quarta-feira, 24 de outubro de 2007

(está quase...) NICOLINAS 2007 (nº 36)


Uma imagem que pode não dizer muito a quem não vive, não conhece, quem não sente. Mas lembrei-me agora, porque está quase... Hoje lembrei-me, o impulso exige registo, marca a contagem decrescente que se repete ano após ano... Que se repita a contagem e que se repita o sentir!
...
29 de Novembro - Noite do Pinheiro em Guimarães, o primeiro número das NICOLINAS
(E seguem-se muitos números, até se esperar por outro ano)

sábado, 13 de outubro de 2007

NÓS

Eu Não Existo Sem Você
Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham prá você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você
...
Vinicius De Moraes
FOTO (Bruxelas/Maio 07) - a FOTO que sinto, porque é simplesmente sentidamente, com certeza

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Sentidos a respirar teatro

“E se eu me levantasse agora e me abraçasse a eles?
No fundo podia!”
...
TEATRO “Quem disse que não há vida depois da morte? Pode ser que tenhamos 100 sentidos, e só usamos cinco deles. Depois da morte usamos os outros 95” – disse um deles
“Louco” – gritaram os restantes
“Talvez” – pensaram os presentes
“Obrigado” – suspirei

- ­ O Cerejal ou a vida sem resposta. A insolvência da propriedade anula todas as soluções racionais, e só um milagre, como aquele que Vária espera, poderia resolver o conflito, porque se trata aqui de uma dupla salvação – Georges Banu*
­
- Drama, tragédia, comédia, pessoas no dia-a-dia, confundem-se na plenitude de algo que lhes escapa: o futuro. O Teatro no jogo da História e do Tempo – Rogério de Carvalho*

- Há dois factores muito importantes na vida de Tchékhov. Primeiro: ele era um homem condenado, tinha a morte no seu encalço. Segundo: perante isso, com a premonição das pessoas que vão morrer jovens, tinha uma energia inconcebível – Peter Brook*

- Neste ambiente espectral, os actores aparecem em cena como se fantasmas se tratassem. As figuras tchekhovianas configuram-se como fantasmas que somente no palco assumem voz e materialidade – Rui Pina Coelho*

RESPIRAR SENTIDOS
e... recordar o(s) sonho(s)
Inesperado, às vezes as coisas inesperadas são as mais saborosas
Sentir os sentidos a fervilhar
…inesperadamente…
e admiti-lo outra vez
…silenciosamente…
e admirar, fascinada, a força do tacto
Ouvir gritos, ouvir vozes, ouvir passos, ouvir musica, ouvir roncos, ouvir gargalhadas
Saborear, de longe, e com o olfacto o aroma do charuto de Iacha
Observar tudo, procurando pormenores, decorando pregas de vestidos longos e percorrendo o cenário, adivinhando modificações
Saber, querer, perceber
…suspensa… com os músculos contraídos em luta com as sensações…
(na impossibilidade de agir, nunca chegando a concretizar) a força do tacto!

O Cerejal // TeCA (Porto) // de 4 a 21 de Outubro // terça a sábado 21h30 e domingo 16h00 // M12 // de Anton Tchekhov; encenação Rogério de Carvalho; produção Ensemble – Sociedade de Actores
...
*excertos retirados do roteiro de apresentação da peça

terça-feira, 9 de outubro de 2007

(hoje estou...) Ao sul

À procura do meu Norte
Subo as águas desse rio
onde a barca dos sentidos
nunca partiu
Lá longe
Inventei o dia azul
E o desejo de partir
pelo prazer de chegar
Ao Sul
Cada um tem a sina que tem
os caminhos são sempre de alguém
Ao Sul
Ao Sul entre dois braços abertos
Bate um coração maltês
Que se rende, que se dá
De vez
Por amor
Corto os frutos que criei
Corto os ramos que estendi
Pela raiz que abracei
Ao Sul
João Monge- Ala dos Namorados
FOTO: Em Lisboa (junho 07) contigo como hoje e como sempre

sábado, 29 de setembro de 2007

O verdadeiro "pulguinha"


Cinco barracas, mais de 20 anos a viver em contentores, e poucos minutos bastaram para demolir o que já foi a casa de sete familias. Já estão realojados no Bairro da Biquinha em Matosinhos, mas alguns não deixaram de aparecer para dar uma última espreitadela aquilo que lhes serviu de “lar” durante mais de duas décadas.
(...)

