Entre o carvalho velho e os odores fortes, numa cave:
A guia é simpática. O sotaque meio esquisito, faz-me estar mais entretida com o espaço do que com a história. Mas sei que parei antes mesmo de ouvir a explicação e lembro-me de sorrir: “Um ano muito raro… Encorpado…” E continua…
Um vinho como tu!
sábado, 17 de maio de 2008
**pt3**
**pt2**
**pt1**
Memórias / colectivas / 1
- talvéz o meu primeiro maior contacto com Matosinhos
sábado, 10 de maio de 2008
Memória cumprida
Porque é que os meus passos me guiam e o pensamento me foge sempre?
Aquele compromisso estava adiado há muito tempo. E… Sim! Era já um compromisso que tinha de cumprir!
E por impulso… Quem pode recusar um impulso? Disseram-me um dia… Cheguei ou chegamos lá. E cumprimos. E desejamos! E sentimos! E respiramos!
O momento não pedia partilha. Essa ficaria adiada, outra vez. O momento pedia reflexão. E essa ficaria incompleta, naturalmente, embora mais nítida.
Os pés agarraram-se à areia como se tivessem medo de se soltar.
E os braços voltaram a cair sobre o corpo, deixando as mãos penduradas no vento.
E os gritos continuaram mudos e os murmúrios chegaram a ficar roucos.
“Não há nenhuma pedra que não conheça o teu sabor salgado”, pensei. E sim! Cumprindo-se o adiado e reflectindo lembrei-me da pergunta que me fizeram um dia: “Estás preparada para essa natureza que tanto amas?”. Lembro-me de ter respondido de coração cheio e sem sal: “Tenho a certeza!”.
Com os pés firmes na areia e com os braços a ganhar forças para arrancar o sabor salgado que as pedras conhecem tão bem e me ensinam, aos poucos, a aceitar, lembrei-me dessa natureza amada… E armada!
Como é que a descrevi? Parece que foi há tanto tempo… Como é que a descrevi?
“É perfeccionista, corajosa, insaciável e apaixonada”. Sim, era isso! Aquela natureza, que não temia, era isso. Aliás, seria apaixonada ou apaixonante? Pouco importa. Afinal eu estava preparada.
Depois, quando os pés saíram, ganharam vontade própria e o sol desistiu de secar aquele sabor salgado, os braços agarram as mãos e entregaram-se ao vento, numa corrida contra o sentido do impulso de sempre!
Já quente e já aconchegada
Já a cumprir a segunda fase do compromisso,
Já atrasada e já cansada como desejado…
É deixar a música entrar e reflectir em linhas:
És tu!
Em Lavra, com o sol já posto e os pés já quentes. Depois de um impulso e de uma reflexão num sítio que não pertence aos sítios nem aos homens… Pertence à Memória!
quinta-feira, 8 de maio de 2008
(em) Num Código de Barras
Deixa que o silêncio faça parte de nós
deixa que o silêncio
seja parte de nós
funda e indizível
porque não estamos sós
apenas a só
e até se dispensa a voz
deixa que ele seja
um espelho fiel
do que sinto por ti
basta um gesto de mão
só um olhar
p'ra mostrar a paixão
e se eu te mentir alguma vez
é porque nos lançam amarras
é para iludir o vídeo oculto
que nos segue lá do alto
e nos traduz em barras
num código de barras
num código de barras
assim nem eu nem tu
teremos um amor captável
pelo serviço secreto
será indetectável
jamais será cifrável
ao abrirmos a boca
será como o previsto
e até a felicidade
será a que anunciam
na publicidade
e se eu te mentir alguma vez
é porque nos lançam amarras
é para iludir o vídeo oculto
que nos segue lá do alto
e nos traduz em barras
num código de barras
num código de barras
LETRA: Carlos Tê
INTERPRETE: Clã
Ah... E um brinde à amizade!
//porque não estamos sós, apenas a só//
domingo, 4 de maio de 2008
uma fuga
Não contemplei para lembrar, contemplei para respirar.
Não caminhei para prolongar o tempo, caminhei para apreciar o impulso de andar a pé.
Não me decidi por passos acelerados por medo, acelerei por convicção.
Não escolhi o (nosso) percurso por necessidade, escolhi com vontade… Sim, talvez por necessidade de sorrir.
Não parei diante do (nosso) quarto para suspirar, parei para contemplar (-nos).
Não cheguei cedo para dormir, quis chegar para pensar.
Não me despedi do espaço porque me sentia impotente, despedi-me porque me sentia preenchida.
Não absorvi o cheiro das (tuas) flores à procura de calar a angústia, apreciei-as porque são (as tuas) flores bonitas. Porque merecem e não têm culpa.
Não rodei a chave na porta para assimilar mais um dia passado, rodei a chave e subi as escadas com a confiança que mais um dia presente (nos) dá.
