domingo, 4 de novembro de 2007

Tempo, sinais e intervalos sorridentes



Hoje (anteontem) as horas também me deram sinais
Desejos… sempre!
E ansiedade de chegar ao aconchego da música que ficou a pairar de manhã, nunca mais parou, nunca mais saiu, nunca mais abandonou o cérebro que não pensou o dia todo, às vezes de músculos contraídos sem sintonia com os movimentos.
Já a adivinhar o querer, já a piscar o olho às horas, por ter vontade (apesar do medo), e também por ter falta de vontade (apesar do dever).

Depois, depois foi vinho.
Foi vida.
Muita partilha.
Tanta luz.
Imensa paz.
E descobertas. Ou seriam investigações?
Um intervalo sorridente (Obrigado!)

As horas deram sinais, o tempo, desta vez (porque quase nunca é o tempo, e a maioria das vezes, nem é o espaço) também deu sinais. Aceites. Partilhados. Sintonizados.
(sem medo, e até com dever cumprido)
Soube bem.
Hoje (ontem) o cérebro conseguiu pensar.
Tranquilamente e feliz!
...
FOTOS: Parque do Carriçal (Senhora da Hora - Matosinhos)
guardadas para quando fosse o tempo a ditar sinais
TEXTO: Às xx horas e xx minutos, do dia e do mês xx, ano XXXX (x de anteontem e x de ontem)

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

(...) suspiros

Porque deixei de saber distinguir
Porque a viagem é cada vez mais longa
Dou por mim sem saber se a quero longa ou curta
Acho que quero longa, para não ter de sair, para ter tempo de pensar
Acho que a quero curta, para ser rápido o regresso
Quero-a inteira
E suspiro
Sem decidir como te quero
Viagem
Cidade
Vida
Suspiro
Não a tenho inteira, sei lá se me pertence ou não
Sei que a quero, mas não sei se a tenho, porque lhe rogo pragas tantas vezes, para me arrepender e voltar a suspirar, com vontade de voltar para traz, e vontade de seguir em frente
Os sinais começaram aqui
Aceitei-os
Até sorri ao óbvio, ao fácil, ao sabor cobarde de não ter de pensar mais, por ser assim, felizmente sem culpas, aliás, com a cumplicidade de se encolher os ombros ao mesmo tempo
Tenho medo dos sinais que restam
Se é que restam, se é que se manifestam, se têm coragem
Só sei que a quero inteira, por isso é que me quero inteira também, sem ter culpa pelo ar (único) que respiro... feita a viagem
Agarra-te e dá um passo
Tens de saber distinguir o que sentes, abraçar a viagem e respeitar a vida!


E segue, segue, segue... sempre com mestre e a lembrança de uma noite aliviada e suspirosa. Sabe tão bem acompanhar o ouvido com a imagem desfocada do sentimento. Segue, segue... quando os olhos pedem leituras ligeiras e acabam presos à mente, a tentar distinguir o que é pensar e o que é reflectir, sem leituras ligeiras, e com o livro de bolso - boa escolha, modestamente!

(...) e mais mestre (...)

*Não há maior nitidez do que o verde que suspira*

Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?

Quando o teu cheiro me leva às esquinas do vislumbre

E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?

As redes são passageiras, as arquitecturas da fuga

De toda a água que corre, de todo o vento que passa
Quando uma teia se rasga ergo à lua a minha taça
E vejo nascer no espelho mais uma ruga

Quando o tecto se escancara e se confunde com a lua

A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela

Por favor, diz-me que és alguém, de novo?

Quando a janela se fecha e se transforma num ovo

Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?

JORGE PALMA
Quem És Tu, de Novo
FOTO: Porto Sounds 2007
(Setembro, Parque da Cidade)

leituras (...)

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refugio o não poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com a deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulhado na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora…
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto,

Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
...

GRANDES SÃO OS DESERTOS
Poesia de Álvaro de Campos

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Vamos para a ILHA DAS CORES

Na Ilha Das Cores
Tu podes viver
A grande aventura
De muito aprender
Há mar e flores
Canções para cantar
Histórias para ouvir
É só descobrir
Há o abecedário
Do A até o Zê
E ainda o kapa
Igrego e o duplo Vê
A Ilha Das Cores
É tão divertida
Que vais ter vontade
De passar lá a vida
...
Nós vamos para a ILHA DAS CORES... juntos!
Porque lá podemos viver a grande aventura de muito aprender. Há cores, mares e flores, pessoas diferentes e pessoas iguais, que têm vontade de passar lá a vida a cantar canções (de embalo por exemplo) e a ouvir histórias, por saber ouvir histórias, ou pelo menos tentar porque é só descobrir. É tão divertida a Ilha das Cores, e pura, e feliz. Nós vamos!

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Completo...

