sábado, 7 de fevereiro de 2009

sentidos a p/b



As ruas da minha cidade abriram os olhos de encanto para te ver passar
As pedras calaram os passos e as casas abriram janelas só para te ouvir cantar
Porque há muito muito tempo não vinhas ao teu lugar
Ninguém sabia ao certo onde te procurar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direcção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração
Quisemos saber como estavas, se a vida tinha tomado bem conta de ti
Ou se a vida teve medo e eras tu que a levava refugiada em ti
Cada verão que passava sentiamos-te chegar
Como era possível que o sol se atrevesse a brilhar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direcção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração
Deves trazer tantas histórias, tantas que algumas ficaram caídas por ai
Outras, eu tenho a certeza, o teu fogo na alma queimou, deixaram de existir
Só queremos saber se és a mesma que vimos partir
Não existe mundo lá fora que te possa destruir
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direcção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração
Da Proxima Vez
Luis Represas
...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

CV



*A tua Rua 5 de Julho*

Foram três dias de Tarrafal. Conheci o “campo da morte lenta”. Conheci as latrinas, as celas antigas, a suposta solitária, a cantina, os tanques de água. a frigideira! “Como é que se pode transformar um paraíso destes num Campo de Concentração”, disse-me a Cat que tem, e agora sei-o, toda a razão. A professora que dá aulas numa sala do campo de concentração mas não sabe onde está nem que importância teve aquele local para a história do “Ultramar” (aspas). Essa história que também conheço mal. Essa história que muitos devem ter presenciado e sentido naquela suposta solitária. “Suposta” (aspas, novamente). Calar vozes não cala pensamentos. Acrescentar dores não substitui sentimentos. Há que murmurar até que alguém ouça numa qualquer solitária da ala dos cabo-verdianos ou na ala dos angolanos ou na ala dos presos políticos vindos da “Metrópole” (exigem-se aspas). História de uma época que Portugal tem tratando de lembrar, apagando aos poucos. Ou ao contrário! Já em Cabo Verde a palavra “independência” mantém-se presente. Algo dissimulada! “Cabo Verde está em construção há 30 anos”, disse-me o Hélder quando, numa das nossas mini-viagens de carro, lhe perguntava porque existiam tantas casas em cimento e por acabar. “Cabo Verde não pára”, concluiu como quem quer concluir o tema.
Tarrafal: assaltas as memórias e entras dentro das pessoas!
Uma vez tive medo, muito medo, que isto dure muito tempo. Na vez em que só molhei os pés. Molhei a água.
Na Ponta de Atum as pedras afunilaram-me/anularam-me. Deslumbrada com a beleza do espaço/fixada no recorte das rochas. Bonitas pedras/Grandes pedras. Os rapazes saltam para uma gruta e saem do outro lado, assim como na praia do Príncipe saltam do matadouro. A adrenalina deles. O meu nó no estômago. Só de olhar.
A cidade da Praia tem uma beleza autóctone. As casas que parece que não param de nascer e não param de ser construídas porque não pára a construção porque a construção da maior parte das casas está parada e não pára de nascer. Sori explica-me que há muita construção clandestina e Cat explica-me que há confusões sobre de quem são os terrenos, da Câmara, do Estado ou Particulares.
Gosto de ver as pessoas idosas à janela. A pele muito negra e os cabelos muito brancos.
Gosto do banco de jardim da Praça Sofia onde conversei horas com a Cat.
Ainda nos falta falar de tanta coisa porque ainda não falamos de nada e já falamos tanto. Nem sei se comece a falar.
Gosto do Sr. da Foto Tony onde há telefone público para chamadas internacionais a custar 30 escudos.
Também gosto da Lizete que tem duas filhas, a Tifani e a Miriam. 10 e 2 anos. Tem carinha de menina. Pergunta as coisas de forma delicada e vai limpando a casa da Cat timidamente, mas tão familiar, quase em silêncio como se não quisesse perturbar-me a leitura ou o raciocínio. Lizete: delicada, sincera, forte, uma menina que tem duas meninas.
Aqui só encontrei pessoas sinceras e corações abertos.
A Iara, o Sori, o Hélder – o meu Super Guia Favorito –, o Helker. A panela emprestada para fazer bacalhau à brás, ontem quando dei a túnica, provei grogue e viajei para além de uma mesa de bilhar sem hora.
Acho que há diferença entre pessoas bonitas de coração cheio e pessoas bonitas de coração aberto.
Gosto de misturar expressões e palavras: Kasa Bela, Serra Malagueta, Cachupa e Cachupada, Café Sofia, Palmarejo e Bairro Brasil, Búzios com molho de limão na Achada de Santo António, mergulho com a lua cheia na Prainha, Associação Santiago Sul e a “assembleia geral” na Zita, Sucupira.
… Na casa da Elsa, de “A Semana”, mãe da Ritinha que divide comigo a taça de camoca, a Cat dorme e eu observo com leveza…

