quinta-feira, 24 de junho de 2010

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Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo deantemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amorpassou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-senuma variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que deviaser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam"praticamente" apaixonadas.Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem,tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides,borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos ocoração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha.Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor.É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá paraperceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É´a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha,não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém.Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.


*ELOGIO AO AMOR
Miguel Esteves Cardoso
in Expresso

*1

Por causa das circunstâncias da vida, a maior parte das pessoas não tem condições de escolher ou de aguardar o amor total. A questão colocada (e profunda) é: quem escolhe? Quem pode dizer-se capaz de escolher? Quem pode garantir a sua capacidade de não ceder ao acto de ser escolhido/a?Só quando a escolha é mútua se dá a raríssima possibilidade de felicidade. Em geral, aceita-se ser escolhido ou luta-se por quem se escolhe. Raro é o caso em que não há escolha: há descoberta mútua. Nesse caso, a amor pode vir a ser total.A mútua descoberta prescinde da escolha. Ela cria um mágico território de adivinhações. Não é, porém, o habitual. Ou o homem escolhe a mulher na base de apelos variados (sensualidade, afectividade ou segurança) ou a mulher escolhe e consegue conquistá-lo.Só conquista quem "ganha" a alguém, quem "vence" outrem. E amor não é vitória, é descoberta! É profunda afinidade inexplicável.
O "tu" não é um resultado do eu que o ama e invade. O "tu" é o máximo de liberdade porque con-vive com o eu, sem ser o eu e convive com o nós sem, igualmente, o ser.O "tu" é a descoberta e a percepção do outro. A possibilidade de ficar com ele, sem jamais ficar como ele. É saber do outro, sem sair do "eu" e sem trair o "nós".
Sem paz, não há amor. A invasão de paz talvez seja o maior indicador do sentimento que por arder parece ser o inverso: o amor.A paz é amor porque só surge quando se está ao lado de alguém sem medo, sem culpa, sem pena, sem ter que explicar ou se explicar, sem interesse algum, senão o de ficar ali.
Não tema o romantismo. Saia a cantar e olhe com alegria. Recomenda-se: ser apanhado em flagrante gostando; não se canse de olhar e olhar; não atrapalhe a convivência com teorizações; adiar, sempre que possível com beijos "aquela conversa importante que precisamos de ter"; arquivar as reclamações pela pouca atenção recebida.Não teorize sobre o amor, ame. Siga o destino dos sentimentos aqui e agora.Não tenha medo, principalmente de tudo o que teme: a sinceridade, o fracasso, vir a sofrer depois (sofrerá de qualquer maneira); abrir o coração; contar a verdade do tamanho do amor que sente.


*Do Amor - Ensaio de Enigma
Artur da Távola

(dedicado a ti, linda, morena e sorridente de biquini
às flores verdes e laranja...
E a quem tem um dom para identificar portugueses por te fazer
"ficar com os passarinhos todos")

domingo, 30 de maio de 2010

Try a run, try a hide
Escape your only truth, for a while
Live the past, create a picture, it won't last

A million colours to a lie, it won't last
When the sun is cold and black
When you wanna scream and shout
And the record plays the dark side of the moon

Brighter days, on a distant shore
You realized it's steep, to the top
Never fight, a never win reality
A million colours to a lie, that will fade

When the sun is cold and black
When you wanna scream and shout
And the record plays the dark side of the moon

So good.. let me lose myself..

