E daí?
segunda-feira, 9 de junho de 2008
GIRAsSOL
E daí?
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Um pequeno/grande mimo
Não sabe porquê mas todos o conhecem por “Tareco” e poucos lhe chamam Eduardo Santos, o seu nome verdadeiro, que fez questão de não esconder, uma vez que, diz, não tem “medo” nem “vergonha”. À pergunta – “Onde mora?”, responde sem reservas: “Moro na rua. Vivo de uma reforma pequena. A minha família só me quer se lhes der o dinheiro todo. Gosto da liberdade de andar sempre a passear”…Ao lado, Zé Reis apresenta-se de forma diferente: “Moro no bairro dos pobres, junto à Petrogal. Não tenho família. Estou à espera do rendimento mínimo há dois anos, mas parece que o processo está encravado. Arrumo carros para conseguir dinheiro para tabaco e comida”. À pergunta – “Sente que não teve sorte na vida…”, responde sem deixar terminar: “Não tive, mas a vida é mesmo assim”…
…A história de dois homens que partilharam, embora por razões diferentes, a mesma mesa posta…
O “Tareco” do Parque Basílio Teles, onde costuma descansar, depois de vir do passeio que quase sempre passa pela Rua Brito Capelo, orgulha-se de ter tido muitas profissões – pescador, pasteleiro, entre outras – e dos tempos que passou na Alemanha, na construção civil, onde se aleijou numa perna. De volta a Portugal ainda continuou a procurar trabalho – “Tomara eu trabalhar”, desabafa – mas da procura à reforma por invalidez, e da reforma ao mau estar em casa, “foi um pulo”. Agora é, repetimos, o “Tareco” do Basílio Teles que com 260 euros mensais e a ajuda do Lar de Sant’Ana, onde vai almoçar e tomar banho diariamente, lá vai fazendo a sua vida sem prescindir do bem mais precioso que adquiriu ao optar por este modo de vida: “A sensação de liberdade é muito boa”.
Questionado sobre os principais gastos de quem vive cá e lá, com e sem tecto, responde: “Primeiro está a comida. Não é um vício bom, mas quando recebo a reforma compro logo os cigarros do mês todo. Escolhi viver assim, porque para viver, para viver como a gente toda vive, este dinheiro não chegava”. Eduardo Santos só lamenta um gasto que deixou de ter: “Já não sou sócio do Leixões. Deixei de pagar por isso já não sou. Era o 6853”, diz, quase a soletrar, vincando o número que, por perdurar na memória, mostra como continua a ser – sem cadeira e sem cartão – “um verdadeiro leixonense”.
A história e até o olhar de Zé Reis são um bocadinho diferentes. As lágrimas começam a engrossar e a escorrer pela cara quando se pergunta pela família: “Não tenho pai nem mãe. Vivo assim porque não tive sorte”. Acerca do modo de vida que escolheu, mais do que explicar o porquê da escolha, recorda que o “ofício de arrumar carros” é “bem melhor do que matar e roubar”, coisa que “nunca” lhe passou pela cabeça, apesar da tristeza que sente por estar “sozinho no mundo”.
Zé Reis foi pintor e empilhador. O último emprego que teve foi numa fábrica da Maia que fechou depois de um roubo e de um incêndio. Guarda boas recordações da J. Gonçalves Morais e dos patrões que, lembra, “não tiveram culpa nenhuma dos despedimentos porque tiveram azar”. Questionado sobre os seus passatempos e esclarecido que “passatempos” não é o mesmo que “boa vida”, conta-nos: “Às vezes não sei o que fazer e deito-me na cama a pensar. Vou convivendo nos cafés com alguns amigos, mas fujo logo porque não quero nem posso passar dos dois copitos de vinho. Não me meto em confusões. Isto não é uma boa vida, é passar o tempo…”.
