E a menina volta ao jogo. Troca passes suaves de sabrinas por pontapés fortes de quem se impõe no jogo táctico-infantil de pequenos jogadores cheios de sonhos.
São duas equipas e duas balizas improvisadas entre árvores e de um lado está um ponta-de-lança de camisola às riscas azuis e brancas e do outro lado um de camisola que combina o branco com o verde (e outros fieis seguidores).
E uma menina, mais ou menos, ao centro.
(Ainda não se decidiu a qual pertence a vestimenta que combina beicinhos vermelhos com toques fortes e desproporcionados verdes)
A menina sai de jogo outra vez. Os restantes seis jogadores olham de soslaio para cima sem coragem de perder tempo, nem a oportunidade de aproveitar o restinho de sol da tarde, o sol que, à tardinha, se rendeu ao primeiro dia de férias.
É golo da equipa verde. Não serve de nada à azul ter luvas na baliza improvisada. Já perde por muitos. Troca-se de campo e muda-se de estratégia, sem tempo a perder porque o sol volta a ameaçar os jogadores sonhadores. Novo golo.
E a menina do beicinho? Não, não está encostada ao poste, nem a passear-se pelo estádio de calçada amarela ignorando o risco dos dribles e das cabeçadas.
A menina está sentada no fresquinho da sombra do poste direito da baliza da equipa verde. Simula um novo choramingar enquanto alinha raminhos de relva que estorvam as chuteiras dos perfeccionistas da bola.
Novo golo e a menina é chamada a intervir. Levada em ombros pelo marcador daquele estouro, abre os braços num voo que lembra vedetas de tempos recentes.
E... Sem beicinho, mas já no chão, a menina volta a cruzar os braços junto ao poste, enquanto os jogadores sonhadores lhe vão passando, ao ritmo que a bola e os passes permitem, a mão pelo cabelo em tom de “desculpa”.