When the sun is cold and black
When you wanna scream and shout
And the record plays the darkside of the moon

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Solidariedade por apenas 0,50 Cêntimos






Adira à magia das tômbolas na Avenida D. Afonso Henriques... Sai sempre prémio, o que neste caso é a dobrar, já que comprar é sinónimo de ajudar...
(...)
Podia chamar-se, por estas semanas “Avenida das Tômbolas”… Na Avenida D. Afonso Henriques, depois da Feira de Artesanato, antes da praça da alimentação, e de frente para a Igreja e para o parque dos carrosséis infantis, há um caminho de peregrinação que obriga à passagem dos visitantes… Obriga à passagem e apela à solidariedade de todos…
A magia das tômbolas começa com a barraquinha das Missões Consolação de Moçambique onde uma Irmã que mora no Lar de Sant’Ana e foi professora na Escola Gonçalves Zarco, vende rifas enquanto conta a história da cantina que as Irmãs radicadas em África estão a construir. Além dos artigos tradicionais deste tipo de banca, encontramos uma novidade… Saiu-nos “um café” que é o mesmo que dizer que o papelinho mágico dá direito a ir a um dos cafés da zona que aderiram a esta iniciativa para pedir a “bica solidária”.
“Esta também é uma forma do comércio tradicional se associar às iniciativas de angariação de fundos das instituições do Concelho”, explicaram-nos.
Mais à frente encontramos a tômbola da Casa do Caminho onde reinam os brinquedos e os bonequinhos de peluche que levam os mais pequenos ao delírio. Comprar um por apenas 50 cêntimos é o mesmo que contribuir para o bem-estar de muitas e muitas crianças que, na Senhora da Hora, fazem desta casa um lar, um refúgio, um porto de abrigo.
A Comissão Social de Freguesia de Matosinhos e Guifões também marcou presença este ano, assim como os escuteiros de várias Freguesias. Mesmo ao lado está a barraquinha do Lar de Sant’Ana com a venda dos tradicionais tijolinhos e dos porta-chaves em forma de coração. Comprar uma rifa nesta barraquinha é sinónimo de contribuir para as obras de ampliação e melhoramento do lar e refeitório social.
E eis que chegamos à tômbola mais antiga e tradicional das Festas do Senhor de Matosinhos. A “gaiola verde” da Obra do Padre Grilo foi oferecida, há décadas, pelo Lions Clube ao mentor desta instituição, o Padre Grilo que, cedo montou uma “barraquita” na festa para angariar fundos através da venda de “algumas caixitas de fósforos”. Quem nos conta a história é a Dona Conceição Silva, responsável da obra que dá abrigo a dezenas de rapazes de Matosinhos oriundos de famílias desestruturadas. Aqui saiu-nos um esfregão e uma senha que dá direito, se encontrarmos outra igual, a levantar uma garrafa de champanhe.
Ao fundo, junto à Igreja do Senhor de Matosinhos, encontramos a tômbola das Obras Sociais de Nossa Senhora de Fátima (Cruz de Pau) onde os jovens predominam, deitando por terra a ideia de que o voluntariado não é coisa que cative a juventude. Nesta banca – de onde, em outros anos, já saíram bicicletas, sendo que nesta edição o prémio mais apetecido é uma torradeira – tivemos a sorte de conseguir um bilhete para o sorteio de fim de Festas e um pano de cozinha.
Mesmo por trás, encontramos a barraquinha da ALDI – Associação Lavrense de Apoio ao Diminuído Intelectual, instituição localizada na parte mais a Norte do Concelho, que é uma referências na área do apoio a pessoas com deficiência, bem como um “estandarte” de como fomentar, desde cedo, os valores sociais nos mais novos.
Isto antes de chegar ao adro da Igreja, onde a tômbola do Internato Nossa Senhora da Conceição parece escondida, mas está repleta de atractivos. Se não que dizer dos prémios do sorteio final onde o primeiro classificado pode ganhar uma playstation, o segundo uma bicicleta e o terceiro um jogo didáctico. O sorteio realiza-se a 14 de Junho e os prémios podem ser reclamados até 14 de Julho.
Ora bem… Estas são, entre outras, as tômbolas das Festas do Senhor de Matosinhos, onde por 0,50 Cêntimos pode conseguir prémios muito úteis e a satisfação de estar ajudar muitas e muitas pessoas.
in "Jornal de Matosinhos" (Maio de 2010)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

