida faz-se de suores frios e quentes
A vida, às vezes num só momento eternizada, faz-se de abraços perfeitos
A vida faz-se de silêncios partilhados
A vida faz-se de fins de tarde a ver os miúdos jogar futebol, depois de terem deixado os trabalhos de casa meios acabados
A vida faz-se de medos e de paixões… simples
A vida faz-se de dualidades

domingo, 4 de março de 2007

Paisagem


Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheiros onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.
"Poesia"
de Sophia de Mello Breyner Andresen
1944

Cada acorde de ideias


Podia ter sido num baloiço de praia, esquecido à noite, com o vento na cara, o som e o cheiro do mar. Mas não havia baloiços na Praia da Memória (que nome, que inspiração), havia um passadiço de madeira, arvoredo, um monumento, dunas e desconhecidos daqueles que cumprimentam toda a gente sem segundas intenções. É tão bom partilhar um “Boa Tarde” com quem partilha a paisagem e o vento.
Podia ter sido de tantas formas, em tantos momentos, existiram tantas oportunidades, mas foi ali, com as tábuas de madeira debaixo dos pés a ranger, como se estivessem para se abrir a qualquer momento, devolvendo-nos à terra.
Podia ter sido em qualquer lado, a ler uma passagem qualquer de um livro oferecido, a ouvir um autor qualquer desconhecido (para já), mas quiseram os elementos que fosse ali. Com o vento na cara, a terra, mais do que a imensidão do mar, a mostrar-me o horizonte, e o sol a pôr-se lentamente, como quem pede autorização para entrar aos bocadinhos.
Fogo/Terra/Ar/Água, qual sintonia perfeita?
Mas foi ali que tudo se definiu, que o pensamento voou e definiu os contornos do eterno, sem angústia, sem mágoa, só com muita fé e brilho.

Já só faltava completar o voo, partilhar a eternidade… Tudo perfeito, deliciosamente perfeito e intenso…
Por cada acorde da musica, por cada acorde de tempo, por cada acorde que traçaste no meu corpo, por cada acorde de ideias… OBRIGADO porque não há palavra mais pura, nem que se conjugue melhor com DUALIDADES