segunda-feira, 20 de outubro de 2008

CV (2)

*Kasa Bela, o bar do Ney, no Plateau.Praia*


Sim, já estou aqui. Jantar e tudo. Primeira noite. Estive muito contigo Cat. Embora não esteja certa sobre se estivemos, de facto, juntas. Sei que a guitarra esteve connosco. Talvez, entre nós. E esteve a vida também. A vida que é vida e para sempre será vida também. Porque não? Hoje fui também observadora. Logo após o bafo e também após os búzios. Ah… afinal fomos juntas! Também aqui e agora.

(A Cat está a beber água, agora mais descontraidamente, depois de a obrigar a posar para a minha sessão fotográfica. Chegamos a casa depois de um primeiro reconhecimento pela noite cabo-verdiana. Não sei horas. Nao tem nexo)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

CV (1)

*Entre Lisboa e a Cidade da Praia / 8 de Outubro de 2008*


Para já só temos nuvens e uma imensa vontade que a viagem de avião termine.
Já planeei o abraço à Cat vezes sem conta. Sei que tenho de depositar nele a força e as saudades de muita gente. Parece-me. Sinto-me, de alguma forma, uma mensageira.
Para já (e acho que estou mais ou menos a meio da viagem de ida) já comi, já li 50 páginas do livro que trago e, para já, temos só nuvens.
Tenho o ombro esquerdo gelado e o pé direito dormente.
Não resisti e fui eu (também) à casa-de-banho mesmo sem precisar, só para ver o tempo passar e dar uma espreitadela. Há sempre uma certa curiosidade e eu não andava de avião desde a Madeira, e antes desde Nápoles, e antes desde a primeira vez – Paris de França.
(E andei umas vezes recentemente. Acredito que andei. Andamos!)
Agora, exactamente agora, nem posso falar de nuvens porque estou a passar por um espesso nevoeiro (que, nos olhos, vai passar).
O lugar, tanto este como o do voo do Porto até Lisboa, é ao lado das saídas de emergência. Sem querer dar uma carga pesada a esta viagem, confesso que estive atenta às explicações da hospedeira com um misto de responsabilidade – se acontecer alguma coisa tenho de ajudar o pessoal todo – e de ironia – calhou-me logo a mim ser a primeira a saltar. Eu que não consigo decidir nada na vida, tenho de decidir se tenho coragem (aquela adiada) ou se sou altruísta (consumando, finalmente, um sentimento atrasado)…
O livro que me acompanha é o “Canário” de Rodrigo Guedes de Carvalho. Comecei-o hoje (tirando duas páginas que chamaram a atenção quando o vi na estante do meu cunhado). Estou a gostar! É uma escrita fria que não se compadece com puritanos, embora, me pareça, seja dedicada exactamente a puritanos.
E cá vou eu.
O nevoeiro continua. Vai-se dissipando. É bonito o horizonte das nuvens. Sorte têm os pássaros. E os canários que não vivem em gaiolas!
O filme do Indiana Jones acabou e não vi (quem me conhece sabe que gosto do Harrison Ford (que ocupou outrora um lugar no meu imaginário de onde, agora, o George Clooney não arreda pé) mas no Indiana Jones, vá-lhe Deus. Que castigo) e este friozinho vindo da porta de emergência faz-me sentir um misto de desconforto e de simpatia. Simpatia pela TACV, a companhia aérea cabo-verdiana que me está a proporcionar esta viagem.
Viajo.
Tenho um pensamento, entre todos os sentimentos que me invadem – depois de ter corrido o aeroporto de Lisboa à procura de distância da proximidade por sentir que estava ali muito e depois daquele sorriso que soube a vida ainda fiquei ali demasiado – tenho um pensamento: saudades da Cat. Tenho saudades da minha amiga e um enorme sentimento de medo.
Não sei horas. Quanto aterrar coloco as horas.
Quando aterrar já estou contigo Cat!
Se bem que já me sinto pertinho de ti. Como tu disseste, Cabo Verde começou no aeroporto. E com medo ou sem medo, Cabo Verde já faz sentido.
Quando aterrar já vou contigo! E, em Cabo Verde, (também) havemos de estar juntas!