Depois da miséria…
Perto das 11 horas da manhã, já os camiões se preparavam para recolher o entulho, as máquinas deitavam abaixo barracas de madeira e placas de zinco, em algumas ainda era visível a casa de banho improvisada, e porque quem muda de casa, muitas vezes, procura “vida nova”, no chão era possível ver alguns dos antigos pertences das famílias que saíram dos contentores junto ao Estádio do Mar.
(...)

José Moura, reformado de 60 anos, viveu durante 24 anos num dos contentores removidos. Agora vive num T2, diz ter sido “muito bem recebido” pelos vizinhos: “Passei da miséria para uma casa com sala, dois quartos, e casa de banho”, disse. O sorriso fazia antever a frase seguinte: “Estou muito bem agora, antes não tinha condições nenhumas, agora posso dizer que vivo numa casa”.
(...)
...
Demolição de barracas // Junto ao Estádio do Mar // pela Câmara Municipal de Matosinhos // 25 de Setembro de 2007

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Volta amanhã

Acendo um cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

GRANDES SÃO OS DESERTOS
Poesia de Álvaro de Campos

Momentos óbvios

Uma fuga que começou num telefonema, num impulso, continuou numa resposta positiva, acabou num reencontro de desabafos e lamentações, numa fuga óbvia.

“Aqui não”; “Aqui também não”; “Espera na Trindade”
E agora?
Aliados?
Esplanada, café, tabaco?
“Conta!”; “Desabafa”; “Eu percebo”; “Eu também”
Óbvio!
“Já vou mais leve”; “Pois…”
Repetimos?
Quando?
Esplanada, café, tabaco!
É óbvio!

...
FOTO: Esplanada dos Aliados com a Cláudia (20.Set/07)

Casou duas vezes, a primeira com o primeiro amor.
Sim, o primeiro amor…
Há pessoas que têm a sorte de cumprir o primeiro amor, e um primeiro amor não tem de ser mais verdadeiro que o segundo, apenas – não por privilégio, mera cronologia – é o primeiro!
O primeiro amor dele era mais velho. Dizem que a idade não importa no amor, como dizem que pelas leis da natureza, os mais velhos desaparecem primeiro.

Às vezes não, apesar de desta vez, nesta história (que não é história) até ser mesmo assim e ao contrario também: “Não me importava a idade. E olhe, a segunda era nova, mas também foi antes de mim”, sorriso feliz, sorriso conformado.
Casou duas vezes, a segunda com o segundo amor.
Sim, o segundo amor, porque foi segunda, por culpa, talvez e apenas, do destino: “Amei as duas. A primeira é a primeira, a segunda foi a minha melhor companhia. Amo as duas, sem ciúmes de nenhuma”.
Há pessoas que têm a sorte de cumprir o amor, uma, duas vezes… Dizem que só se ama uma vez, mas também dizem que se pode amar de maneiras diferentes muitas vezes, e dizem que amor é quem o sente…
Casou duas vezes e teve a sorte de amar as duas, provavelmente foi amado pelas duas, quis casar duas vezes, e enviuvou duas vezes.
Arriscou? Viveu. Tudo?
De sorriso nos lábios: “Não tive filhos. Não calhou”; “Ainda está a tempo”, atirei; “Agora? Só se fosse com a terceira, mas não amei mais ninguém”.
Mãos grossas, calos nos dedos, foram anos dedicados à agricultura e mais de trinta a descarregar barcos no Porto de Leixões. Reforma merecida, provavelmente uma sensação de missão cumprida e grande sorriso nos lábios.
“A faca de peixe não dá jeito nenhum”, disse-lhe a sorrir. Recebi um encolher de ombros como quem pisca o olho à delicadeza, sem intenção de confirmar o óbvio, aliás, mais atrás já se tinha falado no sabor das couves da horta, do peixe de Angeiras, do vinho do Douro, de que valia acenar ao óbvio?
Queríamos o mesmo…
E fugimos, cada qual no seu ritmo e da forma mais discreta: “Boa Sorte”, desejou (sentidamente); “Muito prazer”, respondi (agradecida).
Com 50 anos de diferença, queríamos o mesmo…
Que a espera fosse curta!
...
FOTO: Jantar de inauguração do Bar de Fuzelhas, Leça da Palmeira (21.Set/07)