...E a caminhar descalça pelo Plateau até à tua Rua 5 de Julho...antes e depois...no regresso e à ida ou ao contrário!
...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Passeio dos prodígios
Vamos lá contar as armas

tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar...
há vitórias e derrotas

apontadas em silêncio
no diário imaginário

onde empilhamos as razões para lutar!
Repreendo os meus fantasmas

ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência

quantas vezes te odiei com medo de te amar...
vejo o fundo da garrafa

acendo mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam é para magoar!
Vamos enganar o tempo

saltar para o primeiro combóio
que arrancar da mais próxima estação!
Para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário?
Pode ser que, por milagre,
troquemos as voltas aos deuses
Entre o caos e o conflito

a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes

no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos nas credenciais
Vamos enganar o tempo...
MESTRE
...

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Uma explosão de arte e de sorrisos





















"Até onde poderei sonhar?"
VALE A PENA VISITAR!
12º Juntos pela Arte
...
Galeria Nave dos Paços do Concelho // Matosinhos // até 14 de Dezembro // Exposição e venda de peças de utentes
da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental, Associação Lavrense de Apoio ao Diminuído
Intelectual, Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo e escolas do concelho // segunda a sexta das 9h30 às 12h30 e das 14h30 às 17h30; fim-de-semana e feriados das 14h30 às 19h
...

matosinhos dos pequeninos (2)




“Tivemos uma prenda de aniversário muito especial. Está tudo muito bonito e há mais coisas para brincar” – Rita (nove anos) e Renata (doze anos).
...
Ludoteca da Junta de Freguesia de Matosinhos // Abertura após remodelação // 24 de Novembro de 2008 // Festejar a aprender…
...

matosinhos dos pequeninos (1)






“Tentamos que a consciencialização ambiental e cívica não fique entre as quatro paredes do externato. É frequente ouvirmos pais comentar que fazem reciclagem em casa porque os filhos insistiram” – Belmira Soares, directora.

Externato Padre Cruz // Actividades integradas no Projecto “Mil-Escolas” da Águas do Douro e Paiva // 20 de Novembro de 2008 // Pensar a brincar…
...

sábado, 22 de novembro de 2008

odor

Primeiro pensei que só precisava da imagem
Fui procurando através do calor
Molhei os lábios
A imagem deixou de ser visual
Fechei os olhos
Pernas tensas
Imaginei cenários

Deixei as mãos encontrarem calor por dentro da roupa
Ainda em expectativa
Deixá-las ir
Uma fricção (acho que esse é o termo)
Depois outra
é esse o termo
Sinto-os moles e quentes
Deixar-me ir
Posição

Mais algumas fricções
Perna contraída
Uns círculos
Senti-os rígidos
Pernas vibrantes
Ao fundo e em círculos e ao fundo
Lábios húmidos
Vibrações/fricções
Posicionada para gritar
Boca aberta demais para emitir sons

Língua suspensa
Abri os olhos
Estiquei as pernas
Ao fundo

Vezes compatíveis com gritos
Debruçada em concha
Até descontrair

Ritmadamente
A vibração que obriga os olhos voltarem a fechar-se
Abriram-se
Um suspiro lento e vagaroso
O sangue volta a correr em silêncio

