domingo, 9 de março de 2008

Sábado, 8 de Março de 2008


Andava pelas ruas como se as visse pela primeira vez, com vontade de as absorver por inteiro e de as descobrir ainda mais – Sugar todo o tutano da vida, tinha ouvido vezes sem conta e acreditava – e cheirava e observava e voltava atrás e andava ora em silêncio ora a trautear musicas sem nexo.
A dado momento parou e abriu os olhos. Quis perceber melhor, entrou, ouviu, sentiu e passou a trautear músicas com muito nexo, apesar de não saber as letras ou as entoar muito mal ao ouvido do percebido.
Não interessava! Sentia!
Voltou a sair com um cheiro que já era outro e com a vontade de desfrutar daquilo que tinha acabo de conhecer, absorver, descobrir… Sim! Porque era aquilo que queria.
Mas não havia pretexto. Pelo menos não existia pretexto maior do que o primeiro dedicado. Inventou-se o pretexto. Inventou-se bem e com harmonia.
E então ficou, já de olhos abertos, já mais segura de si, já conhecedora das sensações e confiante nelas – também confiava no destino que a tinha levado até ali, deixando de questionar o acaso por se sentir tranquila perante ele.
Ficou ali. E o pretexto deixou de ser pretexto, os olhos foram-se fechando até que fecharam totalmente, embora ainda expectantes. Muito expectantes! De manhã foi outro dia, outra luz, nova vida… A expectativa teve até capacidade de sorrir, á pressa, como se fosse uma ferida daquelas que já não acreditam em acasos para sarar.
Nunca mais voltou a percorrer as ruas… Voltou, mas não daquela forma expectante como se nunca as tivesse visto.

Que é feito de ti?
Que é feito deles?
Porque lhe chamam Lobos do Mar?
E que pranto é este que se exprime pela a fúria dos braços, através das lágrimas grossas e dos gritos roucos?
Tens o coração em ferida?
Consegues silenciar a dor como se fosses bronze frio?
E tens memória?
Lembras-te?
De tudo?
De tudo mesmo?

No dia em que troquei uma flor por uma flor. No dia que dizem ser, o Dia Internacional da Mulher.
Monumento evocativo do naufrágio de 1947 // 15h20 // Café TITAN - marginal de Matosinhos

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Corredor de tempos



















A profundidade do tempo, perdida na profundidade do espaço
Várias portas
Vários vidros
Vários trapos
Vários risos
Vários gritos
Vários passos
Vários jogos e empurrões
E redes?
E mais gritos e mais fugas e mais gargalhadas e outros trapos
As mesmas portas e os mesmos vidros…
Agora no chão
Como os passos e como os jogos
Um, dois, três, macaquinho chinês…
Agora pelo chão, depois de tantos risos e de tantos trapos trocados, vendidos, usados…
E a menina correu de mão a segurar a saia e pés descalços, cabelo solto muito engrenhado, como a pele muito escura, os olhos muito vivos e brancos como a brancura disfarçada dos dentes…
Correu, gritou, sorriu, lançou uma, duas, três vezes, muitas vezes. E fugiu…
Por corredores e corredores de tempo, o espaço dita a forma de se jogar e empurrar a história dos trapos (ou seria das redes?)

FOTO: Anexos demolidos no Bairro dos Pescadores – Matosinhos/Fev08

Como eram as paredes da minha infância?