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Aos que sabem


Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer,
Como esta pedra cinzenta
Em que me sento e descanso,
Como este ribeiro manso
Em serenos sobressaltos,
Como estes pinheiros altos
Que em verde e oiro se agitam,
Como estas aves que gritam
Em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho

Eles não sabem que o sonho
É vinho, é espuma, é fermento,
Bichinho álacre e sedento,
De focinho pontiagudo,
Que fossa através de tudo
Num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
É tela, é cor, é pincel,
Base, fuste, capitel,
Arco em ogiva, vitral,
Pináculo de catedral,
Contraponto, sinfonia,
Máscara grega, magia,
Que é retorta de alquimista,
Mapa do mundo distante,
Rosa-dos-ventos, Infante,
Caravela quinhentista,
Que é cabo da Boa Esperança,
Ouro, canela, marfim,
Florete de espadachim,
Bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
Passarola voadora,
Pára-raios, locomotiva,
Barco de proa festiva,
Alto-forno, geradora,
Cisão do átomo, radar,
Ultra-som, televisão,
Desembarque em foguetão
Na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida,
Que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.



António Gedeão
Pedra Filosofal, Movimento Perpétuo, 1956
FOTO: Inauguração da Escola EB1 de Custóias, Matosinhos (Set/07)
...
*O “timing” impõe que se acrescente: post dedicado à Su Maria que como a própria diz, está a crescer, é crescida aliás, e sabe que O SONHO (realizado, a realizar-se aos bocadinhos, com coragem) COMANDA A VIDA*

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Luz


As pessoas precisam sempre de luz, sempre de sol, sempre de claridade, mesmo quando elegem a noite como melhor cúmplice, esperam, sabem, e esperam sempre, a aurora, a luz.
Às vezes, além de precisarem de luz, há quem precise de ver a luz. E há aqueles que a sabem sentir, e os que não sabem, e ainda aqueles que acham que a sentem e são donos dela, e os que só a querem avistar um bocadinho. Contentam-se com pouco, talvez… Ou se calhar contentam-se com tudo.
Uma noite, muito iluminada, uma noite em que tinha a luz brilhante (de sempre) ao meu lado, apesar de ser noite, tinha a luz (cada vez mais), luz que chegou mais cedo, quando ainda (já) era de noite, lembrei-me de uma história:

Há muitos anos atrás (ou ontem, ou sempre) existiu um reino daqueles que têm príncipes, princesas, cavaleiros de espada, alguns só de palmo e meio, artesãos que trabalham mesmo à porta da oficina a ver passar as carruagens de forasteiros, ciganas de mão estendida, gente de trabalho, gente de (nas) tascas, gente num frenesim, e gente que respira, muita gente, um reino normal com um rei e uma rainha, muito protectores, bons, mas protectores, e às vezes não eram tão bons, porque eram demasiado protectores, muitos criados, aqueles fieis, e do outros também, e existia uma feiticeira que cobiçava o reino (mesmo sem saber porquê, simplesmente, cobiçava sem ter descoberto porquê), e existia uma princesa doente…