((
Eduardo Santos tem 48 anos e é natural de Matosinhos. Já Zé Reis, de 51 anos, é leceiro de “alma e coração”. Estiveram num almoço promovido por quatro alunos da Escola Secundária da Boa Nova, Leça da Palmeira, num dia diferente que ambos classificaram com “cinco estrelas”
"A girafa que comia estrelas" (2)
(…)Primeiro porque quando espirram assustam todos os outros bichos, e sacodem as árvores e as coisas, e algumas chegam mesmo a perder a cabeça (a cabeça pode saltar com a força do espirro); depois porque é difícil conseguir um cachecol capaz de cobrir pescoços tão compridos.
Olímpia, porém, gostava de andar com a cabeça nas nuvens – queria ver os anjos.
A avó Rosália, mãe de dona Augusta, dissera-lhe que os anjos dormem nas nuvens. Também lhe dissera que quando as pessoas morrem se transformam em anjos.
Dissera-lhe isso pouco antes de morrer.
Por isso Olímpia passava o dia inteiro com a cabeça enfiada nas nuvens. Tinha saudades da avó.
À noite comia estrelas.
Enquanto as outras girafas dormiam, Olímpia subia ao morro mais alto da savana, levantava o pescoço e comia estrelas. As estrelas ardiam um pouco na garganta, mas eram doces e macias, e sabiam a pêssego. Ao contrário do que seria de supor, a noite não ficava mais vazia por causa disso.
À medida que Olímpia comia estrelas, outras estrelas nasciam, novinhas em folha, brilhando ainda mais do que as antigas.
Assim, de certa forma, ela renovava a noite. Olímpia nunca encontrou nenhum anjo.
(…)
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
Pequena estrela… Agora faltam menos de cinco meses, e continuo, assim, a dar-te as boas-vindas. Sabes que já tens um quarto bonito com paredes pintadas de verde e amarelo e de amarelo e verde? E tens muitos e muitos casaquinhos e coisinhas que a avó não pára de fazer. E tens outras coisinhas que a tia comprou e tens a promessa… Vamos conhecer muitas histórias, pequena estrela? Sinto-te ansiosa por sentir o ventinho do céu e o quentinho do sol… Até já estrelinha brilhante!
sábado, 17 de maio de 2008
**pt3**
Entre o carvalho velho e os odores fortes, numa cave:
A guia é simpática. O sotaque meio esquisito, faz-me estar mais entretida com o espaço do que com a história. Mas sei que parei antes mesmo de ouvir a explicação e lembro-me de sorrir: “Um ano muito raro… Encorpado…” E continua…
Um vinho como tu!
**pt2**
**pt1**
Memórias / colectivas / 1
- talvéz o meu primeiro maior contacto com Matosinhos
sábado, 10 de maio de 2008
Memória cumprida
Porque é que os meus passos me guiam e o pensamento me foge sempre?
Aquele compromisso estava adiado há muito tempo. E… Sim! Era já um compromisso que tinha de cumprir!
E por impulso… Quem pode recusar um impulso? Disseram-me um dia… Cheguei ou chegamos lá. E cumprimos. E desejamos! E sentimos! E respiramos!
O momento não pedia partilha. Essa ficaria adiada, outra vez. O momento pedia reflexão. E essa ficaria incompleta, naturalmente, embora mais nítida.
Os pés agarraram-se à areia como se tivessem medo de se soltar.
E os braços voltaram a cair sobre o corpo, deixando as mãos penduradas no vento.
E os gritos continuaram mudos e os murmúrios chegaram a ficar roucos.
“Não há nenhuma pedra que não conheça o teu sabor salgado”, pensei. E sim! Cumprindo-se o adiado e reflectindo lembrei-me da pergunta que me fizeram um dia: “Estás preparada para essa natureza que tanto amas?”. Lembro-me de ter respondido de coração cheio e sem sal: “Tenho a certeza!”.
Com os pés firmes na areia e com os braços a ganhar forças para arrancar o sabor salgado que as pedras conhecem tão bem e me ensinam, aos poucos, a aceitar, lembrei-me dessa natureza amada… E armada!
Como é que a descrevi? Parece que foi há tanto tempo… Como é que a descrevi?
“É perfeccionista, corajosa, insaciável e apaixonada”. Sim, era isso! Aquela natureza, que não temia, era isso. Aliás, seria apaixonada ou apaixonante? Pouco importa. Afinal eu estava preparada.