Porque é que, quando era pequenina, o terraço me parecia um campo de futebol enorme, os canteiros eram hortas, e ter dois barracos atrás me parecia sinal de riqueza?
Nas paredes da minha infância os interruptores eram redondos, castanhos e ficavam no alto, muito lá no alto… Tão alto… A escuridão, das paredes da minha infância, à noite, estendia-se desde os interruptores altos à extensão dos corredores compridos…de uma casa tão pequenina e tão baixa que nem tinha tempo de ficar escura…
Porque é que, quando era pequenina, aquelas 15 escadas de pedra me pareciam tão intransponíveis, tão imponentes? Uma escadaria… Um desafio de 15 escadas em pedra.
Algumas das paredes da minha infância tinham cores por baixo de outras cores. Lembro-me que aquele lado da sala que estava sempre muito molhado e preto, descascava tinta branca e depois amarela e depois verde… Eram camadas, quase como se fossem – percebi muito mais tarde – camadas de tinta a indicar o trilho das gerações. Mas porque teria começado no verde? Porque teriam sido entretanto amarelas? Porque é que as paredes da minha infância já eram brancas, um branco orgulhoso que se achava o mais sóbrio e elegante de sempre.
Quando era pequenina, era preciso chave para ir ao frigorífico à noite e guarda-chuva para ir à despensa da garagem, quando estava a chover.
Quando era pequenina, fechava-se a porta de trás no Inverno para não entrar frio e se fazer um presépio gigante que tinha cor, luz, piscava, as imagens mudavam de lugar (achava eu que por magia), havia céu feito de tecido azul muito escuro e estrelas feitas de cartolina e papel de prata e um rio e uma ponte e água parada que eu acreditava ter vida, como acreditava que tudo tinha vida, sem perceber que a porta fechada mostrava o medo ao frio, o medo à morte.
As paredes da sala onde se via televisão, na minha infância, davam acesso às paredes dos quartos que eram pequenos, dizem-me agora, tão acolhedores, recordo-me bem. E para ir para o quarto, eu ia pela sala, e ao lado, mesmo ao lado e de portas abertas estava o quarto dos meus pais, e o da minha avó que era o mais pequeno, o mais acolhedor também.
Havia pregos nas paredes da minha infância, sinais do tempo, sinais das escolhas, sinais dos estilos, sinais de passagens. Havia riscos nas paredes da minha infância, sinais da minha infância…


(...)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Ruinas citadinas /sentir cidades/ 3



Ouvi-as sussurrar tantas histórias...
Gemiam sem medo de cair. Gemiam sem dó de morrer. Só gemiam, sussurrando histórias, recordando conversas, lembrando encontros, olhares, grandes produções e grandes festas...
As paredes da história... Os vidros estilhaçados pela força da memória.
Sussurram e gemem em convivência amena com a mudança dos tempos e sem fúria pela ignorância do passado.

Já sabes que o meu Zé namora pra tua Ana?
Pois, eu tenho-os visto muito juntos…
É, namoram! Ele não me quis dizer desde quando. Ficou todo corado quando o irmão falou disso à mesa.
Pra mim, namoram desde que tão na mesma turma. A Ana não há dia que chegue e não fale dele: que tem um trabalho com ele, que ele a veio trazer à porta…
Pois… Deve ser deve. Pela cara do meu Zé, é coisa pra ter algum tempo.
E olha que até faço gosto!
Claro, e eu também!

Viste a novela ontem?
Não, o pai do meu homem voltou a ter febre. O médico foi lá a casa…
Tá feio?
Tá! É por dias. Até os meus cunhados estão consciencializados.
É vida!
É. Dá-me pena… tantos anos a olhar por ele, ganha-se um certo amor sabes?
Claro, eu sei como é!
Mas que se passou?
Nada, aquilo não ata nem desata…

Viste o que é hoje?
Não! Nem vou ver. É sempre o mesmo!
Esparguete outra vez?
Oh… Com frango ou com bifes, é sempre o mesmo. Vai um bocado de molho pra cima, daqueles da Knorr e o povinho acha que a receita é nova.
Pode ser que haja bolo ou gelatina.
Não! Tão ali a dizer que é fruta.
Outra vez?

Sabes? A mãe da mãe e a mãe do papá trabalharam aqui… A avó gostava muito porque eram muitas senhoras e tinha trabalho à porta de casa… Depois perguntas ao pai também. Sabes? O pai já volta amanhã e desta vez é capaz de ficar pra sempre!


