quarta-feira, 18 de abril de 2007

A propósito de resistir ou não resistir (prenda a uma mãe reformada e cheia de brilho/brio)


São as romarias e os seus símbolos que explicam a história das comunidades, são festas como as em honra da Senhora da Luz que contribuem para explicar a identidade sociológica e história do povo de Creixomil. No fundo, são estes legados que prendem os Creixomilenses ao seu passado, constituindo um orgulho para quem os vive no presente.

A procissão de anjinhos da Senhora da Luz já tem um passado muito grande, não se sabe quando começaram, mas sabe-se que sempre foram fruto do fervor, da devoção e da entrega daqueles que nela participam e do empenho das senhoras que sempre a organizaram.

A procissão dos anjinhos é um dos números da festa mais esperados pela população e pelos devotos. Para os mais pequenos é como um segundo Carnaval, as roupas de cores coloridas, as asas e as espadas fazem parte do imaginário dos meninos de Creixomil e fazem da manhã da procissão um momento de festa e de diversão. Para os pais resta o orgulho de ver a sua Padroeira ser honrada pelas suas crianças. “Sentimos que fazemos parte da história. Cumprimos o nosso dever ao embelezar a procissão através dos nossos meninos”, explicam as mães quando levam as crianças a tirar medidas.

O momento em que se tiram as medidas é como um ritual de família, uma pratica que se repete de ano a ano. “Quando é que vamos tirar as medidas?”, ouve-se perguntar junto ao portão da casa da Dona Inocência. A “casa azul” da Rua dos Cutileiros vê esse ritual cumprir-se há mais de 34 anos e de geração em geração, as mulheres da casa lá se vão inteirando do processo… e todos dão uma mãozinha.

Tudo começou com a procissão do Senhor dos Doentes que era organizada pela Professora Dona Amélia Maia e pela irmã, Dona Maria José. Devotas da Senhora da Luz e habituadas a organizar as procissões de anjinhos, as duas irmãs foram convidadas a organizar a procissão do “Domingo da Pascoela”. No início, a procissão era abrilhantada apenas por três crianças, apenas três anjinhos caminhavam à frente do palio representando: “Fé, Esperança e Caridade”.

Entretanto o número de anjinhos aumentou para sete, eram todos vestidos numa garagem. No ano seguinte, o número aumentou para as 22 crianças e daí em diante foi aumentando sempre, assim como aumenta o número de pessoas que conhece a procissão e vem de fora adorar a Senhora da Luz e cumprir a sua promessa.

Em 1974 faleceu uma das irmãs, Dona Maria José, e a Dona Amélia pediu ajuda à Dona Aninhas Machado para organizar a procissão. Desde então o nº 1978 da Rua dos Cutileiros, paredes-meias com a casa paroquial, assiste a um entra e sai de crianças, pais e vizinhos, todos num frenesim contínuo e devoto.

No ano de 1993 faleceu a Professora Amélia Maia, uma senhora que sempre lutou por manter a tradição e por embelezar as Festas da Senhora da Luz. Devota e empenhada, a Dona Amélia sabia que deixava o legado em boas mãos, a Dona Aninhas partilhava o fervor pela Santa e o gosto pela procissão dos anjinhos. Mas três anos depois (1996) faleceu também a Dona Aninhas e a organização da procissão ficou entregue à filha – Dona Inocência e às netas.

Hoje em dia a procissão leva cerca de 100 anjinhos, todos de vestidos vaporosos, acessórios, mantos a rastos, ferramentas, flores e pombinhas. As figuras escolhidas são muitas e dependem da devoção ou da crença das pessoas. Desde o conjunto das Senhoras da Luz que acompanham o andor da Padroeira aos meninos da balança que circundam o andor de S. Miguel, existem ainda as Sagradas Famílias ou os conjuntos de anjos, príncipes e soldados.

“Faça chuva ou faça sol, não me lembro de não ver a Senhora vir à rua e dos anjinhos deixarem de se vestir”, é assim que a Dona Inocência, actual responsável pela procissão de anjinhos cativa os meninos e as mães do meninos mais reticentes por causa do tempo.

A “casa azul” vizinha da casa dos Senhores Padres está habituada a abrir a porta mais de 100 vezes todos os anos por altura da Páscoa. Não há hora para se tirar uma medida, a porta raramente está fechada e raramente se rejeita um pedido. “De que queres ir meu filho? Oh… já há tantos”, a Dona Inocência gosta de ver muitas figuras diferentes e conjuntos da Bíblia completos, mas acima de tudo, gosta de deixar os pais e as crianças satisfeitos.