Depois, quando os pés saíram, ganharam vontade própria e o sol desistiu de secar aquele sabor salgado, os braços agarram as mãos e entregaram-se ao vento, numa corrida contra o sentido do impulso de sempre!
Já quente e já aconchegada
Já a cumprir a segunda fase do compromisso,
Já atrasada e já cansada como desejado…
É deixar a música entrar e reflectir em linhas:
És tu!
Em Lavra, com o sol já posto e os pés já quentes. Depois de um impulso e de uma reflexão num sítio que não pertence aos sítios nem aos homens… Pertence à Memória!
quinta-feira, 8 de maio de 2008
(em) Num Código de Barras
Deixa que o silêncio faça parte de nós
deixa que o silêncio
seja parte de nós
funda e indizível
porque não estamos sós
apenas a só
e até se dispensa a voz
deixa que ele seja
um espelho fiel
do que sinto por ti
basta um gesto de mão
só um olhar
p'ra mostrar a paixão
e se eu te mentir alguma vez
é porque nos lançam amarras
é para iludir o vídeo oculto
que nos segue lá do alto
e nos traduz em barras
num código de barras
num código de barras
assim nem eu nem tu
teremos um amor captável
pelo serviço secreto
será indetectável
jamais será cifrável
ao abrirmos a boca
será como o previsto
e até a felicidade
será a que anunciam
na publicidade
e se eu te mentir alguma vez
é porque nos lançam amarras
é para iludir o vídeo oculto
que nos segue lá do alto
e nos traduz em barras
num código de barras
num código de barras
LETRA: Carlos Tê
INTERPRETE: Clã
Ah... E um brinde à amizade!
//porque não estamos sós, apenas a só//
domingo, 4 de maio de 2008
uma fuga
Não contemplei para lembrar, contemplei para respirar.
Não caminhei para prolongar o tempo, caminhei para apreciar o impulso de andar a pé.
Não me decidi por passos acelerados por medo, acelerei por convicção.
Não escolhi o (nosso) percurso por necessidade, escolhi com vontade… Sim, talvez por necessidade de sorrir.
Não parei diante do (nosso) quarto para suspirar, parei para contemplar (-nos).
Não cheguei cedo para dormir, quis chegar para pensar.
Não me despedi do espaço porque me sentia impotente, despedi-me porque me sentia preenchida.
Não absorvi o cheiro das (tuas) flores à procura de calar a angústia, apreciei-as porque são (as tuas) flores bonitas. Porque merecem e não têm culpa.
Não rodei a chave na porta para assimilar mais um dia passado, rodei a chave e subi as escadas com a confiança que mais um dia presente (nos) dá.
Não trauteei as músicas de sempre para improvisar uma banda sonora, cantei-as!
E não devolvi as dicas e os conselhos da noite, porque (egoistamente como sempre) aproveitei para me agarrar à vida!
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Central de Informação
Era de noite e estava frio. Não sei se o frio era do nevoeiro, porque havia muito, ou se vinha das pedras à volta, porque existiam muitas pedras à volta. Sei que era de noite e que sentia frio. O resto do cenário não importa. Havia um telefone. Um telefone antigo dentro de uma caixa enferrujada com muitos números à volta, alguns riscados, outros incompletos e muitos cardinais e asteriscos no lugar dos indicativos.
Ligavam e ligavam. Ligavam sem parar, sem dar lugar a pausas para esquecer o telefonema anterior. Alguns falavam muito, enquanto outros soltavam frases como se estivessem a emitir mensagens em código. A maioria sabia ser breve e atirava frases já prontas para o registo.
As horas, daquele delírio, não importam. Porque já se sabe que era de noite. Mas as horas, naquele delírio, eram muito importantes. As horas eram registadas ao segundo, depois de um número preenchido na lista cheia de linhas prontas para serem preenchidas.
“Não tenho dinheiro para pagar a conta” – só isso. Alguém não tinha dinheiro para pagar a conta.
“Começaram a namorar hoje e eu vi tudo. Vi-os dar um beijo” – nada mais. Algures começava um novo namoro.
