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Luis Represas
Numa noite de insónia, ao som de Pixinguinha e com o "Cidades Invisíveis", de Italo Calvino, na mesa-de-cabeceira (porque o titulo do capitulo do livro era mesmo esse e o acaso é o melhor conselheiro do destino) eis que nasce AS CIDADES E OS SINAIS... um espaço dedicado a ti... por mim, mas primeiro e sempre por ti.
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No Tarrafal. Já no terceiro dia. Domingo de manhã. Pequeno-almoço. Cachupa guisada: milho, feijão, ovo estrelado e linguiça. Eu provei, mas mantenho-me fiel ao pão com manteiga e ao “meia-galão”.
Foi inevitável lembrar-me das sopas de vinho com broa que a Marquinhas Cabreira de Creixomil comia ao pequeno-almoço. Embora a recordação me obrigue a pensar nos contextos. Bem diferentes. E da minha avó a explicar-me: “Usar? Usa-se. Usava-se. É que os velhos do meu tempo são pessoas diferentes deste teu tempo”. Lembrei-me entretanto da vindima da minha mãe. Interessante lembrar-me, aqui, dos “eventos” sociais/agrícolas da minha mãe. Interessante, lembrar-me automáticamente depois de me lembrar da Aninhas. É no dia da vindima da Carvalha, desde que me conheço por gente, que como um ovo estrelado de manhã e vejo o meu pai oferecer vinho a toda a gente quando ainda é quase madrugada. No campo, a caseira, a Bininha, apresenta travessas fartas com carne de porco e de vaca, muitos garfos à volta, um garrafão e uma caneca que vai passando de mão em mão entre escadotes e cestos de uvas. E pensar que antes até havia uma carroça. No tal outro tempo da Aninhas, quando se enchiam dois lagares.
Lembrei-me no Tarrafal, ao pequeno-almoço, entre garfadas que o Hélder me dá a provar e olhares famintos à espera do prato. Depois foi ver o olhar curioso da Cat e a cumplicidade confirmada quando conclui: “Gosto, mas preferia comer ao almoço”.
No Tarrafal já é domingo de manhã. Já se foi a banhos e já se dormiu depois do dia longo de sábado que incluiu o medo às pedras da Ponta de Atum. “Elas não saem do sítio, sabes?” – disse-me o Carlinhos com uma paciência espontânea e dedicada de quem está atento aos movimentos e aos minutos muito longos que antecedem a minha entrada na água.
Aquela água. Aquele mar. Este Tarrafal. Este fim-de-semana. E esta satisfação que vejo nos olhos de quem come uma cachupa guisada pela manhã, em Cabo Verde.
12 de Outubro ..
Trocar dinheiro pela manhã. Tratar de expedientes como ouço Sori dizer. E ir ao mercado. Gosto de mercados. Tanta cor, tanta turbulência viva à volta de bancas confusas e animais em coro desregulado. Ir ao mercado na primeira manhã da Cidade da Praia, que conjugação perfeita realizada no meio de sons crioulos que, explicaram-me, são parecidos em substantivos e adjectivos – Sr. do telefone, o “D’já stá”, porque "o crioulo come letras aqui e acrescenta letras além”, o Toni, das fotos Toni – e só muda nos verbos.
O calor é convidativo. Transpirar é (apesar de puder parecer contraditório) uma lufada de ar fresco.
Vi o mar de Cabo Verde e a espuma foi-se apoderando da minha pele muito branca, sedenta de sol, sedenta de ar. A areia preta fez-me novas formas nos pés. São pegadas novas. Pensei!
E a simplicidade harmoniosa de ser convidada para almoçar. Casa do Hélder com a Joana (empregada de… há quantos anos? “Vida toda!”) e a mãe do Hélder, uma senhora que só podia ter uma família especial. Deram-me, com o coração mais aberto do mundo, feijão com arroz e chicharrinhos fritos daqueles que se come cabeça e tudo. Recebi com o coração agradecido de quem está na Cidade da Praia a comer uma das suas comidas preferidas, em família.
Depois ouvimos Sansa e a sua história sobre a fuga à droga, sobre a sua luta diária, sobre o seu renascimento. Ouvimos um bocadinho de Princesito – de quem a Mayra fala nos concertos – Lua… fica cu mi…
O vento que corre na estrada embala-me tanto quanto a conversa do Sori e do Hélder à frente a falar em crioulo.
Cegamos à Cidade Velha.
Uma Super Bock na esplanada da Cidade Velha, Ilha de Santiago, Cabo Verde.