(no) Coração de Matosinhos



A antiga Casa dos Pobres de Matosinhos - o Lar de Sant'Ana gerido pela Congregação espanhola Irmãs de Nossa Senhora da Consolação - apoia, diariamente, mais de cem pessoas

“De mãos dadas pelo próximo, continua a nossa missão” – é o lema das actividades do Lar de Sant’Ana que, este ano, se associou às Festas do Senhor de Matosinhos de uma forma especial. Refeições a preços populares e muita animação no coração do Senhor de Matosinhos… Os fundos revertem a favor das obras do lar e do refeitório social. DIAS: 14, 15, 22, 23 e 24 de Maio e grande Arraial Minhoto no sábado, dia 29.
Dezenas de voluntários abrem o Lar de Sant’Ana à comunidade. Caldo verde, moelas, rissóis, bolinhos, sardinha assada, pratos quentes e pratos frios, chouriça assada, bom vinho… Ao ar livre ou coberto…
No Lar de Sant’Ana vivem 72 idosos, enquanto ao refeitório social – o único que em Matosinhos serve refeições quentes durante todo o ano – chegam, diariamente, cerca de 30 sem-abrigo. No apoio domiciliário são ajudados 20 utentes. Ao todo, o Lar de Sant’Ana serve 160 refeições diárias.
O projecto de melhoramento e ampliação do lar – chamado de “A Terceira Fase do Lar de Sant’Ana – Matosinhos: ampliar, reorganizar e requalificar” – visa a melhoria das condições de apoio médico e de enfermagem aos utentes, o aumento e requalificação das áreas comuns do edifício, em particular do salão e do refeitório, reorganização do espaço, concentrando os serviços sociais (secretaria, apoio social e direcção) junto à entrada principal do edifício, melhoria das condições de trabalho dos colaboradores, nomeadamente através da requalificação dos seus vestiários, ampliação do refeitório social de 25 para 40 utentes, instalação de uma valência de Acolhimento Temporário, instalação de uma valência de Apoio Domiciliário, dinamização do voluntariado e criação de uma “Liga de Amigos”.


Av. D. Afonso Henriques,
antes da Igreja Paroquial,
no coração da Romaria
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sábado, 1 de maio de 2010

Antes que Abril acabe... (No 1.º de Maio)



A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
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Foto/painel: Jonny Cuba (artista do BE de Matosinhos)
Música: Zeca ou Ary
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sexta-feira, 26 de março de 2010