Não me cabia saber quem eram, onde estavam, registar nomes ou moradas, saber se a conta era muito grande e como seria solucionado o problema. Nem tinha de saber se estavam apaixonados, nem porque é que o primeiro beijo tinha sido assistido. Registava.
Função: registar a informação. Afinal aquele telefone era uma central de informações. E a lista ia ficando completa, muito extensa já, com muitos números e frases curtas e simples registadas.
Novo telefonema. Atenção e expectativa do meu lado. Uma voz ofegante do outro. Informação transmitida. Uma frase dura acompanhou e ecoou pelo resto da noite. A caneta tinha deixado de estar firme e alheia aos problemas ou aos triunfos dos outros. A frase ecoava e o nevoeiro começava a desaparecer, dando mais espaço às pedras que pareciam querer engolir a central de informação. “Teve um acidente” – não podia (não tinha essa função) pedir pormenores.
Registo nº X: “Ele teve um acidente” (ponto final).
Ali não havia tempo (nem espaço) para sorrisos ou lágrimas. Só se podia suspirar, entre informações. Suspirar!
Depois, bem depois, o nevoeiro desapareceu e o sol começou estalar as pedras duras. O telefone ainda tocou mais uma ou duas vezes, até a porta da cabine se fechou lentamente, deixando um eco atrás de si. Um eco semelhante a um rasto que dava sinal de chegada à meta. Para mim, o sinal era de partida. E para todas aquelas vozes, o rasto misturava-se com o sinal que os ecos deixam atrás de si. Estava registado. A eternidade diária e imediata ficava registada em frases curtas, simples, concretas e avulsas. O todo era aquela “Central de Informação” que não fazia perguntas... Esperava e registava!
Texto escrito no dia 18 de Abril. Depois de um sonho e de uma partilha.
Registo à espera de uma imagem desejada a sós, mas descoberta a dois.
Foto tirada no dia 27 de Abril. Depois de uma manhã ao sol, numa esplanada partilhada.
"A girafa que comia estrelas"
Às vezes a mãe ralhava com ela:
“Olímpia, Olímpia, lá estás tu outra vez com a cabeça nas nuvens!”
E era verdade, a pura verdade. Aos cinco anos Olímpia já ultrapassava em altura todas as girafas da savana. Era tão alta que quando levantava o pescoço e se punha na pontinha dos pés a cabeça dela desaparecia entre as nuvens.
A mãe de Olímpia, Dona Augusta, não gostava daquilo:
“As nuvens são húmidas e frias, Olimpiazinha, olha que te constipas.”
O pior que pode acontecer a uma girafa é ficar constipada.
(...)
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
Faltam cinco meses e, para já, dou-te as boas-vindas assim... Através de histórias… A tua vida vai estar sempre cheia de histórias. Prometo! E prometo que vais ser sempre a estrela mais brilhante da minha história. Vamos meter a cabeça nas nuvens e conhecer muitas histórias? Para já, dou-te as boas-vindas assim… Até já pequena estrela.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
A B R I L
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Sobre Sonhos
Sempre sonhos…
Todas as noites sonho. Não sei se sempre sonhei, mas tenho-me lembrado de todos os sonhos.
Todas as manhãs, e às vezes nem é de manhã, me lembro dos sonhos.
Tão nítidos…
Tantos sonhos…
Já acordei num delírio e já adormeci a delirar. Sonho sempre. Lembro-me sempre.
E são sempre sonhos…
Houve os que escrevi, o que contei, os que quero partilhar, e aquele que sonho…
Sempre!
Já acordei em fúria e sorridente e já adormeci num pranto e em paz. Experiências...
Já cansei a mente, já cansei o corpo, sem nunca sentir cansaço.
Mas, sonho sempre!
E ao acordar, ao sentir, o delírio furioso e sorridente é sempre tão nítido.
Nitidez…
Dura, feliz, serena e frágil!
Às vezes, quase sempre, ofegante!
Porquê tantos sonhos?
Sempre, todas as noites, todas as madrugadas, sempre! Sonhos!
Quero dormir…
Já sei que vou sonhar.
Mas desejo dormir…
Quero sonhar.
Ter sonhos!
Sempre!