Um dia o rei resolveu pedir ajuda à feiticeira porque temia pela vida da princesa, e nesse dia (que foi há muitos anos atrás, ou mesmo só ontem, mas foi um dia de coragem, que exigia coragem), a feiticeira ajudou o rei, mas quis o reino em troca. Pai, porque era pai, antes de rei, apesar de existirem tantos que são reis antes de serem pais, entregou o reino à feiticeira, mas quis saber o segredo da cura da filha…

“Vou mostrar-lhe o sol, esperar que ela receba o sol, vê-la a aproveitar o sol, e o sol vai fazer o resto” – disse a feiticeira, agora rainha, sem bondade, só cobiça, a feiticeira rainha, ou rainha feiticeira que conhecia a formula do sol, apesar de viver na escuridão da noite.
A menina, porque já não era princesa, ficou boa, sem fortuna, sorridente, e passou a gostar da aurora como o melhor momento do dia, dos seus dias iguais, de vendedora ambulante, e de olhos serenos a ver as carruagens de forasteiros passar.

A menina, e entretanto o rei também, e depois a rainha, e muitos dos súbditos, que já não eram súbditos, souberam apreciar a luz. Aprenderam! “Às vezes só é preciso um pouco de coragem” – disse a menina a um dos forasteiros, aquele que a queria levar a conhecer a luz pelo mundo fora.

E ela foi, ou vai um dia…

FOTO: Mosteiro de Leça do Balio, Matosinhos // Feira Medieval “Os Hospitalários no Caminho de Santiago” // Setembro de 2007.
Uma foto com luz, uma luz partilhada, corajosa, convidativa, repetida, ou não, uma luz… de um dia, sem luz (ou com pouca), mas que apelava à coragem!

sábado, 1 de setembro de 2007

Meu encantador senhor

Tantas e tantas vezes lhe tenho escrito, sem nunca lhe ter revelado o segredo do meu coração. Conversava consigo, via-o quase todos os dias, trocava impressões sobre livros, cinema, passeios e nunca me atrevia a dizer-lhe o que fosse acerca deste afecto que nasceu dentro de mim, desde a hora em que o vi pela primeira vez.
V. por certo adivinhou, nos mil nadas em que se revela o amor, o que eu há tanto tempo guardo para mim. Não o vai surpreender esta confissão, pois sou obrigada a fazê-la, porque percebo, enfim, que é hora de confessar. Amo-o e amo pela primeira vez!

Ahh você sempre soube?
Mas quis saber qual a impressão que lhe causa a minha pobre confissão, tão oca, mas tão sincera.
Gostaria que me dissesse o que pensa do que lhe digo, para que eu parta se tiver de partir, lute se for esse o caso, mais segura do meu próprio destino.
Apesar dos receios da resposta, e da ansiedade na recíproca, saiba... pretendo lutar e vencer quantos obstáculos se depararem no meu caminho, caso tenha a dita de ser atendida por si, ou para desesperar e viver num inferno, se o meu afecto não for correspondido, tal como desejo que o seja.
Que poder de sedução tem V. para me ter atordoado ao ponto de não ver outra imagem senão a sua, mesmo quando estou longe de si. Sabe? V. domina, maneja como quer os meus destinos, tem o dom diabólico que o fazem senhor de todo o meu ser. E, passa sereno, por ser altivo o seu dom, por entre os míseros mortais que todos somos.
Perdoe o modo ligeiro com que eu mascaro o meu sentir. Sou, por índole, humorista, e disfarço com bom humor tudo o que possa, de longe ou de perto, ter a marca do sofrimento que lhe causo, ter a marca da saudade que a distância me causa, a marca que carregamos como o sangue português que me corre nas veias.
V. não me conhece completamente, mas queira saber que quero que aumente esse conhecimento e que quero, também eu, dar-me, eu própria, a conhecer. Creia-me, creia na sinceridade da minha confissão, e dê tempo ao tempo para que o convença de que, realmente, sou honesta quando me entrego, e lhe mostro que desejo oferecer-lhe uma dedicação sem limites.
É inútil procurar camuflar e encontrar rodeios para lhe dizer que esse fluido misterioso em que meu coração se inebria é, sem dúvida, o prelúdio dum grande amor.
Tenho esperança, porque também esse sentimento me corre nas veias lusitanas, que V. possui uma alma feita para amar. Ora, não pode deixar de aceitar o amor tão espontâneo, tão verdadeiro que, sinceramente, ofereço apaixonada.
Certa que V. terá pena de mim, pena destas horas de agonia e de intranquilidade, e porque vai longa a carta, despeço-me. Saiba que lhe disse pouco do que me vai na alma inquieta, mas acredite na confissão sincera e tenha benevolência por esta exposição.
Sem mais, subscrevo-me com o ardor que a pena me causa entre os dedos, por saber que me exponho a si deliberadamente, mas muito sinceramente e agradecida,
**

