
Primeiro porque quando espirram assustam todos os outros bichos, e sacodem as árvores e as coisas, e algumas chegam mesmo a perder a cabeça (a cabeça pode saltar com a força do espirro); depois porque é difícil conseguir um cachecol capaz de cobrir pescoços tão compridos.
Olímpia, porém, gostava de andar com a cabeça nas nuvens – queria ver os anjos.
A avó Rosália, mãe de dona Augusta, dissera-lhe que os anjos dormem nas nuvens. Também lhe dissera que quando as pessoas morrem se transformam em anjos.
Dissera-lhe isso pouco antes de morrer.
Por isso Olímpia passava o dia inteiro com a cabeça enfiada nas nuvens. Tinha saudades da avó.
À noite comia estrelas.
Enquanto as outras girafas dormiam, Olímpia subia ao morro mais alto da savana, levantava o pescoço e comia estrelas. As estrelas ardiam um pouco na garganta, mas eram doces e macias, e sabiam a pêssego. Ao contrário do que seria de supor, a noite não ficava mais vazia por causa disso.
À medida que Olímpia comia estrelas, outras estrelas nasciam, novinhas em folha, brilhando ainda mais do que as antigas.
Assim, de certa forma, ela renovava a noite. Olímpia nunca encontrou nenhum anjo.
(…)
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
Pequena estrela… Agora faltam menos de cinco meses, e continuo, assim, a dar-te as boas-vindas. Sabes que já tens um quarto bonito com paredes pintadas de verde e amarelo e de amarelo e verde? E tens muitos e muitos casaquinhos e coisinhas que a avó não pára de fazer. E tens outras coisinhas que a tia comprou e tens a promessa… Vamos conhecer muitas histórias, pequena estrela? Sinto-te ansiosa por sentir o ventinho do céu e o quentinho do sol… Até já estrelinha brilhante!
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