18h58 HORAS LOCAIS
(estou a preencher o visto e imagino a Cat lá fora à minha espera. Sinto-me ansiosa)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

I N H O


Muito sereno
Com os dedinhos compridos suspensos no ar
Talvez um sonho
Tremeu
Como uma espreguiçadela gigante
Ou simplesmente porque estava a sonhar
Continuou sereno
Alheio à atenção exterior
Muito intima
Talvez já cúmplice
Labiozinhos perfeitos
Orelhinhas muito bem delineadas
Um desenho
Um desenho muito bonito
Muito sereno
Uma serenidade já activa
Muito real
Ali
Já real
Sempre real
Estaria a sonhar
Tremeu como se quisesse despertar a noite
Para marcar presença
Mas sem acordar
Do sonho
Perfeito
Sereno
Real

A minha estrelinha nasceu
Tem 3,5 quilos, 48 cm, cara redondinha e dedinhos compridos
Hoje (agora mesmo) presenciei e apreciei
Pela segunda vez
Desta vez de noite
Quase em segredo
Quase como uma travessura
A primeira das muitas em que seremos cúmplices
Sussurrei
Rapidamente sussurrei antes de fugir
A frase
Nossa
E a nossa estrelinha estava a sonhar
Obrigado SIS
Nasceu um dos maiores sonhos da minha vida

...

"A girafa que comia estrelas"

(…)

O espirro sacudiu as nuvens e começou a chover.

Choveu durante três dias e a terra voltou a ficar verde.

É por isso que, até hoje, as girafas são amigas das galinhas do mato.

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

"A girafa que comia estrelas" (5)


(...)

Não havendo nuvens também não chove – a savana começou a secar. Era difícil encontrar alguma coisa para comer. As girafas andavam muito fracas. Dona augusta já quase não conseguia caminhar. Olímpia era o único animal, em toda a savana, que continuava gordo.

Podia faltar capim, podia ser difícil encontrar árvores com folhas tenras, mas à noite, no céu, havia sempre estrelas saborosas para comer.

Decidiu então partir à procura de ajuda.

Andou, andou, andou. Andou muito. Uma madrugada acordou com um alegre cacarejar. Abriu os olhos e viu Dona Margarida, lá em cima, pendurada numa nuvem.
Levantou o pescoço e foi ter com ela.
Contou-lhe o que tinha acontecido: na savana não chovia há muito tempo, o capim secara, as árvores tinham perdido as folhas, e os animais estavam a morrer.

O que fazer?

Dona Margarida fechou os olhinhos para pensar melhor.
Pensou com muita força:
“Já sei”, disse, “vamos soprar as nuvens”.
Parecia uma ideia tola, mas Olímpia experimentou e deu certo. As duas juntas, sopraram e sopraram, foram pouco a pouco enchendo de nuvens o céu da savana.

“E agora?”, quis saber Olímpia quando finalmente conseguiram juntar uma boa centena de nuvens mesmo em cima da terra seca.

“O que temos de fazer para que a chuva caia?”

Dona Margarida arrancou uma pena da asa direita e coloco-a no nariz da girafa:

“Agora espirra!”

Olímpia espirrou.

(...)