FOTOS: Fábrica de curtumes de S. Mamede de Infesta (Matosinhos) demolida em Fev/08

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Linha de montagem

A dureza do tecido obrigava-as a puxar muito pela linha na máquina. Às vezes até rebentavam os pespontos, e as mais novas olhavam em volta sem chegar a levantar a cabeça, sorriam aquela mais velha que ia ser a cúmplice do reparo. E o trabalho prosseguia…
O som era o de sempre, som de trabalho, som de rotina, som de sacrifício, som de ofício. Para umas, embora mentissem às vezes, era o som do inferno ensurdecedor de quem não encontrou alternativa. E havia as da arte.
Uma vez disseram-me: “Aquilo é a morte do cérebro!”
O cheiro era intenso, presente, denso, quase em forma de paladar. Sim, as peças, a rotina, o dia, tudo já tinha paladar. E, já só estranhava quem entrava a primeira vez, porque para os restantes… Estava entranhado… Entranhado no corpo, nos movimentos, na vida. Entranhado como se não existisse possibilidade de dar um passo em falso. E não havia!
A dureza dos moldes e do pano e das agulhas e dos acessórios e das cadeiras simplesmente alinhadas em frente à dureza das máquinas, faziam as mãos duras. Mais duras ainda! E ainda mais duras com o passar do tempo, à medida que se entranhava…
Também me disseram: “Era a melhor desta arte. Porque é uma arte”
E daqui passa para ali, e dali para acolá, e assim vai andando, tudo sucessivamente, não há lugar pra retorno, nem pra salto, nem pra nova indicação. Foram todas dadas, são todas assim, no seu lugar, na sua função, com o seu momento de pertencer à história diária do que acaba, talvez, em mãos menos duras.
Lembro-me de ser pequenina e perguntar à minha avó – demorou Aninhas mas cá estás – o que significava aquela sirene. “É pras senhoras entrarem ao serviço”. Porquê? Mas elas não saberiam as horas, não respeitariam o horário, não teriam o direito de prolongar, uma vez, o café, a malha feita sentada no muro ao sol (???)
“As máquinas não param, nina”.
Pois… às vezes param. Às vezes… param para sempre. Afinal a Aninhas, que não era deste tempo, não sabia que às vezes as máquinas param, as portas fecham, as paredes enfurecem-se e caem.
Mas o que é que vai acontecer? Qual é o prazo? Qual cooperativa? Desculpe, quantos milhões disse? Ah… acaba com um elemento poluidor, com as ruínas do passado, e com o vandalismo e com os comportamentos desviantes, e com o abrigo de alguns também. Está bem… mas… é habitação, são jardins… Ah… é estrada!
De facto, as máquinas não param e a Aninhas tinha razão, como sempre!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Namorados (?!)

Trocam olhares ou sentem vontades? Como nascem os primeiros amores ou os amores primeiros ou os momentos ou os amores no momento?
Um disse que tinha sido ao primeiro olhar, outro disse que tinha sido na descoberta, e eu, e tu, e nós, e a vida, e vocês, e os meus, e quem vejo e quem festeja meios anos e quem sonha com o reencontro e porque é que ela, que merece tanto e até precisa, e vem ter comigo, e porque é que os olhares dela dizem que querem tanto ao mesmo tempo que as palavras dizem o contrario, que não importa? Como nascem os primeiros amores? Ou os outros? Ou os de sempre? E existe? Amores? Estariam envergonhados por ter um microfone à frente ou estariam inseguros porque tudo lhes exige tudo? Ou haverá coisas que não se contam? Confessam? Nervosismo ou insegurança? Medo da certeza, que se sente não é? Confiança na insegurança, sempre presente não é? Ah e seriam cinco ou seriam sete? E seria às oito ou mais cedo? E queria ou não queria? E perguntou ou decidiu aceitar? Mergulhar de cabeça por saber que quer ou depositar o corpo porque é o sonho da alma? Entretanto uns desesperam ou esses serão os lúcidos? Porque ela tem medo tal como ele, mas ele ganhou e ela está a decidir se ganha, quando antes era ele que perdia, até perceber que só decidia? Pontes pensamentos, rios e circunstâncias… Ia começar em artigo, comecei numa divida ou talvez promessa. Seria só minha? Também se chama lembrar e hoje lembrei-me muito, sorri, corri, tentei agarrar, dei a mão, dei a deixa e brindei comigo. Estava cumprido! E já é sobre amigos, sobre tudo, sobre danças aos saltos pelas mãos de uma mistura. Esta! À Precisão! E sobre namorados… Talvez?!