“Às vezes até deixo queimar o estrugido. Mas não faz mal, só eu sei o que me custa ver que nunca mais chegamos às 100 crianças. Digo logo à minha filha, este ano vão ser poucos… mas a Senhora da Luz nunca me deixa ir levar as listas à armadeira com menos de 100 anjinhos”, diz com orgulho a organizadora.

E é verdade, a Nossa Senhora da Luz vela pela procissão, como vela pelo tempo para mandar vir sol e vela pelo seu povo, um povo cuja fé e devoção, o tempo não corrompeu.
...
Festas em honra de N. Sra. da Luz - Padroeira de Creixomil, Guimarães
TEXTO: escrito em Abril/06

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Resistir ou não resistir

(Sobre: quinta-feira, 12 de Abril/07)
Maus Hábitos – contemporâneo e intimista, um espaço aberto a todos para quem nenhum horizonte é o último.
Não é uma galeria convencional, mas acolhe, de quando em vez, algumas exposições. Recebe peças de teatro, concertos, organiza oficinas. Está atento às novidades de qualquer criação artística e cultural, de forma interdisciplinar.
Bom atendimento e ambiente simpático, é uma boa alternativa para quem gosta de passear pela baixa, repousar para ler um livr
o ou fazer horas antes de um espectáculo no Coliseu (mesmo em frente).
...
Esta semana encontrei-o mais calmo do que nas ultimas vezes que o frequentei. Faltava-lhe o reggae ao vivo, os batuques daquela quinta-feira, ou aquele abraço numa noite de fugas conscientes e certezas a descobrirem-se. Ou se calhar não lhe faltava nada.
Aproveitei para o percorrer como se estivesse no interior de um caleidoscópio. A falta mental da música foi colmatada pelo preenchimento visual da mente. E desta vez o corpo estava tranquilo, o ritmo satisfeito.
...
Este espaço sempre nos habituou a ter instalações de artistas diversos e muito diferentes. Desta vez, ou sempre como todas as vezes, vi o que ofereciam à vista, através da racionalização de dualidades.
Modelos bem-humorados e ao mesmo tempo pragmáticos, muito irónicos, críticos e originais, e ao mesmo tempo com uma simplicidade que transmitia vazio espacial, daquele cheio de bom sentido.
.....
Maus Hábitos
Rua Passos Manuel, 178 - PORTO

sábado, 14 de abril de 2007

(pas) si simple


Podiam ser rosas, tulipas, girassóis, margaridas ou malmequeres.
Mas quero oferecer-te "amores perfeitos".
Agradecer o beijinho cheio de sol e o abraço bom que só tu sabes dar. Os nossos momentos simples que transpiram certezas.
Dizer-te que vou pensar em ti dia todo (como sempre) e que o meu sorriso é teu.

Bom fim-de-semana Vida!

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Viagem


Do Porto…
Uma viagem do Douro ao Minho
Um casal de adolescentes a trocar juras de amor eterno
Sol
Paisagem
O rio e a ponte
Alguns olhares de estrangeiros
Uns surpreendidos
Alguns atentos a tudo
Olhos despertos a querer absorver tudo
A maioria sonolenta
Jorge Palma como banda sonora
O comboio como embalo
Alias, as recordações como embalo
Sempre as recordações
Uma viagem, um caminho simples
Crianças a correr entre vagões
Gritos e birras
De um livro, passa-se a outro
Não existem remorsos
Pingos de chuva
Uma mãe babada ao telefone
Cusquices entre amigas
Chuva
Arvores
Sítios abandonados
Ansiedade
Tanta coisa para partilhar contigo
Queria partilhar contigo
À chegada, um aceno
… para Guimarães
...
7 de Abril/07 (18h45 – 19h55)

sábado, 7 de abril de 2007

(somos) Samba de Uma Nota Só

Eis aqui este sambinha feito numa nota só
Outras notas vão entrar mas a base é uma só
Esta outra é conseqüência do que acabo de dizer
Como eu sou a conseqüência inevitável de você

Quanta gente existe por aí que fala fala e não diz nada,
Ou quase nada
Já me utilizei de toda a escala e no final não deu em nada,
Não sobrou nada

E voltei pra minha nota como eu volto pra você
Vou contar com uma nota como eu gosto de você
E quem quer todas as notas: ré, mi, fá, sol, lá, si, dó
Acaba sem nenhuma fique numa nota só

Tom Jobim
Newton Mendonça

Maçazinhas (viva o romantismo!)