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

Vi. Vi numa estranha máquina em que apareces a preto a branco. Apareces sobre o aspecto de ondas ora serenas ora rebeldes. Ainda não imagino como és. Nem quero. Prefiro ver-te. E da próxima vez estarás mais nítido. E da próxima vez já te vou ver. E da próxima vez já me vou reservar o direito de imaginar como és. Como vais ser. Embora já sejas a estrelinha mais brilhante da tia. Até já…
...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A certa altura


… A certa altura, dei por mim a olhar para tudo de olhos arregalados, como eles.
Como se visse patos a brincar na água e cabras e ovelhas a pedir carinhos
e pássaros a piar lengalengas pela primeira vez.
A certa altura pensei que era pequenina também
e que tinha direito a rir-me com a mesma inocência que lhes via nos sorrisos.
Hoje, os meninos não abraçaram árvores
mas só porque estava a chover. Era daquela chuva que não pesa nos ombros,
nem impede de caminhar, ainda que a passinhos de bebé, mas escorre pela cara e salpica as mãos antes de encher covinhas de nada…
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Sexta-feira // 5 de Setembro (16h00) // Passeio com meninos
da Obra do Padre Grilo (Matosinhos) // Parque Biológico de Gaia
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Aquela noite de Nick Cave em que
eu não estava
...
Foi 22 de Abril
...

porque é iluminado


Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com seu carinho
E lembrei de um tempo...
Porque o passado me traz uma lembrança
De um tempo em que era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via um infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
(que não tem fim)
De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito
porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
há minutos atrás
...
Ney Matogrosso
Poema

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Uma saudade

Um pôr de sol
Uma gaivota
Um mar infinito
Uma praia deserta
(assim)
...

domingo, 17 de agosto de 2008

"A girafa que comia estrelas" (4)


(...)

Olímpia e Dona Margarida tornaram-se grandes amigas.
Todas as manhãs quando acordava, com a barriga cheia de estrelas, Olímpia enfiava a cabeça nas nuvens para procurar Dona Margarida.

Como as nuvens correm no céu, por vezes a grande velocidade, Dona Margarida viajava muito. Um dia estava em cima da savana, e no outro podia acordar em Luanda, em Lisboa ou até em Nova Iorque. Lá de cima, das nuvens, espreitava o mundo e tirava as suas conclusões:

“Os homens”, contou ela a Olímpia depois de pensar muito, “os homens são animais estranhos: vivem empoleirados uns em cima dos outros, em grandes galinheiros.
Estão sempre com pressa, correm o tempo todo, como formigas, de um lado para o outro, e acham que são felizes assim”.

Uma bela manhã Olímpia acordou e viu que não havia nuvens. Enquanto o sol brilhou o céu esteve sempre azul. No dia seguinte a mesma coisa e no outro também. Por onde andaria Dona Margarida? Passou-se um mês sem sinal de nuvens.


(…)
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JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
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Olá pequena estrela… Falta um mês… Humm… Talvez mais ou talvez menos para conheceres o solinho do céu. Como tens um nome já, já há muitas pessoas que te conhecem e falam e planeiam e chamam por ti. Tenho uma notícia muito boa para nós: já tens um carrinho pretinho muito bonitinho. Vamos puder passear muito e conhecer histórias e ver coisas bonitas… Continuo a dar-te as boas-vindas assim… Ah e também falo contigo porque a mamã diz que já reconheces sons. Até já estrelinha da tia…
...

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Às vezes não me lembro logo…

Às vezes não me lembro logo…
19 de Maio (3h00)

Não quis continuar a frase. Era tarde e tive esperança que a sensação não se repetisse.
Mas acontece sempre.
Às vezes é só depois de pensar um bocadinho, outras é no banho. Estou na banheira e começo a acordar, o sorriso matinal acaba ali, debaixo do chuveiro. Paro enquanto a água corre. Deixo os braços caírem, enquanto sinto o corpo gelar, parado debaixo de água cada vez mais quente e lembro-me.
Lembro-me e assimilo, enquanto o coração começa a apertar como se o bombear das artérias significasse a assimilação de uma realidade gelada num corpo a escaldar de vontades.
É assim quando me lembro no banho.
Prefiro lembrar-me deitada, embora isso implique decidir e planear os passos de um dia que sei, ali mesmo, que nunca mais vai acabar.
Tem acontecido menos, mas às vezes só me lembro na rua, depois de inconscientemente te desejar “Bom Dia”, de me vestir a pensar que quero estar bonita para ti, de pegar no perfume e sorrir enquanto o coloco como se fosse um momento de sensualidade matinal entre o corpo que sempre vi como teu e o pensamento que está sempre em ti.
Às vezes não me lembro logo…