01h44
9.Fev/08

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Espacinhos... para ti

Levantei os olhos para o céu
Soube assim
E tive a certeza
E sorri
Ia esticar os braços
Mas aquele azul…
A luz…
Soube assim outra vez
E senti o sangue correr nas veias
E o ar entrar nos pulmões
E o chão faltar-me debaixo dos pés
Decidi aproveitar
Aquela brisa…
O verde à volta…
Soube novamente
Assim…
Simplesmente!

Queria dar-te o mundo, decidi partilhar um momento eterno.
Parabéns vida!

Sobre nascer (e descobrir também)

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Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.
Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Mae e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.
A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.
Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.
Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.
Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.
Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.
Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país tamém. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite

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...
Depoimento autobiográfico, Janeiro de 1977
José João CRAVEIRINHA

sábado, 2 de fevereiro de 2008

FADO DA PROCURA

Mas porque é que a gente não se encontra
No largo da bica fui-te procurar
Campo de cebolas e eu sem te encontrar
Eu fui mesmo até à casa do fado
Mas tu não estavas em nenhum lado
Mas porque é que a gente não se encontra
Mas porque é que a gente não se encontra
Já estou sem saber o que hei-de fazer
Se seguir em frente ai madre de deus
Se voltar a trás ai chiados meus
E o rio diz que tarde infeliz
Mas porque é que a gente não se encontra
Mas porque é que a gente não se encontra
Já estou farta disto farta de verdade
Vou beber a bica sentar e pensar
Ver se esta saudade ai fica ou não fica
E talvez sem querer não querem lá ver
Sem te procurar te veja passar
Sem te procurar te veja passar

ANA MOURA

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Respirar de manhã











































































































BERÇO COM COR AO SÁBADO DE MANHÃ
Os bacalhaus são dedicados ao mesmo senhor a quem é dedicada a banca dos doces e do pão - pela(s) paciência(s) - e também havia fruta e cor e cheiro (demasiado cheiro até, mas o cheiro nunca é demais ou é?), e havia legumes e carne e peixe (já pouco)... Uma balança aqui e outra ali, a cliente a regatear preços - também sabemos quem regateia - e os pesos e as medidas (há que ter peso e medida!)... Um coelho, vários, que não era branco nem de olhos vermelhos, era um coelho! E galinhas e ovos (? ovos e galinhas ?). As vendedoras do chão e as das bancas, algumas nas lojas, algumas lojas abertas... Sacas de cores, flores de cores - os Amores Perfeitos também têm dono - panos de cores, saias de cores, cabelos brancos e pretos, moedas a tremer nos dedos, frases repetidas (umas felizes, outras conformadas), rótulos, relíquias (num mercado novo quase a estrear), gente de cá, todos de cá, e mais fruta e legumes e feijão, e muitas cores, cheiro e vozes... E acordar de manhã e respirar de manhã, estar em casa e sair acompanhada, aliás a acompanhar... E estar sempre acompanhada…
MERCADO MUNICIPAL DE GUIMARÃES (sábado, 26.jan/08)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

..
.
...
...
Tira a mão do queixo não penses mais nisso
o que lá vai já deu o que tinha a dar
quem ganhou, ganhou e usou-se disso
quem perdeu há-de ter mais cartas p´ra dar
E enquanto alguns fazem figura
outros sucumbem à batota
chega a onde tu quiseres
mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada p´ra andar
a gente não vai parar enquanto houver estrada p´ra andar
enquanto houver ventos e mar
a gente vai continuar enquanto houver ventos e mar
todos não pagamos por tudo o que usamos
o sistema é antigo e não poupa ninguém
somos todos escravos do que precisamos
reduz as necessidades se queres passar bem
que a dependência é uma besta
que dá cabo do desejo
e a liberdade é uma maluca
que sabe quanto vale um beijo

JORGE PALMA (sempre!)