E muita paz!
“Neste pelourinho eram chicoteados os escravos” – disseram-me.
Na Cidade Velha vi crianças a jogar à bola na rua. Gosto de meninos a correr na rua, ao ar, gosto de sorrisos rasgados.
E na Praia, também vi os meninos a sair das aulas de uniforme azul e branco já prontos para brincar na rua. Até parece que não há carros nas extensas ruas da “Moradia”. Extensas para os meninos de palmo e meio que acabam de sair do Liceu Domingos Ramos.
Estou a gostar de mim em Cabo Verde porque gosto de sorrisos rasgados e de corações abertos.
(Entretanto a Cat deve estar a chegar da senzala, vulgo "A Semana", e vamos trocar pormenores sobre este dia 9 de Outubro. Há um dia-a-dia entre nós, outra vez)
(A Cat está a beber água, agora mais descontraidamente, depois de a obrigar a posar para a minha sessão fotográfica. Chegamos a casa depois de um primeiro reconhecimento pela noite cabo-verdiana. Não sei horas. Nao tem nexo)
Para já só temos nuvens e uma imensa vontade que a viagem de avião termine.
Já planeei o abraço à Cat vezes sem conta. Sei que tenho de depositar nele a força e as saudades de muita gente. Parece-me. Sinto-me, de alguma forma, uma mensageira.
Para já (e acho que estou mais ou menos a meio da viagem de ida) já comi, já li 50 páginas do livro que trago e, para já, temos só nuvens.
Tenho o ombro esquerdo gelado e o pé direito dormente.
Não resisti e fui eu (também) à casa-de-banho mesmo sem precisar, só para ver o tempo passar e dar uma espreitadela. Há sempre uma certa curiosidade e eu não andava de avião desde a Madeira, e antes desde Nápoles, e antes desde a primeira vez – Paris de França.
(E andei umas vezes recentemente. Acredito que andei. Andamos!)
Agora, exactamente agora, nem posso falar de nuvens porque estou a passar por um espesso nevoeiro (que, nos olhos, vai passar).
O lugar, tanto este como o do voo do Porto até Lisboa, é ao lado das saídas de emergência. Sem querer dar uma carga pesada a esta viagem, confesso que estive atenta às explicações da hospedeira com um misto de responsabilidade – se acontecer alguma coisa tenho de ajudar o pessoal todo – e de ironia – calhou-me logo a mim ser a primeira a saltar. Eu que não consigo decidir nada na vida, tenho de decidir se tenho coragem (aquela adiada) ou se sou altruísta (consumando, finalmente, um sentimento atrasado)…
O livro que me acompanha é o “Canário” de Rodrigo Guedes de Carvalho. Comecei-o hoje (tirando duas páginas que chamaram a atenção quando o vi na estante do meu cunhado). Estou a gostar! É uma escrita fria que não se compadece com puritanos, embora, me pareça, seja dedicada exactamente a puritanos.
E cá vou eu.
O nevoeiro continua. Vai-se dissipando. É bonito o horizonte das nuvens. Sorte têm os pássaros. E os canários que não vivem em gaiolas!
O filme do Indiana Jones acabou e não vi (quem me conhece sabe que gosto do Harrison Ford (que ocupou outrora um lugar no meu imaginário de onde, agora, o George Clooney não arreda pé) mas no Indiana Jones, vá-lhe Deus. Que castigo) e este friozinho vindo da porta de emergência faz-me sentir um misto de desconforto e de simpatia. Simpatia pela TACV, a companhia aérea cabo-verdiana que me está a proporcionar esta viagem.
Viajo.
Tenho um pensamento, entre todos os sentimentos que me invadem – depois de ter corrido o aeroporto de Lisboa à procura de distância da proximidade por sentir que estava ali muito e depois daquele sorriso que soube a vida ainda fiquei ali demasiado – tenho um pensamento: saudades da Cat. Tenho saudades da minha amiga e um enorme sentimento de medo.
Não sei horas. Quanto aterrar coloco as horas.
Quando aterrar já estou contigo Cat!
Se bem que já me sinto pertinho de ti. Como tu disseste, Cabo Verde começou no aeroporto. E com medo ou sem medo, Cabo Verde já faz sentido. Quando aterrar já vou contigo! E, em Cabo Verde, (também) havemos de estar juntas!
18h58 HORAS LOCAIS
(estou a preencher o visto e imagino a Cat lá fora à minha espera. Sinto-me ansiosa)