...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008


...
...
Doeu mais desta vez.
Tive medo de não saber defender-te.
E não soube.
De certo modo, já não sei fazê-lo.
E tu sabes que o fazia bem.
Mesmo bem.
A argumentação bruta não me assustava.
Não quando dependia de mim a tua defesa.
Não quando sentia que ia conseguir calar os sussurros.
Mas desta vez tive medo e doeu mais.
Defender-te era, às vezes, uma missão.
Continua a ser. Talvez.
Só que não fui capaz.
E tenho medo que o meu silêncio possa ter-me tornado cúmplice.
Quando agora sou tudo menos cúmplice. Sou só cobarde.
Sou, aliás, o teu novo argumento de defesa.
...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

TARRAFAL - "o campo da morte lenta"




















“Entre os pavilhões A e B, em frente ao portão do Campo, ao fundo, há uma construção diferente de todas as outras (…)”

“(…) um pequeno pavilhão de paredes caiadas a ocre, janela e porta em madeira e cantaria vermelha, dividido em duas pequenas salas, uma de espera para os presos doentes e outra para o consultório médico;

“Era o Posto de Socorro mas também servia de Casa Mortuária, o que estava perfeitamente de acordo com o médico do Campo que mais gostava de assinar certidões de óbito do que tratar dos doentes.”

“Esmeraldo Pais Prata, nomeado médico do Campo de Concentração do Tarrafal por finais de 1936, só em Abril de 1937 se apresentou para dar consulta. Tralheira foi a alcunha com que o conhecíamos e aquela que merecia quem afirmava:

“(…) Não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito.”

“A dor do doentes do Campo deixava-o indiferente. Pela calada da noite vinha assistir aos espancamentos. O muito ódio que tinha por nós era frio; a medicina, a arma com que feria. E como médico podia atingir-nos de muitas formas.”

Além de médico do Campo, era delegado de Saúde e Administrador do Concelho do Tarrafal

SOBRE O O POSTO DE SOCORROS E A CASA MORTUÁRIA
...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

CV (4)

*Pequeno-almoço cabo-verdiano*



No Tarrafal. Já no terceiro dia. Domingo de manhã. Pequeno-almoço. Cachupa guisada: milho, feijão, ovo estrelado e linguiça. Eu provei, mas mantenho-me fiel ao pão com manteiga e ao “meia-galão”.
Foi inevitável lembrar-me das sopas de vinho com broa que a Marquinhas Cabreira de Creixomil comia ao pequeno-almoço. Embora a recordação me obrigue a pensar nos contextos. Bem diferentes. E da minha avó a explicar-me: “Usar? Usa-se. Usava-se. É que os velhos do meu tempo são pessoas diferentes deste teu tempo”. Lembrei-me entretanto da vindima da minha mãe. Interessante lembrar-me, aqui, dos “eventos” sociais/agrícolas da minha mãe. Interessante, lembrar-me automáticamente depois de me lembrar da Aninhas. É no dia da vindima da Carvalha, desde que me conheço por gente, que como um ovo estrelado de manhã e ve
jo o meu pai oferecer vinho a toda a gente quando ainda é quase madrugada. No campo, a caseira, a Bininha, apresenta travessas fartas com carne de porco e de vaca, muitos garfos à volta, um garrafão e uma caneca que vai passando de mão em mão entre escadotes e cestos de uvas. E pensar que antes até havia uma carroça. No tal outro tempo da Aninhas, quando se enchiam dois lagares.
Lembrei-me no Tarrafal, ao pequeno-almoço, entre garfadas que o Hélder me dá a provar e olhares famintos à espera do prato. Depois foi ver o olhar curioso da Cat e a cumplicidade confirmada quando conclui: “Gosto, mas preferia comer ao almoço”.
No Tarrafal já é domingo de manhã. Já se foi a banhos e já se dormiu depois do dia longo de sábado que incluiu o medo às pedras da Ponta de Atum. “Elas não saem do sítio, sabes?” – disse-me o Carlinhos com uma paciência espontânea e dedicada de quem está atento aos movimentos e aos minutos muito longos que antecedem a minha entrada na água.

Aquela água. Aquele mar. Este Tarrafal. Este fim-de-semana. E esta satisfação que vejo nos olhos de quem come uma cachupa guisada pela manhã, em Cabo Verde.

12 de Outubro ..