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

(ocorreu-me)

Acredito que...
"mais vale tarde que nunca"
Mas...
sinto-me sempre
ATRASADA!
...
(durante uma conferência sobre o futuro das profissões)

domingo, 26 de agosto de 2007

Através do vento


Hoje quis que o vento me levasse até ti
Desejei voar e ser invisível
Poder chegar dar-te um beijo e fugir
Hoje quis ter o dom do toque que sabe a vida
Do toque discreto que sussurra
Quis ser vento para puder voar até ti
Sem que notasses, sem que me visses, deixava-te um beijo e fugia
Não tenho o dom, mas tenho o desejo
E por não conseguir ser vento
Por não saber voar
Hoje depositei um beijo que chegará até ti
O sussurro é do vento, o toque é do beijo e as asas invisíveis procuram o dom que cumpra o desejo

Recebe-me… recebe-me bem
Vou de braços abertos
Foi a força do desejo que me fez chegar até ti

sábado, 25 de agosto de 2007

Sozinho... à espera

Arrastava-se pela praia queimado pelo sol, a pele já estava gasta, era grossa, exposta aos raios, exposta ao sal. Os dedos até já tinham perdido a conta às feridas, que saravam até ao próximo anzol ferrugento, até à próxima rede rasgada. Arrastava-se pela praia porque já não sabia o que era levantar os pés, grossos e ásperos, e porque a pele conhecia a areia e desconhecia, há muito, o uso de sapatos, ele próprio questionava-lhes o conforto, enterrando ainda mais os pés pesados, na terra molhada. Os colegas do tasco invejavam-lhe a cabeleira grisalha, um cabelo cada vez mais claro e cada vez mais fino, grande e vasto para a idade, sempre penteado de acordo com o sopro do vento e cortado a lamina, por jeito e amizade, por uma das peixeiras, uma das habilidosas, da aldeia. A roupa, trocava-a como se cumprisse um ritual. Traje de trabalho: uns pares de camisolas de lá, calções de botões, e traje de festa (domingueiro, chamado "o de ir à missa"): calças compridas, camisa branca de colarinho esfolado pelos anos de uso, ou azul, muito comprida e larga por seu primeiro dono abastado em gordura.
Os restos de peixe sabiam-lhe, todos os dias, a iguarias preparadas por ninfas do mar, mas eram as mãos grossas e secas, as suas as responsaveis pelo único repasto que lhe dava gozo. Preferia acreditar na qualidade da ementa, e fazia bem. Há umas semanas que o vinho tinha acabado, ou melhor a zurrapa de vinho velho misturado. Restava-lhe o "cheirinho" que tomava para acompanhar o cigarro cravado todos os dias, à mesma hora, ao mesmo "patrão" que só ia ao tasco para ler o jornal do povo, que parecia mal levar para casa.
Calado, gostava pouco de dar nas vistas, chegava discreto e anunciava-se com um quase inaudível "boa noite", pouco dado às cartas, por preferir o silêncio do xadrez, era rápido no jogo, sucinto nas frases trocadas, sôfrego nos goles. Cigarro acendido pelo parceiro, olhos no chão, leve acenar de cabeça, reflectia-se no caminho para casa.
Depois os olhos procuraram qualquer coisa para entreter a falta de sono, a soleira da porta convidou-o a sentar, os que passavam cumprimentavam, alguns com fome de conversa rendiam-se rápido às respostas monossilábicas. Tempo de ver o que as estrelas reservavam para o dia seguinte: "Vai estar bom tempo", atirava para despachar que lhe incomodava a tranquilidade. Era respeitado por saber ler as estrelas e por entender bem as marés. Ainda ajudou o vizinho, o bêbado da rua, a rodar a chave na porta, ouviu gritos, viu luzes acenderem-se e curiosos escondidos atrás de cortinas de renda branca.
Até que, serenada a rua e cansada a vista, deitou-se, não dormiu, há anos que não dormia, mas esqueceu a vida, sonhou (sim, sonhou acordado) com o barco de outrora, com a vida de antes, com a caldeirada de peixe que serviu da última vez que recebeu gente em casa. Boa forma de passar as horas.
Todos os dias, a mesma rotina.
Na sua pose de sempre, sorria uma vez: ao levantar, rezada a lenga-lenga do costume, e mesmo antes de comer e depois de passar agua pelo rosto queimado, sorria… Sorria quando beijava um dos dedos da mão esquerda, o anelar, o que servia de refugio a duas alianças de ouro, muito iguais, mesma gravação. A única, mesmo a única, riqueza que tinha entre quatro paredes com cama, cadeira, fogão… cada vez menos móveis, nada a decorar, além da foto antiga mantida à cabeceira, qual santuario improvisado.
Lembrava-se bem do dia em que tinha trocado o sono e os sonhos com planos, pelo correr das horas entre recordações. Lembrava-se que naquele dia, a sua mão esquerda tinha ganho riqueza, já o coração tinha ficado mais pobre.