Não trauteei as músicas de sempre para improvisar uma banda sonora, cantei-as!
E não devolvi as dicas e os conselhos da noite, porque (egoistamente como sempre) aproveitei para me agarrar à vida!
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Central de Informação
Era de noite e estava frio. Não sei se o frio era do nevoeiro, porque havia muito, ou se vinha das pedras à volta, porque existiam muitas pedras à volta. Sei que era de noite e que sentia frio. O resto do cenário não importa. Havia um telefone. Um telefone antigo dentro de uma caixa enferrujada com muitos números à volta, alguns riscados, outros incompletos e muitos cardinais e asteriscos no lugar dos indicativos.
Ligavam e ligavam. Ligavam sem parar, sem dar lugar a pausas para esquecer o telefonema anterior. Alguns falavam muito, enquanto outros soltavam frases como se estivessem a emitir mensagens em código. A maioria sabia ser breve e atirava frases já prontas para o registo.
As horas, daquele delírio, não importam. Porque já se sabe que era de noite. Mas as horas, naquele delírio, eram muito importantes. As horas eram registadas ao segundo, depois de um número preenchido na lista cheia de linhas prontas para serem preenchidas.
“Não tenho dinheiro para pagar a conta” – só isso. Alguém não tinha dinheiro para pagar a conta.
“Começaram a namorar hoje e eu vi tudo. Vi-os dar um beijo” – nada mais. Algures começava um novo namoro.
Não me cabia saber quem eram, onde estavam, registar nomes ou moradas, saber se a conta era muito grande e como seria solucionado o problema. Nem tinha de saber se estavam apaixonados, nem porque é que o primeiro beijo tinha sido assistido. Registava.
Função: registar a informação. Afinal aquele telefone era uma central de informações. E a lista ia ficando completa, muito extensa já, com muitos números e frases curtas e simples registadas.
Novo telefonema. Atenção e expectativa do meu lado. Uma voz ofegante do outro. Informação transmitida. Uma frase dura acompanhou e ecoou pelo resto da noite. A caneta tinha deixado de estar firme e alheia aos problemas ou aos triunfos dos outros. A frase ecoava e o nevoeiro começava a desaparecer, dando mais espaço às pedras que pareciam querer engolir a central de informação. “Teve um acidente” – não podia (não tinha essa função) pedir pormenores.
Registo nº X: “Ele teve um acidente” (ponto final).
Ali não havia tempo (nem espaço) para sorrisos ou lágrimas. Só se podia suspirar, entre informações. Suspirar!
Depois, bem depois, o nevoeiro desapareceu e o sol começou estalar as pedras duras. O telefone ainda tocou mais uma ou duas vezes, até a porta da cabine se fechou lentamente, deixando um eco atrás de si. Um eco semelhante a um rasto que dava sinal de chegada à meta. Para mim, o sinal era de partida. E para todas aquelas vozes, o rasto misturava-se com o sinal que os ecos deixam atrás de si. Estava registado. A eternidade diária e imediata ficava registada em frases curtas, simples, concretas e avulsas. O todo era aquela “Central de Informação” que não fazia perguntas... Esperava e registava!
Texto escrito no dia 18 de Abril. Depois de um sonho e de uma partilha.
Registo à espera de uma imagem desejada a sós, mas descoberta a dois.
Foto tirada no dia 27 de Abril. Depois de uma manhã ao sol, numa esplanada partilhada.
"A girafa que comia estrelas"
Às vezes a mãe ralhava com ela:
“Olímpia, Olímpia, lá estás tu outra vez com a cabeça nas nuvens!”
E era verdade, a pura verdade. Aos cinco anos Olímpia já ultrapassava em altura todas as girafas da savana. Era tão alta que quando levantava o pescoço e se punha na pontinha dos pés a cabeça dela desaparecia entre as nuvens.
A mãe de Olímpia, Dona Augusta, não gostava daquilo:
“As nuvens são húmidas e frias, Olimpiazinha, olha que te constipas.”
O pior que pode acontecer a uma girafa é ficar constipada.
(...)
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
Faltam cinco meses e, para já, dou-te as boas-vindas assim... Através de histórias… A tua vida vai estar sempre cheia de histórias. Prometo! E prometo que vais ser sempre a estrela mais brilhante da minha história. Vamos meter a cabeça nas nuvens e conhecer muitas histórias? Para já, dou-te as boas-vindas assim… Até já pequena estrela.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
A B R I L
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Sobre Sonhos
Sempre sonhos…
Todas as noites sonho. Não sei se sempre sonhei, mas tenho-me lembrado de todos os sonhos.
Todas as manhãs, e às vezes nem é de manhã, me lembro dos sonhos.
Tão nítidos…
Tantos sonhos…
Já acordei num delírio e já adormeci a delirar. Sonho sempre. Lembro-me sempre.