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

CV (3)

*Cidade Velha, Ilha de Santiago, Cabo Verde*


Trocar dinheiro pela manhã. Tratar de expedientes como ouço Sori dizer. E ir ao mercado. Gosto de mercados. Tanta cor, tanta turbulência viva à volta de bancas confusas e animais em coro desregulado. Ir ao mercado na primeira manhã da Cidade da Praia, que conjugação perfeita realizada no meio de sons crioulos que, explicaram-me, são parecidos em substantivos e adjectivos – Sr. do telefone, o “D’já stá”, porque "o crioulo come letras aqui e acrescenta letras além”, o Toni, das fotos Toni – e só muda nos verbos.
O calor é convidativo. Transpirar é (apesar de puder parecer contraditório) uma lufada de ar fresco.
Vi o mar de Cabo Verde e a espuma foi-se apoderando da minha pele muito branca, sedenta de sol, sedenta de ar. A areia preta fez-me novas formas nos pés. São pegadas novas. Pensei!
E a simplicidade harmoniosa de ser convidada para almoçar. Casa do Hélder com a Joana (empregada de… há quantos anos? “Vida toda!”) e a mãe do Hélder, uma senhora que só podia ter uma família especial. Deram-me, com o coração mais aberto do mundo, feijão com arroz e chicharrinhos fritos daqueles que se come cabeça e tudo. Recebi com o coração agradecido de quem está na Cidade da Praia a comer uma das suas comidas preferidas, em família.
Depois ouvimos Sansa e a sua história sobre a fuga à droga, sobre a sua luta diária, sobre o seu renascimento. Ouvimos um bocadinho de Princesito – de quem a Mayra fala nos concertos – Lua… fica cu mi…
O vento que corre na estrada embala-me tanto quanto a conversa do Sori e do Hélder à frente a falar em crioulo.
Cegamos à Cidade Velha.
Uma Super Bock na esplanada da Cidade Velha, Ilha de Santiago, Cabo Verde.
E muita paz!
“Neste pelourinho eram chicoteados os escravos” – disseram-me.
Na Cidade Velha vi crianças a jogar à bola na rua. Gosto de meninos a correr na rua, ao ar, gosto de sorrisos rasgados.
E na Praia, também vi os meninos a sair das aulas de uniforme azul e branco já prontos para brincar na rua. Até parece que não há carros nas extensas ruas da “Moradia”. Extensas para os meninos de palmo e meio que acabam de sair do Liceu Domingos Ramos.
Estou a gostar de mim em Cabo Verde porque gosto de sorrisos rasgados e de corações abertos.

(Entretanto a Cat deve estar a chegar da senzala, vulgo "A Semana", e vamos trocar pormenores sobre este dia 9 de Outubro. Há um dia-a-dia entre nós, outra vez)

CV (2)

*Kasa Bela, o bar do Ney, no Plateau.Praia*


Sim, já estou aqui. Jantar e tudo. Primeira noite. Estive muito contigo Cat. Embora não esteja certa sobre se estivemos, de facto, juntas. Sei que a guitarra esteve connosco. Talvez, entre nós. E esteve a vida também. A vida que é vida e para sempre será vida também. Porque não? Hoje fui também observadora. Logo após o bafo e também após os búzios. Ah… afinal fomos juntas! Também aqui e agora.

(A Cat está a beber água, agora mais descontraidamente, depois de a obrigar a posar para a minha sessão fotográfica. Chegamos a casa depois de um primeiro reconhecimento pela noite cabo-verdiana. Não sei horas. Nao tem nexo)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

CV (1)