Uma vez, como um impulso a meio (por acaso até foi no fim) de um texto bem ponderado (como ainda exigia o momento, afinal houve medo desde sempre), escrevi a ultima frase desta letra.
Tinha ouvido a música vezes sem conta. Tinha ouvido a caminho do trabalho. Tinha ouvido em frente ao mar. Tinha ouvido entre lágrimas e sorrisos. Tinha ouvido no quentinho de um café a beber um (o) chã (do aconchego desejado). Tinha ouvido à noite depois de arrumar o quarto da revolta matinal. Tinha ouvido tanto e tantas vezes, sempre embrulhado em emoções diferentes e muito iguais…
Depois lá ficou no texto, em jeito de remate do dia que já era noite.
E como, depois de tantas lágrimas (sentidas pelo medo que o tempo acabasse no minuto seguinte) e de tantos sorrisos, porque é sempre assim que se fica depois de chorar em frente ao mar, tive a certeza… Se te ouvi tantas vezes… Se te ouvi em pranto e tranquila… Mais tarde ou mais cedo regressas e dás-me novo sinal!
Foi (ontem) por volta das 19h00 (e às 23h00 também)
(em jeito de agradecimento aqui fica a letra toda)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Escrever sobre histórias…

Hoje, se me pedissem, só escreveria uma história atrasada de um qualquer tema atrasado, porque só me apetece escrever sobre coisas atrasadas no tempo, que ficaram por contar ou mãos por tocar.
Os suspiros foram todos sentidos. Por isso, hoje, agora, vou copiar um artigo para pensar no que está em atraso...


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Depois de um ano de Missão na Guiné-bissau, e de um livro publicado, o pároco António Almiro Mendes prepara-se para voltar a aventurar-se por terras africanas, já que no dia 21 deste mês vai partir, de jipe, rumo a Bissau. A ideia é “oferecer” o jipe à população guineense, um carro que partirá “cheio até ao tecto” e que será “uma mais valia” para a Casa Missão da capital da Guiné, porque… “lá um jipe salva vidas”.

António Almiro Mendes é padre há 18 anos, e no ano passado, pela primeira vez, realizou uma viagem como missionário. O destino pouco importava o pároco de Ramalde que apenas desejava “servir” e “ajudar os mais carenciados”. A Guiné-bissau acabou por ser o país onde António Almiro Mendes foi padre, enfermeiro, construtor civil, barbeiro… “Fiz de tudo, mas os ofícios pouco importam, porque as carências eram tantas”...

“Foi a experiência mais extraordinária que tive, enquanto homem, e enquanto padre. Vivi com um povo que não tem sequer direito ao sofrimento mínimo [em alusão irónica ao rendimento mínimo português] porque sofre ao máximo ou moderadamente conforme a sorte”.

António Almiro Mendes regressou de África como muitas histórias para contar, algumas delas acabaram compiladas no livro “Sinfonia das Palavras Íntimas”, uma espécie de álbum de fotografias e de memórias que revela as dificuldade de um país onde a esperança média de vida é de 43 anos para os homens e 45 anos para as mulheres.

“Na Guiné existe um único carro de bombeiros para o país todo, mas está avariado. Não há água canalizada, nem luz eléctrica. Muitas crianças vivem de comer arroz de dois em dois dias, e nunca viram um branco na vida. Tocam-nos, perguntam como são os meninos de Portugal, pedem e bebem água como se fosse o seu bem mais precioso. E na Guiné, a água é o bem mais precioso”.