As varandas

As lanças

As damas

“São elas as destinatárias de todos os comportamentos folclóricos, tão tipicamente masculinos, ostentados em todos os outros Números”. É assim que os Velhos Nicolinos explicam o número das Nicolinas – Maçãzinhas (6 de Dezembro, dia de S. Nicolau).
As raparigas, que antes eram impedidas de participar nas festas, têm o papel principal, são as “princesas”, recolhem o fruto proibido e, com amor no olhar, oferecem aos rapazes as prendinhas, símbolo da reciprocidade do sentimento.
Como se fosse possível demonstrar com o que é material, o que se sente…
As meninas estão, simbolicamente, nas janelas ou varandas. Capas negras, camélias brancas, olhares brilhantes, corações aos pulos, inseguranças, lanças apontadas aquela ou à outra… as Maçãzinhas…
Este é o número de maior e mais clara inspiração romântica, de recuperação das antigas técnicas de galanteio, cuja particularidade se prende com o facto de apesar de, nos dias de hoje estarem já ultrapassadas, conseguirem ainda manter os seus efeitos de romantismo.
Porque é que se chama ao número “Maçãzinhas”?
Versão oficial: “o nome deste número nicolino advém precisamente do facto de as maçãs que servem de oferenda, serem muito pequenas em tamanho. Isto porque, as primeiras maçãzinhas que os estudantes levavam eram oferecidas, e foram-no durante muitos anos (até 1838), pelo Rendeiro de Urgeses que oferecia sempre maçãs redondinhas, coradinhas e muito pequeninas”.
Mas a magia das Maçãzinhas começa muito antes do dia 6 de Dezembro. Desde logo os rapazes têm que levar a sua lança, a lança que colocam no cimo da cana com que chegam às varandas, carregada de fitas que pedem às raparigas. Fitas que podem ser de várias cores e cada uma tem o seu significado.
“Fulano pediu-me uma fita bordada” (ouve-se, ou ouvia-se, pelas ruas estreitinhas do burgo de Guimarães). Nas fitas, para além das cores escolhidas, são colocados dizeres, símbolos e mensagens que deixam “pistas” aos rapazes sobre qual a rapariga em que deverão “apostar” para apontar a lança e oferecer a maça. Se os rapazes já tiverem optado por uma rapariga que pretendem galantear, pedem-lhe a fita do laço, que tem o dobro do tamanho das restantes, sempre cor-de-rosa. No entanto, a fita do laço das primeiras Maçãzinhas de um rapaz é sempre, por tradição, oferecida pela mãe sendo, nesse caso, sempre, branca.
No dia 6 de Dezembro, as Maçãzinhas consistem num cortejo alegórico, que desfila pelas ruas da cidade, com saída às 15h00, tendo como destino final a Praça de Santiago (antigamente era o Largo do Toural e Rua de Santo António, mas por imposição dos tempos, fundamentalmente devido ao trânsito, foi alterado o destino para uma das mais simbólicas praças da cidade de Guimarães). Local que apesar de não ter nenhuma ligação directa à festa nicolina, tem o mesmo nome da cidade espanhola (Santiago de Compostela), que teve muita importância na introdução do culto a S. Nicolau em Guimarães. Será de certa forma, de forma inconsciente, a maneira encontrada de prestar homenagem aos romeiros? A Santiago? À mística? Que união é esta entre tradição, cidades, vontades, encantamento?
Manhã: preparativos para a festa.
Eles: nas Oficinas de S. José, constroem e ornamentam os carros, preparam os disfarces, colocam as fitas nas lanças, colocam as lanças na respectiva cana, arranjam um Escudeiro que os acompanhe.
Elas: na Praça de Santiago, cosem camélias brancas às capas negras de estudante, colocam as capas nas varandas, ocupam as varandas, esperam…
O desfile: liderado pelo 1º Vogal da Academia, a cavalo, seguindo-se o coche do chamado “Carro dos 4” (composto pelos membros da Comissão de Festas que ocupam os cargos da Academia - presidente; vice-presidente; tesoureiro e secretário), trajados a rigor, de capa e batina. Seguem-se os carros alegóricos com os restantes membros da Comissão e todos os estudantes disfarçados. Cada carro alegórico está subordinado a um tema.
Disfarces: uma forma de evitar identificações. Os envergonhados, os atiradiços, os matreiros, os timidos... todos com a sua pretendida.
Na Praça de Santiago, normalmente preenchida de populares, as meninas aguardam pacientemente e dá-se início à magia… As canas vigorosamente levantadas por eles com as maçãs (para quem será a mais rosadinha?) A felicidade esboçada por elas (“fui a escolhida”) é, simbolicamente, retribuída com a colocação de uma “prendinha” na ponta da lança (quem será o felizardo que terá a prenda melhor?).
Resta, no final, retirar a lança da ponta da cana e oferece-la àquela a quem o rapaz se pretende declarar (ou à mãe).
Chamar a este número, no presente, recuperação do namoro “à moda antiga”, é pouco para quem o vive. Qual faltar às aulas com falta justificada? É ser de Guimarães? É ser Nicolino, sem ser?
Fazer parte da memória, ansiar e desejar…
Hoje, as Maçãzinhas, percebe quem vê, sente quem participa, é a hipótese que a cidade, os costumes, a modernidade, a total liberdade dos relacionamentos, nos dá de perpetuar o galanteio.
Viva o romantismo!

