segunda-feira, 22 de setembro de 2014

TREMER


Foi no tempo da inocência toda. Quando não tinha medo do futuro. As palavras saiam sem filtros. Com a insegurança toda que o tempo da inocência acarreta, mas sem filtros. Lembro-me, no entanto, de tremer. Não tinha medo de tremer. Saboreava. Não há vez que ali volte que não sinta a espinha gelada. Uma saudade da inocência. Uma angústia face à ausência dela. Os movimentos estavam, isso é facto, constrangidos. Persentia-se, desejava-se o pretexto rápido. Os movimentos fluíram entretanto. O passado roubou-lhes o constrangimento. O futuro camuflou-se de anestesia. Não há vez que por ali passe e não me arrepie a nitidez como me recordo do tremer. Foi no tempo em que não tinha medo de ter medo. Foi no tempo em que o medo não sabia sequer que existiam filtros. A fluidez dos movimentos explica-se no contraditório, na ausência de inocência, na perspectiva da espinha gelada. Não há vez que ali me sente que não sinta, contraditório outra vez, a ausência de sentir, apesar do tremer todo me tomar conta do corpo, apesar de ter os filtros todos em alerta. Foi no tempo da ausência de passado. No tempo da inocência do futuro todo.       

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sábado, 22 de fevereiro de 2014

TAXI n.º 273


Sobre a miséria de ter gasto todos os créditos de bateria dos dois gravadores com políticos… Numa noite em que voltei a questionar – desta vez tão profundamente e dramaticamente ao ponto de quase fazer aquele telefonema adiado da desistência – o que estou eu a fazer/investir/lutar numa função que não domino por não ter competência, eis-me salva por aquilo que nunca soube explicar: o amor aos táxis misturado com a noite, misturado com a chuva da Invicta.
Admito, de imediato, que não saberei expressar-me bem. Não pelo travo de cevada ainda leve. Mais pelo medo, pela culpa, pelo desespero de ter sido (SER) incompetente. E mais ainda pela certeza de que não se expressa uma sensação que se mistura com chuva e com noite…
O sr. José Barreto, sem o saber, salvou-me a madrugada. O taxista/poeta, sem o ter percebido, provavelmente e ainda que correndo o risco de parecer, outra e mais uma vez dramática, salvou-me hoje a vida.
Quis chegar rápido a casa tão fortemente quanto quis que a viagem se prolongasse.
Começou por ser um poema sobre a Invicta, acabou no poema sobre a nudez de Eva, depois de uns tantos versos inspirados em Garrett, em Nasoni e até nas imagens de José Luís Peixoto. Todos de “punho” próprio. “Inspiro-me ao ver, na postura, as gentes a passar”.
Perguntei-lhe se amava conduzir e se amava a noite… Só assim perceberia o “desaproveitamento” de talento apostado num táxi… “Sou um volante, menina… É o que sei ser… Um volante”.
Que miséria ter gasto a bateria de dois gravadores com os políticos que nem soube interpretar bem: nem a gosto profissional/pessoal e muito menos a contento da chefia. Muito menos com a destreza e rapidez que busco como apanágio de mais-valia para a tarefa que me destinam…
Numa noite em que só queria chegar a casa para esquecer a incompetência, fui salva por um táxi, salva por um taxista/poeta.
“Gostava de ter gravado esta viagem…”, disse-lhe, depois de confessada a profissão e o lamento de estar a fazer parte de um possível último serviço. “Chame-me, menina, a qualquer hora da noite e onde esteja e dou-lhe boleia e poemas”, respondeu-me o sr. José Barreto que até quis fazer desconto, quando merecia era ser pago pelo transporte/literatura em dobro, quando lhe contei, com uma espontaneidade e à vontade que nem nos confidentes mais próximos reconheço, o porquê de não necessitar de fatura no fim e o porquê de não partilhar o mesmo amor à estrada.
Menos de 10 minutos de viagem (algures entre a Casa da Música e a Fundação Cupertino Miranda em passo largo para o Hospital S. João, num pingo pela certeza de que só a chuva lava a convulsão cerebral) pareceram horas inteiras de alento oferecido por uma generosidade simples só reservada aos seniores e aos sábios – o taxista/poeta sr. José Barreto do n.º 273.
Que miséria não saber expressar-me bem agora mesmo. Nem mais travo de cevada desempecilha isto: esta fraca incursão pelo desabafo.
Que miséria porque a poesia de um trajeto frio e com chuva, numa Invicta deserta que tinha tudo para me engolir viva tal era (É) a sensação de incompetência, merecia.
Ganhei a noite dentro de um táxi depois de horas a "ganhar a vida" com política.
Perdi a noite por falta de bateria e de memória porque os poemas mereciam mais precaução, mais desenvoltura no resumo escrito em forma de agradecimento ao poeta/taxista.
Perdi a vida na conclusão, obvia ainda que outra vez adiada, de que falta capacidade, destreza, rapidez, onde sobra incompetência.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Da vontade ao assombro!