E são sempre sonhos…
Houve os que escrevi, o que contei, os que quero partilhar, e aquele que sonho…
Sempre!
Já acordei em fúria e sorridente e já adormeci num pranto e em paz. Experiências...
Já cansei a mente, já cansei o corpo, sem nunca sentir cansaço.
Mas, sonho sempre!
E ao acordar, ao sentir, o delírio furioso e sorridente é sempre tão nítido.
Nitidez…
Dura, feliz, serena e frágil!
Às vezes, quase sempre, ofegante!
Porquê tantos sonhos?
Sempre, todas as noites, todas as madrugadas, sempre! Sonhos!
Quero dormir…
Já sei que vou sonhar.
Mas desejo dormir…
Quero sonhar.
Ter sonhos!
Sempre!
segunda-feira, 24 de março de 2008
Suspiros de vento
Ouvir o vento deitada na cama, enrolada em preguiças e em lençóis, e pensar, admirar o pensamento, respeitar a capacidade de pensar e agradecer ao vento.O suspiro que antecede a força de vontade ou a resignação é como a flor do vento, dura segundos intermináveis de certeza imediata. Sopra-se, como o vento.
Também me lembrei de um corrupio. E lembrei-me que já quis ter asas, mas depois decidi que preferia respirar debaixo de água ou ser uma onda porque consegue as duas coisas, através do vento.
De entre mil coisas, de entre sonhos e fantasias e desejos e projectos, pensei, lembrei-me que gostava de andar de mota sem ter medo. E sentir o vento.
domingo, 23 de março de 2008
Dás-me a vontade
Dás-me o ouvido
De arrancar músicas ao ar
Na tempestade
Madeira e vidro
Saberão como não quebrar
As chamas trinco
O sexto sentido
Saberá tudo entrelaçar
É por tudo o que em nós corre
Que se vive e que se morre
Meu sangue sinto
Que à terra desce
E no teu corpo o sei lugar
Dentro do instinto
Tudo o que cresce
É forma boa de se amar
É por tudo o que em nós corre
Que se vive e que se morre
Eu toco, eu fujo, eu volto, eu passo
Giro nos meus seis sentidos
Eu desço à terra e subo ao espaço
Agarrado aos seis sentidos
**Entre um copo de vinho tinto e algum fumo, e quando a música dá sinais de querer aproximar as mãos, os toques, a vontade de partilhar, embora de forma mais intelectual que física... Entre uma conversa que puxou outra... Fez sentido, um Sexto Sentido...** (Obrigado Sofia pela escolha, pela dica, pelo peixe e pela sopa)
sexta-feira, 21 de março de 2008
Hoje comemora-se...
«
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite’inda orvalhadas:
Ou, vendo o mar, das ermas cumiadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longe, no horizonte, amontoadas:
Quantas vezes, de súbito emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão, e empalideces…
O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
sábado, 15 de março de 2008
PEÇA: "Mil Olhos de Vidro"

SINOPSE: "O que muda em nós sempre que à nossa frente se coloca um computador ligado ao Mundo? O que no ser humano se transforma quando do outro lado de um ecrã está um rosto invisível e disponível para ouvi-lo? ‘Mil Olhos de Vidro’ procura ser uma reflexão contemporânea sobre o que nos aproxima e o que nos divide numa era de telecomunicações de geração avançada. Vivemos um período onde o regresso à escrita concorre, seriamente, com o poder da imagem. O cibernauta é hoje um ser comunicante, uma pessoa que escolhe mostrar a vida e o pensamento aos outros, mais do que alguma vez fez no passado" (...)
ANTÓNIO REIS (ACTOR): "A peça trata de um tema actual, embora mostre o lado pior, os suicídios, as paixões, os desesperos que o virtual pode provocar. O teatro também tem essa função, não dá soluções, mas reflecte sobre as coisas. Fiquei fascinado com este texto, embora seja um tema polémico" *
FERNANDA LAPA (ACTRIZ): "A primeira vez que vi uma webcam foi aqui. As vidas virtuais não é só a Internet que as fabrica, as revistas cor-de-rosa oferecem uma espécie de realidade virtual aos leitores, e até as novelas têm um lado de alienação. Este texto é uma provocação e leva as pessoas a reflectir" *
PEDRO E FILIPE PINTO (AUTORES): "A ideia é que a nossa geração se veja espelhada no texto. Hoje em dia, é inevitável que as pessoas comuniquem virtualmente, quem não o faz sente-se desactualizado. Embora o texto destaque o lado negativo, seria possível fazer uma peça ao contrário, com as mesmas personagens, mas retratando o lado positivo" *
Encenação: Luísa Pinto - Texto: Pedro e Filipe Pinto - Música original: Carlos Azevedo - Interpretação: Fernanda Lapa, Filomena Cautela, António Reis e Carlos Peixoto