vATICANO / fEV 2010

Nem todos os textos começam de ideias complexas, mesmo que – algo que quase nunca me acontece – a primeira palavra escrita seja o título, esse complexo por natureza, sobretudo por ser de natureza complexa. “Fé”. Palavra escrita (ia escrever que por impulso, mas raciocinei nela ao longo de tempo demais para agora lhe chamar impulso) por necessidade. Por necessidade de verbalizar a palavra F ´ E !
Podia ser o título de uma reflexão sobre sensações diurnas em mãos ou por mãos nocturnas. Poderá ser. Quem sabe? Mas acho que é o título de uma (mais uma) divagação sobre a (cá está ela outra vez) natureza. Complexa? Talvez… Estranho, porque a palavra despertou-me tanta simplicidade ao longo do dia. E por falar em estranho e em verbalizar… Apetece-me escrever na primeiríssima pessoa. Não que não o faça amiúde, mas porque não o imaginava fazer tendo esta palavra como introdução.
Acontece-me sempre, ou quase sempre, quando decido, finalmente, iniciar um texto/relato do que me assalta (neste caso da palavra que me assalta/assaltou) durante o dia, à noite, esquecer-me rapidamente de todas as ideias que me levaram a querer escrever sobre isto. Lembro-me, vagamente, de ter pensado em “Fé” em vários momentos ao longo do dia em contextos diferentes, sob estímulos diferentes e mesmo em momentos de humor diferentes. Quando a vi nos trabalhinhos em material reciclável dos meninos da Escola dos Quatro Caminhos, explicados por uma professora que carrega a responsabilidade de coordenar um projecto como quem carrega a missão de mudar o mundo através de crianças de seis/sete anos "porque ainda podem ser mudadas". Quando a ouvi nas palavras de um rapaz, criança grande, que não sei mais como não iludir. Quando me assaltou ao me lembrar da data de hoje, do mês de hoje, do ano de hoje. Quando me apercebi de como está perto a data, o(S) domingo(S), da quadra do primeiro ano de hoje. Quando ouvi, no relato de uma matosinhense voluntária na Índia, palavras como "religiosidade" e "euforia" na mesma frase. Acho que, em espaços de tempo diferentes, me cruzei várias vezes com a fé… Hoje, quando nada o fazia prever e quando, num dia normal e sossegado, me apetecia desfrutar do sossego de não ter fé e da normalidade de já não ter que pensar nisso.
Fugindo aos tais estímulos do dia e aproveitando a espontaneidade desresponsabilizada da noite, posso enveredar por outro tipo de raciocínio sobre o título.
A última vez que falei de fé em voz alta foi com a autoridade de quem explica um capítulo da História. Foi quando contei a Lenda do monte da minha Freguesia. Antes, penso que falei de fé em voz alta, sem qualquer autoridade, quando tentava explicar a sensação de estar onde, achava eu, me iria (re)encontrar com a fé por ser, acreditava eu, o sítio dela por excelência. Foi quando descrevi a Fé de Fátima como uma Fé desesperada que aprecio, sinto, compreendo. Foi quando me vi sem saber o que fazer à Fé num espaço de Fé grandiosa que não senti, não compreendo e não consegui apreciar, a não ser espelhando-a numa qualquer atmosfera de património mundial, maravilha do mundo ou história da civilização. E antes disso não me lembro de, em voz alta, ter falado de fé a não ser há muito muito muito tempo atrás.
Hoje não falei de Fé em voz alta apesar de ter sentido a palavra a gritar durante todo o dia. Num dia calmo, sossegado, uma quinta-feira quase tão simples e leve como as quintas-feiras dos tempos em que quinta-feira era Quinta-feira. A Fé assaltou-me, enquanto palavra, através de gestos, relatos, esperanças e, sobretudo, assimilações sobre o hoje do(S) próximo(S) dias.