Completo egoísmo de ser, completo egoísmo de querer, completo egoísmo de sentir.
Raciocinar e raciocinar, ou fazer de conta que se pensa porque se deve, porque é importante, se exige.
E sentir os braços prostrados, o pensamento vazio, apesar da mente cheia, o corpo dormente com os braços ao longo do tronco, caídos, desistentes dão o alerta… sentir o corpo a desmaiar, passivo, conformado, em sintonia com o pensamento.
Surge um sorriso, um piscar de olhos tranquilo, e finalmente um bocejo.
Não há energia mas há vontade e já não se pensa, e os sinais falam por si, se fossem sons ecoavam na mente que se quer vazia acompanhar o pensamento que se quer desistente.
Sem vontade, cada vez com menos vontade, com menos sentido de vontade de sentir o mesmo de sempre, sentindo, mas não interiorizando o completo egoísmo que sou.

BOA NOITE

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

(está quase...) NICOLINAS 2007 (nº 36)


Uma imagem que pode não dizer muito a quem não vive, não conhece, quem não sente. Mas lembrei-me agora, porque está quase... Hoje lembrei-me, o impulso exige registo, marca a contagem decrescente que se repete ano após ano... Que se repita a contagem e que se repita o sentir!
...
29 de Novembro - Noite do Pinheiro em Guimarães, o primeiro número das NICOLINAS
(E seguem-se muitos números, até se esperar por outro ano)

sábado, 13 de outubro de 2007

NÓS

Eu Não Existo Sem Você
Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham prá você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você
...
Vinicius De Moraes
FOTO (Bruxelas/Maio 07) - a FOTO que sinto, porque é simplesmente sentidamente, com certeza

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Sentidos a respirar teatro

“E se eu me levantasse agora e me abraçasse a eles?
No fundo podia!”
...
TEATRO “Quem disse que não há vida depois da morte? Pode ser que tenhamos 100 sentidos, e só usamos cinco deles. Depois da morte usamos os outros 95” – disse um deles
“Louco” – gritaram os restantes
“Talvez” – pensaram os presentes
“Obrigado” – suspirei

- ­ O Cerejal ou a vida sem resposta. A insolvência da propriedade anula todas as soluções racionais, e só um milagre, como aquele que Vária espera, poderia resolver o conflito, porque se trata aqui de uma dupla salvação – Georges Banu*
­
- Drama, tragédia, comédia, pessoas no dia-a-dia, confundem-se na plenitude de algo que lhes escapa: o futuro. O Teatro no jogo da História e do Tempo – Rogério de Carvalho*

- Há dois factores muito importantes na vida de Tchékhov. Primeiro: ele era um homem condenado, tinha a morte no seu encalço. Segundo: perante isso, com a premonição das pessoas que vão morrer jovens, tinha uma energia inconcebível – Peter Brook*

- Neste ambiente espectral, os actores aparecem em cena como se fantasmas se tratassem. As figuras tchekhovianas configuram-se como fantasmas que somente no palco assumem voz e materialidade – Rui Pina Coelho*

RESPIRAR SENTIDOS
e... recordar o(s) sonho(s)
Inesperado, às vezes as coisas inesperadas são as mais saborosas
Sentir os sentidos a fervilhar
…inesperadamente…
e admiti-lo outra vez
…silenciosamente…
e admirar, fascinada, a força do tacto
Ouvir gritos, ouvir vozes, ouvir passos, ouvir musica, ouvir roncos, ouvir gargalhadas
Saborear, de longe, e com o olfacto o aroma do charuto de Iacha
Observar tudo, procurando pormenores, decorando pregas de vestidos longos e percorrendo o cenário, adivinhando modificações
Saber, querer, perceber
…suspensa… com os músculos contraídos em luta com as sensações…
(na impossibilidade de agir, nunca chegando a concretizar) a força do tacto!

O Cerejal // TeCA (Porto) // de 4 a 21 de Outubro // terça a sábado 21h30 e domingo 16h00 // M12 // de Anton Tchekhov; encenação Rogério de Carvalho; produção Ensemble – Sociedade de Actores
...
*excertos retirados do roteiro de apresentação da peça

terça-feira, 9 de outubro de 2007

(hoje estou...) Ao sul

À procura do meu Norte
Subo as águas desse rio
onde a barca dos sentidos
nunca partiu
Lá longe
Inventei o dia azul
E o desejo de partir
pelo prazer de chegar
Ao Sul
Cada um tem a sina que tem
os caminhos são sempre de alguém
Ao Sul
Ao Sul entre dois braços abertos
Bate um coração maltês
Que se rende, que se dá
De vez
Por amor
Corto os frutos que criei
Corto os ramos que estendi
Pela raiz que abracei
Ao Sul
João Monge- Ala dos Namorados
FOTO: Em Lisboa (junho 07) contigo como hoje e como sempre

sábado, 29 de setembro de 2007

O verdadeiro "pulguinha"


Cinco barracas, mais de 20 anos a viver em contentores, e poucos minutos bastaram para demolir o que já foi a casa de sete familias. Já estão realojados no Bairro da Biquinha em Matosinhos, mas alguns não deixaram de aparecer para dar uma última espreitadela aquilo que lhes serviu de “lar” durante mais de duas décadas.
(...)