*Entre Lisboa e a Cidade da Praia / 8 de Outubro de 2008*


Para já só temos nuvens e uma imensa vontade que a viagem de avião termine.
Já planeei o abraço à Cat vezes sem conta. Sei que tenho de depositar nele a força e as saudades de muita gente. Parece-me. Sinto-me, de alguma forma, uma mensageira.
Para já (e acho que estou mais ou menos a meio da viagem de ida) já comi, já li 50 páginas do livro que trago e, para já, temos só nuvens.
Tenho o ombro esquerdo gelado e o pé direito dormente.
Não resisti e fui eu (também) à casa-de-banho mesmo sem precisar, só para ver o tempo passar e dar uma espreitadela. Há sempre uma certa curiosidade e eu não andava de avião desde a Madeira, e antes desde Nápoles, e antes desde a primeira vez – Paris de França.
(E andei umas vezes recentemente. Acredito que andei. Andamos!)
Agora, exactamente agora, nem posso falar de nuvens porque estou a passar por um espesso nevoeiro (que, nos olhos, vai passar).
O lugar, tanto este como o do voo do Porto até Lisboa, é ao lado das saídas de emergência. Sem querer dar uma carga pesada a esta viagem, confesso que estive atenta às explicações da hospedeira com um misto de responsabilidade – se acontecer alguma coisa tenho de ajudar o pessoal todo – e de ironia – calhou-me logo a mim ser a primeira a saltar. Eu que não consigo decidir nada na vida, tenho de decidir se tenho coragem (aquela adiada) ou se sou altruísta (consumando, finalmente, um sentimento atrasado)…
O livro que me acompanha é o “Canário” de Rodrigo Guedes de Carvalho. Comecei-o hoje (tirando duas páginas que chamaram a atenção quando o vi na estante do meu cunhado). Estou a gostar! É uma escrita fria que não se compadece com puritanos, embora, me pareça, seja dedicada exactamente a puritanos.
E cá vou eu.
O nevoeiro continua. Vai-se dissipando. É bonito o horizonte das nuvens. Sorte têm os pássaros. E os canários que não vivem em gaiolas!
O filme do Indiana Jones acabou e não vi (quem me conhece sabe que gosto do Harrison Ford (que ocupou outrora um lugar no meu imaginário de onde, agora, o George Clooney não arreda pé) mas no Indiana Jones, vá-lhe Deus. Que castigo) e este friozinho vindo da porta de emergência faz-me sentir um misto de desconforto e de simpatia. Simpatia pela TACV, a companhia aérea cabo-verdiana que me está a proporcionar esta viagem.
Viajo.
Tenho um pensamento, entre todos os sentimentos que me invadem – depois de ter corrido o aeroporto de Lisboa à procura de distância da proximidade por sentir que estava ali muito e depois daquele sorriso que soube a vida ainda fiquei ali demasiado – tenho um pensamento: saudades da Cat. Tenho saudades da minha amiga e um enorme sentimento de medo.
Não sei horas. Quanto aterrar coloco as horas.
Quando aterrar já estou contigo Cat!
Se bem que já me sinto pertinho de ti. Como tu disseste, Cabo Verde começou no aeroporto. E com medo ou sem medo, Cabo Verde já faz sentido.
Quando aterrar já vou contigo! E, em Cabo Verde, (também) havemos de estar juntas!

18h58 HORAS LOCAIS
(estou a preencher o visto e imagino a Cat lá fora à minha espera. Sinto-me ansiosa)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

I N H O


Muito sereno
Com os dedinhos compridos suspensos no ar
Talvez um sonho
Tremeu
Como uma espreguiçadela gigante
Ou simplesmente porque estava a sonhar
Continuou sereno
Alheio à atenção exterior
Muito intima
Talvez já cúmplice
Labiozinhos perfeitos
Orelhinhas muito bem delineadas
Um desenho
Um desenho muito bonito
Muito sereno
Uma serenidade já activa
Muito real
Ali
Já real
Sempre real
Estaria a sonhar
Tremeu como se quisesse despertar a noite
Para marcar presença
Mas sem acordar
Do sonho
Perfeito
Sereno
Real

A minha estrelinha nasceu
Tem 3,5 quilos, 48 cm, cara redondinha e dedinhos compridos
Hoje (agora mesmo) presenciei e apreciei
Pela segunda vez
Desta vez de noite
Quase em segredo
Quase como uma travessura
A primeira das muitas em que seremos cúmplices
Sussurrei
Rapidamente sussurrei antes de fugir
A frase
Nossa
E a nossa estrelinha estava a sonhar
Obrigado SIS
Nasceu um dos maiores sonhos da minha vida

...

"A girafa que comia estrelas"

(…)

O espirro sacudiu as nuvens e começou a chover.

Choveu durante três dias e a terra voltou a ficar verde.

É por isso que, até hoje, as girafas são amigas das galinhas do mato.

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
...