Da coragem (“coragem” talvez não… foi mais “vontade”) à…
Da vontade à reflexão (“reflexão” é vago e simples… foi mais “assombro”).
Da vontade ao assombro com medo!
Infelizmente, medo!
Irritam-me as “verdades absolutas” no “auge” dos 30 anos.
E a quantidade de vezes que me assusto ao ouvir repetidamente “isso é assustador”.
O absoluto do “isso é assustador” assombra. Há falta de modéstia perante o que de facto é o “susto” quando se repete como uma “verdade absoluta” que isto ou aquilo é “assustador”. E a credibilidade foi-se como a vontade… Foi-se!
Eis a frustração então…
E com a frustração não lido bem! Torno-me defensiva! Invento argumentos! Empolo justificações! É preciso ganhar a discussão à força toda!
Promete-se secretamente que se vai medir a “vontade” para a próxima vez. Pelo sossego! Pelo respeito ao “susto”!
Desculpa lá!
Desculpa porque o pontapé de saída até foi dado por mim… A interrupção do jogo também… Correndo o risco de, daqui em diante, ganhar apenas por falta de comparência tua, desculpa lá!
E obrigadinhos! Por nada neste caso! Mesmo por nada… Infelizmente! Por culpa mutua: há quem se assuste muito e quem respeite o susto…
Só que há quem dê mais valor ao "respeitar o susto”... O que é, acima de tudo, TAMBÉM legítimo!




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.
           
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.
           
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.
           
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.
           
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
           
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.
           
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
           
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.
           
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.
           
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.
           
Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.
           
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.


Natália Correia, Dimensão Encontrada, 1957
,,,, 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Linha Amarela

Mais um dia que acaba
e a cidade parece dormir,
da janela vejo a luz que bate no chao
e penso em te possuir.
Noite após noite, ha ja muito tempo,
saio sem saber para onde vou,
chamo por ti, na sombra das ruas,
mas só a lua sabe quem eu sou.

Lua, lua,
eu quero ver o teu brilhar,
lua, lua, lua,
Eu quero ver o teu sorrir.
Leva-me contigo,
mostra-me onde estas,
é que o pior castigo
é viver assim, sem luz nem paz,
sozinho com o peso do caminho
que se fez para tras...
Lua, eu quero ver o teu brilhar,
no luar, no luar.
Homens de chapéu e cigarros compridos
vagueiam pelas ruas com olhares cheios de nada,
mulheres meio despidas encostadas à parede
fazem-me sinais que finjo nao entender.
Loucas sao as noites, que passo sem dormir,
loucas sao as noites.
Os bares estao fechados ja nao ha onde beber,
este silencio escuro nao me deixa adormecer.
Loucas sao as noites.

Nao ha saudade sem regresso, nao ha noites sem
madrugada,
Ouco ao longe as guitarras, nas quais vou partir,
na névoa construo a minha estrada.
Loucas sao as noites, que passo sem dormir,
loucas sao as noites.
Loucas sao as noites, que passo sem dormir,
loucas sao as noites...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

massa



A solidão tem tanto de perigosa como de sagrada. Estar só, numa espécie de isolamento voluntário, decidido e conquistado, pode tornar-nos vermes como também pode transformar-nos heróis. Acho que a solidão cria um misto de verme e de herói. Reconhece-se o ser rastejante mas também o ser feito de uma qualquer massa inquebrável. E orgulho! Muito mais do que medo! A desejar e a berrar e a resistir e a fazer tantas e tantas vezes de conta, o orgulho nessa massa substitui o medo. A solidão carrega o perigo da crueldade. Os humanos que se alimentam de outros humanos, canibais e vampiros de ideias e de sentimentos, para se fortalecerem. Os vermes! Um dia heróis! Mas quase sempre canibais! Canibais quando sugam momentos de felicidade alheios ou mesmo imaginados para alimentar a alma e o corpo carentes de toque. Vampiros, quando saboreiam sentimentos que não lhes pertencem como se fossem seus, só para armazenarem defesas que lhes permitam rastejar mais. E eis outra vez o orgulho! Acho que é o orgulho do verme que tem um quê de herói, mas consciência plena de que, no fundo, lhe sabe melhor a força e a certeza e a convicção e os dentes cerrados. Sabe-lhe melhor o pó da terra. Sabe-lhe melhor a água turva. E, é assim, que a solidão se torna sagrada… Na força! 
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