Depois da miséria…
Perto das 11 horas da manhã, já os camiões se preparavam para recolher o entulho, as máquinas deitavam abaixo barracas de madeira e placas de zinco, em algumas ainda era visível a casa de banho improvisada, e porque quem muda de casa, muitas vezes, procura “vida nova”, no chão era possível ver alguns dos antigos pertences das famílias que saíram dos contentores junto ao Estádio do Mar.
(...)

José Moura, reformado de 60 anos, viveu durante 24 anos num dos contentores removidos. Agora vive num T2, diz ter sido “muito bem recebido” pelos vizinhos: “Passei da miséria para uma casa com sala, dois quartos, e casa de banho”, disse. O sorriso fazia antever a frase seguinte: “Estou muito bem agora, antes não tinha condições nenhumas, agora posso dizer que vivo numa casa”.
(...)
...
Demolição de barracas // Junto ao Estádio do Mar // pela Câmara Municipal de Matosinhos // 25 de Setembro de 2007

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Volta amanhã

Acendo um cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

GRANDES SÃO OS DESERTOS
Poesia de Álvaro de Campos

Momentos óbvios

Uma fuga que começou num telefonema, num impulso, continuou numa resposta positiva, acabou num reencontro de desabafos e lamentações, numa fuga óbvia.

“Aqui não”; “Aqui também não”; “Espera na Trindade”
E agora?
Aliados?
Esplanada, café, tabaco?
“Conta!”; “Desabafa”; “Eu percebo”; “Eu também”
Óbvio!
“Já vou mais leve”; “Pois…”
Repetimos?
Quando?
Esplanada, café, tabaco!
É óbvio!

...
FOTO: Esplanada dos Aliados com a Cláudia (20.Set/07)

Casou duas vezes, a primeira com o primeiro amor.
Sim, o primeiro amor…
Há pessoas que têm a sorte de cumprir o primeiro amor, e um primeiro amor não tem de ser mais verdadeiro que o segundo, apenas – não por privilégio, mera cronologia – é o primeiro!
O primeiro amor dele era mais velho. Dizem que a idade não importa no amor, como dizem que pelas leis da natureza, os mais velhos desaparecem primeiro.

Às vezes não, apesar de desta vez, nesta história (que não é história) até ser mesmo assim e ao contrario também: “Não me importava a idade. E olhe, a segunda era nova, mas também foi antes de mim”, sorriso feliz, sorriso conformado.
Casou duas vezes, a segunda com o segundo amor.
Sim, o segundo amor, porque foi segunda, por culpa, talvez e apenas, do destino: “Amei as duas. A primeira é a primeira, a segunda foi a minha melhor companhia. Amo as duas, sem ciúmes de nenhuma”.
Há pessoas que têm a sorte de cumprir o amor, uma, duas vezes… Dizem que só se ama uma vez, mas também dizem que se pode amar de maneiras diferentes muitas vezes, e dizem que amor é quem o sente…
Casou duas vezes e teve a sorte de amar as duas, provavelmente foi amado pelas duas, quis casar duas vezes, e enviuvou duas vezes.
Arriscou? Viveu. Tudo?
De sorriso nos lábios: “Não tive filhos. Não calhou”; “Ainda está a tempo”, atirei; “Agora? Só se fosse com a terceira, mas não amei mais ninguém”.
Mãos grossas, calos nos dedos, foram anos dedicados à agricultura e mais de trinta a descarregar barcos no Porto de Leixões. Reforma merecida, provavelmente uma sensação de missão cumprida e grande sorriso nos lábios.
“A faca de peixe não dá jeito nenhum”, disse-lhe a sorrir. Recebi um encolher de ombros como quem pisca o olho à delicadeza, sem intenção de confirmar o óbvio, aliás, mais atrás já se tinha falado no sabor das couves da horta, do peixe de Angeiras, do vinho do Douro, de que valia acenar ao óbvio?
Queríamos o mesmo…
E fugimos, cada qual no seu ritmo e da forma mais discreta: “Boa Sorte”, desejou (sentidamente); “Muito prazer”, respondi (agradecida).
Com 50 anos de diferença, queríamos o mesmo…
Que a espera fosse curta!
...
FOTO: Jantar de inauguração do Bar de Fuzelhas, Leça da Palmeira (21.Set/07)