pORTO - mAR 2010

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Creixomil















Num dia cinzento e frio de Fevereiro, Creixomil, Freguesia que conheço há 25 anos, mostrou-me o seu estado bruto, o seu “eu” mais puro, o Creixomil mutualista. No dia em que se comemora a Santa, o dia religioso (2 de Fevereiro), Creixomil assume contornos de espiritualidade. Vêem-se velas nos beirais das portas e janelas e o frenesim é intenso, embora quase silencioso. Na Pascoela, nos dias em que se comemora a Padroeira (sempre no fim-de-semana depois da Páscoa), Creixomil reveste-se de grandiosidade, o imprevisto só dá pelo nome de chuva, a vinda do artista mais pimba do momento é motivo de orgulho até para os que não apreciam esse tipo de música, os comes e bebes na barraquinha são uma tradição. No dia do cortejo/leilão (algures entre o dia da Santa e a festa da Padroeira), Creixomil não se reveste de nada. Despede-se para ser puro, para ser verdadeiro, para ser Creixomil em estado bruto.
Ontem, num dia de muito frio, comecei a assistir cedo aos rituais do cortejo. “A nossa prenda é para levar ao Café S. Miguel… O nosso carro sai da cooperativa, mas se não fores ao café, vai sem a nossa prenda”. Poderia lá o carro da Rua dos Cutileiros/Alberto Viera Braga (ou simplesmente zona do ciclo)/Travessa da Arrufina/Rua da Igreja/Travessa do Salgado (aquela que vai pra Esso…) seguir sem a nossa prenda. Cheirava a frango assado a minha casa de manhã. Sai para cumprir funções laborais, prometendo vir a tempo de levar a prenda. “Eu ia lá, mas tu gostas… E o povo gosta tanto quando te vê participar nisto”. De volta, eram 14h00, mais ou menos, já estava gente junto à padaria e outro aglomerado perto da antiga Casa do Povo. “Tava a ver que não… Olha, já foram para a cooperativa... Mas a Judite prometeu que te deixa subir ao carro pra dar a prenda quando passarem aqui à porta. Este ano o cortejo passa aqui…”.
Uma rosca envolve um frango assado e chouriças. Os palitos com azeitonas são para ornamentar. O pano de renda também. Creixomil no seu estado puro saiu à rua para o cortejo de angariação de fundos das festas da Pascoela. Até quem pouco ou nada liga à fé, neste dia, não por vergonha mas por querer fazer parte de um qualquer espírito de comunidade que aguarda o ano todo por se manifestar, partilha, participa, oferece coisas, comida, felpos e panos lá da confecção, vinho da propriedade, copos com publicidades que sobram nos cafés, jogos de cama pró enxoval, produtos de beleza de marca e qualidade que vieram do cabeleireiro, galos vivos e galos mortos, bolos e bolos feitos de madrugada, ventoinhas, fritadeiras, muitos e muitos artigos de fábrica … E sai tudo à rua.
Muitos carros… Da Boucinha, do Salgueiral, do Alto da Bandeira, da Cruz de Pedra, do Bairro dos Machados, do Rio de Selho, dos Cutileiros… Os porcos foram oferecidos pelo lavrador de Eiras. A lenha deu a Sra. Dona da Quinta de Laços. E vai o cortejo com o rancho a enfeitar a dureza dos tractores e das carrinhas de caixa aberta. Creixomil em estado bruto! “Vais ao leilão? Arranjam-se pechinchas e o dinheiro é pra festa da Senhora… Vais?”.
Ontem, no monte da Senhora da Luz, em Creixomil, Guimarães, vizinhos que falam uma ou duas vezes ao ano, incluindo aquela vez em funerais ou missas de sétimo dia, ajudaram-se nas licitações. Carregaram cabaças alheias rua abaixo para deixar à frente de portões que raramente transpõem. Arremataram bolos e cabritos assados (“o do restaurante era uma categoria e até passou os 18 Euros”) para convidar os trabalhadores do dia para um lanche. “Era o que faltava hoje ser a Comissão a oferecer… Guardai o dinheiro pra festa…”. Creixomil comunitário, Creixomil mutualista, Creixomil em estado puro!

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Notas avulsas sobre uma melodia sintonizada

Nuno Cachada
26 anos
A preparar um disco de originais
Academia Valentim Moreira de Sá
Festival da Canção Vimaranense
Concurso Internacional de Leiria
Concurso Legatto do Porto
Portugal
Alemanha
Espanha
Quinteto “Argentino”
Piazzolla
Qualidade interpretativa
Qualidade técnica
Flamengo
Média de 19 valores em guitarra clássica
Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco

Concertista
Professor

Destaque para a adaptação de temas portugueses para a sonoridade de guitarra clássica

Inspiração é, em/com Nuno Cachada, sinónimo de instrumento (para ouvir e ver)
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domingo, 24 de janeiro de 2010

Oh lord what can i say (e chegou 2010 :-p )

Look to the clock on the wall
Hands hardly moving at all
I can't stand the state that i'm in
Sometimes it feels like the wall's closing in

Oh lord what can i say
I'm so sad since you went away
Time time tickin' on me
Alone is the last place i wanted to be
Lord what can i say

Try and burn my troubles away
Drown my sorrow the same way
It seems no matter how hard i try
It feels like there's something just missing inside