O dinheiro angariado com a venda do “Sinfonia das Palavras Íntimas” será para investir em bens de primeira necessidade e para ajudar a pagar o jipe que partirá ainda este mês, atravessando países como Marrocos, Senegal e Mauritânia. O nome do livro, prende-se com a importância da definição “Palavra”: “É a casa do ser. É através da palavra que nos revelamos. Estas palavras são íntimas porque são, exactamente, o que senti”.
»

Em atraso...

“Percebi que tinha de estar preparado para tudo. Ganhei força, disse a Deus que estava preparado para morrer e fiquei tranquilo”

“Partir obriga a partirmo-nos por dentro. O que vale é que Deus guarda os fragmentos todos e junta tudo como recompensa”

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“Conversas com Café” // Tertúlia na Paróquia do Padrão da Légua (Matosinhos) // “Ser Cristão e ser Missionário” // Padre António Almiro Mendes, pároco de Ramalde (Porto) // 11 de Janeiro08

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Pisca...

*A maior Árvore de Natal da Europa,
num domingo ao fim da tarde, em família*

Coisinhas fáceis que sabem bem por serem ideias tão simples…
Luzes sobre carris ou seriam carris com luzes? Uma árvore para uns, outra árvore para outros, e mais luzes e mais carris. Pelo menos pareciam carris…
E pisca aqui e pisca ali e “Vamos dar a volta à árvore”. E afinal passeio não fica para o ano que vem e até se prolonga, porque pisca aqui e pisca ali…
Decide-se pelo metro, porque o passeio prolongado exige lugares sentados, e sobre carris, os olhos esbugalhados (ou estariam ainda ofuscados pelas luzes) quase perdem o momento… “Olha o rio” e olha outra vez as luzes.
“Um lado é mais bonito que o outro”, quando antes os lados nem interessavam, porque antes as luzes eram circulares, e os olhos que agora olham para o lado, arrebitando o pescoço, antes estavam espetados em cima, de nariz à frente, sem olfacto, só sensação visual de um todo.
Curioso é que antes se olhava com a sensação de que o piscar pairava no ar e depois se olhou com a sensação de que os pés estavam na terra e as luzes lá em baixo, como está a árvore na terra, se bem que algumas não estão.
Afinal os pés estavam em cima de tudo, porque o tudo não é mais do que os elementos conjugados debaixo dos pés que pisam carris como se fosse solo duro, depois de terem olhado uma árvore como se voasse à sua volta.
Pisca…
Pisca…
Mas de entre a “maior árvore”, uma ponte com luz, e “um andante” que, sim, “serve para outras vezes e é para guardar”, o que mais piscou foi o olhar da minha mãe e o sorriso cúmplice do meu pai.
Um disfarça, outro não sabe disfarçar e as coisinhas simples sabem bem porque nascem de ideias fáceis de concretizar.


JÁ EM JANEIRO
SEMPRE EM FAMILIA

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Lágrimas

(Quinta, 3 de Jan/08)

Souberam a fúria, e depois souberam a riso salgado quase envergonhado pela fúria inesperada. Alias, esperada, normal, espontânea, habitual: sentida!
Souberam a querer e não poder estar. Querer sempre, como sempre, como um vicio, como um (o) vicio bom.
Souberam a sentir e desejar e querer e depositar esperanças e depois souberam a raciocínio sorridente e a uma tranquilidade lenta, desta vez húmida também.
Souberam a uma frustração agradecida pela lembrança, porque souberam a contradição.
Souberam bem, como (quase) sempre!
Souberam ao que sabem as lágrimas quentes de um fim de tarde preguiçoso e pensativo.


Mais tarde - o resto - soube bem. E no fim - o tudo - soube a vida!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Uma noite como as viagens...