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Aos que sabem


Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer,
Como esta pedra cinzenta
Em que me sento e descanso,
Como este ribeiro manso
Em serenos sobressaltos,
Como estes pinheiros altos
Que em verde e oiro se agitam,
Como estas aves que gritam
Em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho

Eles não sabem que o sonho
É vinho, é espuma, é fermento,
Bichinho álacre e sedento,
De focinho pontiagudo,
Que fossa através de tudo
Num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
É tela, é cor, é pincel,
Base, fuste, capitel,
Arco em ogiva, vitral,
Pináculo de catedral,
Contraponto, sinfonia,
Máscara grega, magia,
Que é retorta de alquimista,
Mapa do mundo distante,
Rosa-dos-ventos, Infante,
Caravela quinhentista,
Que é cabo da Boa Esperança,
Ouro, canela, marfim,
Florete de espadachim,
Bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
Passarola voadora,
Pára-raios, locomotiva,
Barco de proa festiva,
Alto-forno, geradora,
Cisão do átomo, radar,
Ultra-som, televisão,
Desembarque em foguetão
Na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida,
Que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.



António Gedeão
Pedra Filosofal, Movimento Perpétuo, 1956
FOTO: Inauguração da Escola EB1 de Custóias, Matosinhos (Set/07)
...
*O “timing” impõe que se acrescente: post dedicado à Su Maria que como a própria diz, está a crescer, é crescida aliás, e sabe que O SONHO (realizado, a realizar-se aos bocadinhos, com coragem) COMANDA A VIDA*

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Luz


As pessoas precisam sempre de luz, sempre de sol, sempre de claridade, mesmo quando elegem a noite como melhor cúmplice, esperam, sabem, e esperam sempre, a aurora, a luz.
Às vezes, além de precisarem de luz, há quem precise de ver a luz. E há aqueles que a sabem sentir, e os que não sabem, e ainda aqueles que acham que a sentem e são donos dela, e os que só a querem avistar um bocadinho. Contentam-se com pouco, talvez… Ou se calhar contentam-se com tudo.
Uma noite, muito iluminada, uma noite em que tinha a luz brilhante (de sempre) ao meu lado, apesar de ser noite, tinha a luz (cada vez mais), luz que chegou mais cedo, quando ainda (já) era de noite, lembrei-me de uma história:

Há muitos anos atrás (ou ontem, ou sempre) existiu um reino daqueles que têm príncipes, princesas, cavaleiros de espada, alguns só de palmo e meio, artesãos que trabalham mesmo à porta da oficina a ver passar as carruagens de forasteiros, ciganas de mão estendida, gente de trabalho, gente de (nas) tascas, gente num frenesim, e gente que respira, muita gente, um reino normal com um rei e uma rainha, muito protectores, bons, mas protectores, e às vezes não eram tão bons, porque eram demasiado protectores, muitos criados, aqueles fieis, e do outros também, e existia uma feiticeira que cobiçava o reino (mesmo sem saber porquê, simplesmente, cobiçava sem ter descoberto porquê), e existia uma princesa doente…

Um dia o rei resolveu pedir ajuda à feiticeira porque temia pela vida da princesa, e nesse dia (que foi há muitos anos atrás, ou mesmo só ontem, mas foi um dia de coragem, que exigia coragem), a feiticeira ajudou o rei, mas quis o reino em troca. Pai, porque era pai, antes de rei, apesar de existirem tantos que são reis antes de serem pais, entregou o reino à feiticeira, mas quis saber o segredo da cura da filha…

“Vou mostrar-lhe o sol, esperar que ela receba o sol, vê-la a aproveitar o sol, e o sol vai fazer o resto” – disse a feiticeira, agora rainha, sem bondade, só cobiça, a feiticeira rainha, ou rainha feiticeira que conhecia a formula do sol, apesar de viver na escuridão da noite.
A menina, porque já não era princesa, ficou boa, sem fortuna, sorridente, e passou a gostar da aurora como o melhor momento do dia, dos seus dias iguais, de vendedora ambulante, e de olhos serenos a ver as carruagens de forasteiros passar.

A menina, e entretanto o rei também, e depois a rainha, e muitos dos súbditos, que já não eram súbditos, souberam apreciar a luz. Aprenderam! “Às vezes só é preciso um pouco de coragem” – disse a menina a um dos forasteiros, aquele que a queria levar a conhecer a luz pelo mundo fora.

E ela foi, ou vai um dia…

FOTO: Mosteiro de Leça do Balio, Matosinhos // Feira Medieval “Os Hospitalários no Caminho de Santiago” // Setembro de 2007.
Uma foto com luz, uma luz partilhada, corajosa, convidativa, repetida, ou não, uma luz… de um dia, sem luz (ou com pouca), mas que apelava à coragem!