Era um novo dia…
Chamavam-lhe o "Velho do Mar da Aldeia de Baixo", nome longo para quem apenas era um homem só que estava à espera.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Sabe tão bem...


"Vou viver
Ate quando eu não sei
Que importa o que serei
Quero é viver
Amanhã
Espero sempre um amanhã
E acredito que será
Mais um prazer
A vida é sempre uma curiosidade
Que me desperta com a idade
Interessa-me o que está para vir.
E a vida
Em mim é sempre uma certeza
Que nasce da minha riqueza
Do meu prazer em descobrir
Encontrar, renovar, vou fugir ao repetir"
...
António Variações
...
Sabe tão bem sentir
Sabe tão bem receber
Sabe tão bem dar
Sabe tão bem dar e receber
Sentir a mesma cumplicidade
E que o carinho de sempre, por ter sido sempre muito mutuo, existe
Sempre
Seja no Porto, seja entre o Porto e Viseu...
Porque seja como for, sabe muito bem ser adoptada por uma madrinha com um coração tão grande!
Por isso... VAMOS VIVER!
(obrigado pela prendinha ;-)

sábado, 11 de agosto de 2007

SIM, cá estamos nós outra vez

Olá!
Sempre apanhaste o tal comboio?
Eu já perdi dois ou três...
Entre o ócio e as esquinas ganhei o vício da estrada
Nesta outra encruzilhada talvez agora a coisa dê
O passado foi à história, cá estamos nós outra vez!

Conheço a tua cara mas não sei o teu nome
Escrevo já aqui não sei o quê arroba ponto 'com'
Eu vou-te reencontrar noutro bar de estação
Ou talvez quando perder mais um avião
O barco vai de saída, tu estás tão bronzeada
É tão bom ver-te assim ardente... tão queimada

Eu quero reencontrar-te noutra esquina qualquer
Sem saber o teu nome ou se ainda és mulher
Quero reconhecer-te e beber um café
Dizer-te de onde venho e perguntar-te porquê
Sorrir-te cá do fundo e subir os degraus
Eu quero dar-te um beijo a 50 e tal graus!

JORGE PALMA
Voo Nocturno
(numa madrugada que esperava a manhã, o amanhã)