Agora, pensando bem, prefiro lembrar-me só mais tarde. Seria perfeito nem lembrar...
Para sorrir o dia todo.
20 de Maio (19h30)

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Património









Teve o nome de “Quinta de Villa Franca” e foi mandada edificar por João Santiago de Carvalho, na última década do século XIX. O projecto foi desenhado pelo veneziano Nicola Bigagglia, radicado em Portugal desde a década de 1880, e a Casa de Santiago é Museu e Centro de Artes de Matosinhos há dez anos.

São paredes repletas de história, histórias sobrepostas sobre camadas de tinta e desenhos... Mobílias que sussurram segredos de quem as tocou... Espelhos que ainda reflectem o vulto singular de dois amantes... Num quarto, uma lareira recorda as vezes que furtivamente se escapuliram os corpos, em calor... Os vitrais fechados suspiram e as janelas semi-abertas transpiram...

Diz-se que a utilização desta casa se tem vindo a suceder como objecto de paixão. Porque, dizem, primeiro foi residência de um casal de apaixonados incompreendidos e, hoje em dia, é símbolo de uma paixão partilhada pelas gentes de Leça da Palmeira.

Esta não é a primeira vez que a Casa de Santiago sofre obras de requalificação, na década de noventa coube ao arquitecto Fernando Távora projectar a adaptação do edifício a museu. O espaço museológico foi inaugurado em 1996.
...
Além de ter séculos de história, a Casa de Santiago sobressai entre o leque de residências transformadas em museu pela sua arquitectura. Trata-se de uma casa ao gosto da sua época, com detalhes revivalistas e eclécticos, misturados com elementos de vários estilos desde o manuelino, neo-barroco e romântico. No fundo, são paredes e tectos com toques de arte diferentes, juntos num todo comum que pede para abrir portas...

(+-)exertos de peça publicada no "Jornal de Matosinhos"
com o título: "Museu reabre em Setembro"_edição de 8 de Agosto

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Valsa de um homem carente

Se alguma vez te parecer
Ouvir coisas sem sentido
Não ligues sou eu a dizer
Que quero ficar contigo
E apenas obedeço
Com as artes que conheço
Ao principio activo que rege desde o começo
E mantêm o mundo vivo

Se alguma vez me vires fazer
Figuras teatrais
Dignas de um palhaço pobre
Sou eu a dançar a mais nobre
Das danças nupciais
E em minhas plumas cardeais
Em todo o meu esplendou
Sou eu, sou eu nem mais
A suplicar o teu amor

É a dança mais pungente
Mão atrás e outra à frente
Valsa de um homem carente

M
...

LAÇOS

Andamos em voltas rectas
Na mesma esfera,
Onde ao menos nos vemos
Porque o fumo passou.

A chuva no chão revela,
Os olhos por trás.
Há que levar o que restou
E o que o tempo queimou.

Tens fios de mais a prender-te as cordas,
Mas podes vir amanha,
Acreditar no mesmo Deus
Tens riscos demais,

A estragar-te o quadro.
Se queres vir amanha,
Acreditar no mesmo Deus

Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços.. .

Andamos em voltas rectas
Na mesma esfera
Mas podes vir amanhã
Se queres vir amanhã
Podes vir amanhã

Tens riscos de mais
A estragar-me a pedra
Mas se vieres sem corpo
À procura de luz

Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Devolve-me os laços, meu amor!
Meu amor
Meu amor...


TORANJA
...
PARABÉNS
SOFIA
!