Oh lord what can i say
I'm so sad since you went away
Time time tickin' on me
Alone is the last place i wanted to be
Lord what can i say
Lord what can i say

How many rules can i break
How many lies can i make
How many roads must i turn
To find me a place where the bridge hasn't burned

I'm so sad since you went away
Time time tickin' on me
Alone is the last place i wanted to be
Oh lord what can i say
I'm so sad since you went away
Time time tickin' on me
Alone is the last place i wanted to be

Lord what can i say
Lord what can i say
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Pirilampo Mágico 2009...

na Penha com o Berço em pano de fundo (Junho/09)
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Pirilampo Mágico 2009...



no CCVF com a Fanfarra Kaustika (Junho/09)
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Pirilampo Mágico 2009...




em Orbe, Monthey e Geneve, Suiça (Junho/09)
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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Um admirável mundo antigo...








“O Traje e o Mundo Encantado dos Brinquedos Antigos de Leça” é o nome de uma exposição organizada, em parceria, pela Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, e pelo Rancho Típico da Amorosa. A mostra está patente até 9 de Agosto, no salão nobre da autarquia leceira.
O espólio do rancho de cariz etnográfico, nomeadamente um conjunto de trajes antigos e típicos dos leceiros e de terras da Maia – desde o traje de trabalho e domingueiro masculino, bem como trajes femininos – domingueiro, de feira, de trabalho, de lavradeira rica – são alguns dos atractivos desta exposição.
A temática dos brinquedos antigos também está patente através dos cavalinhos de madeira, peões de corda, caricas, carrinhos de rolamentos, fisgas, cata-ventos, guindastes, jogo do rapa...
O Rancho da Amorosa tem vindo a pesquisar e a estudar uma panóplia de brinquedos e de engenhocas que entraram em desuso, mas que eram muito comuns nas brincadeiras dos pequenos leceiros, há várias décadas atrás.
Horário da mostra: de segunda a sexta das 9h00 às 12h30 e das 14 às 17h30; sábados e domingos das 15 às 18 horas.
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sábado, 11 de julho de 2009

(Diversos)

“Avança com a raiva que sentes… Ao peso da cruz”
Levantam-se aos pares
Cumprimentam-se com apertos de mão fortes, abraços espalhafatosos, beijos repenicados
Lutam enquanto disputam colos e riem-se a seguir com as bocas muito abertas, o cabelo muito curto, os dentes muito raros, as roupas muito coloridas, os passos pouco seguros
Tropeçam como se dançassem ao ritmo de um autocarro desgovernado
Silenciam-se

Trocam mensagens
Comentam
Levantam-se aos pares uma e outra vez
Correm e acreditam e suspiram ofegantes
“Pi” soa como aplauso cúmplice de alívio
Todos conhecem a adrenalina
Todos conhecem o alívio
Todos reconhecem este gesto simples
Fazem perguntas sobre porque é que a noite à escura e não é o dia que tem falta de luz
Não respondem, exaustos
“Parece que pagam os pecados deste mundo…”
Levantam-se aos pares
Não se filosofa: a noite é escura porque o dia tem luz
Lugares vazios substituídos
Já se enumerou os reforços do Benfica que “vai voltar a não fazer nada” e parece que custa a sair o número de reforços do FCP que “já se sabe tem tudo no papo”
Levam-se aos pares: “Talvez não”
Acreditam e olham de esgueira: “Talvez não”
Bocejos, sorrisos, mensagens, olhares, birras, mensagens e gargalhadas, mensagens e silêncios
“Há dias em que não cabes na pele com que andas…”
“Parece que os sapatos que vês nem sequer são os teus!”
Vira-se a folha: um boletim do Euro Milhões suíço
“E ao Sul…” (diz a canção) “Subo as águas desse rio, onde a barca dos sentidos nunca partiu…” (sublinha o interprete)
Saem aos pares
Seguem os sobreviventes…


Quinta-feira, 2 de Julho/09
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