Um senhor em mangas de camisa, apesar de ser noite de Inverno, uma menina enterrada no cachecol e nas luvas, alguns que ignoravam o frio e rodopiavam as fatiotas porque a noite (que não é criança nenhuma) pode estar sempre, conforme a vontade e às vezes a força e outras vezes a necessidade, a começar e a acabar.
A começar e a acabar… havia também os que estão habituados ao cenário e já nem estranham o reboliço, embora, muito atentos, mantenham o ar de que estão a cumprir o seu papel.
Depois entrou um que não sossegava o telemóvel, contra todos os pedidos silenciosos dos outros, aquele que, mais tarde se descobriu, falava com sotaque brasileiro e ainda não sabia o que fazer na noite de Passagem de Ano. As outras já sabiam, até o convidaram, já tinham decidido que não iam dar tréguas à noite. Eram duas, uma, a extrovertida e que conhecia o brasileiro, outra, a tímida que queria conhecer.
Entretanto chegou um menino com o cabelo a tapar os olhos, pouco dado a viagens, estava irrequieto, atento ao movimento dos que cumpriam o seu papel na noite, e atento ao número de paragens que faltavam.
Por fim, um senhor de gorro, ar de estrangeiro, aquele tipo de estrangeiro que é antónimo de turista, cara muito gasta do frio, roupas de trabalho, olhos ávidos de calor, e mãos entrelaçadas a ensaiar o acender da fogueira, assim que chegasse a hora do destino.
Estava tudo composto. Anunciavam-se paragens, atrás de paragens. O primeiro a sair, como se previa foi o rapaz do cabelo estranho e camisa aos quadrados muito larga – passo rápido, a dar a sensação de que não se podia olhar para atrás. Depois saiu o senhor estrangeiro que não precisava, nem necessitava, nem tinha obrigação de olhar para trás. Seguiu-se o brasileiro, esse sim, saiu ainda como se tivesse dentro, com acenos e gestos efusivos, com o ar de quem pede para ser seguido, ou porque se quer uma boa conversa ou porque afinal se partilha a vontade de aprofundar conhecimentos.
A noite que começava para uns, e acabava para outros, como a viagem que acabava para uns e continuava para todos, aqueles que seguiriam com aqueles para quem também começava, estava fria, estava surda, apesar de não estar muda, enquanto permanecia pouco cega.
Chegaram
(a meio)… O senhor em mangas de camisa, que já agora era branca daquele branco que é trocado no roupeiro do trabalho quando o atrasado da hora não obriga a correrias, já tinha o casaco vestido e quase em posição de partida, correu estação fora.
Já a menina das luvas, sonolenta e friorenta demais para correr, acreditou na sua sorte, não desejando, naquele momento, mais sorte do que estalar os dedos e estar quente em casa, mesmo que isso dependesse de mais empenho que não depositava.

Alguém perguntou as horas, e alguém respondeu a custo.
Os da farda azul ficaram-se pela estação nova, elevaram a pose de trabalhadores da noite, cara de gente de respeito, pela gente de respeito.

Os outros seguiram viagem…
E a menina teve sorte ou azar porque ainda esperou mais 10 minutos pelo próximo. E aquilo que antes a impedia de correr, agora fazia-a mover de trás para a frente, como se o frio fosse uma cruz que carregava por não ter direito a outra, por inércia. O senhor que agora estava de casaco azul terminou um telefonema carinhoso, prometendo chegar rápido, e ensaiou duas vezes sentar-se no banco frio. Preferiu estar de pé.
Na espera interminável, e na
chegada (ao fim de linha) ainda houve mais intervenientes, outros nomes (que não se sabem, mas há sempre nomes) porque a noite que começava para uns e acabava para outros, é mesmo assim, como uma carruagem de metro, à sexta-feira à noite, pela uma da manhã, entre Matosinhos e a Trindade, até chegar ao S. João. Com rostos, com histórias, com desejos de partida e de chegada, e com nomes, mesmo que não se saibam quais. Quer dizer, o da menina até se sabe