sexta-feira, 30 de março de 2007

(não) Despedida


São como as rosas de um dia,
Os amores de um estudante,
Que o vento logo levou;
Pétalas emurchecidas,
Deixam no ar o perfume
De um sonho que se sonhou;
Capas negras de estudante
São como asas de andorinha
Enquanto dura o Verão:
Palpitam, sonham uns instantes
Aninhadas nos beirais
Do palácio da Ilusão.
Quero ficar sempre estudante,
Para eternizar a ilusão de um instante,
E, sendo assim, o meu sonho de amor
Será sempre rezado baixinho dentro de mim
Os amores de um estudante
São franjas de ondas do mar
Que os ventos logo varreram;
Pairam na vida um instante,
Logo descem, depois morrem,
Mal se sabe se nasceram.
Mocidade, ó mocidade
Louca, ingénua e generosa
E faminta de Ilusão,
Que nunca sabe os motivos
De quanto queira um capricho
Ou lhe diga o coração!

21 de Março/07 (quarta-feira) // 21h31 // Festival de Tunas // ISEP
Uma noite de recordações…
Chorei…
Senti orgulho… Parabéns amiga, estavas tão bonita (o lacinho azul fica-te muito bem). A Guarda, a Tuna, o traje, tudo te põe bonita e é delicioso fazer parte das tuas recordações de tunante, ser o elo que terás na capa pela tua vinda ao Porto.
Lembrei-me de tudo… Da água fria dos Leões, aos gritos orgulhosos em frente à tribuna. As minhas meias rotas, a minha capa cheia de Vinho do Porto, as minhas fitas assinadas, as lágrimas embriagadas das serenatas. A madrinha, o padrinho (conselheiro), os afilhados, os amigos, os anões…
A cumplicidade!
Percebi, perante tunas de tantas casas, que nunca tive casa. Não pela expulsão ou pela segunda fase, mas porque é mesmo assim… Há sempre aqueles que são órfãos, aqueles que não esquecem o tricórnio, mas que têm muito orgulho por ter abraçado a Torre dos Clérigos.
Chorei…
Chorar de saudade é bom, faz bem ao espírito, liberta os receios que estão cá dentro.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Sinais


"Da cidade de Zirma os viajantes tornam com recordações bem distintas: um negro cego a gritar no meio da multidão, um louco a debruçar-se do terraço de um arranha-céus, uma rapariga a passear com um puma pela trela. Na realidade muitos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céus há sempre alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nos terraços, não há puma que não seja criado por um capricho de rapariga. A cidade é redundante: repete-se para que haja qualquer coisa que se fixe na mente.
Eu também estou de regresso a Zirma: a minha recordação compreende dirigíveis que voam em todos os sentidos à altura das janelas, ruas de lojas onde desenham tatuagens na pele aos marinheiros, comboios subterrâneos apinhados de mulheres obesas cheias de calor. Em contrapartida, os companheiros que estavam comigo na viagem juram que viram um único dirigível pairar por entre os pináculos da cidade, um único tatuador colocar na banca agulhas e tintas e desenhos perfurados, uma única mulher-canhão a abanar-se na plataforma de uma carruagem. A memória é redundante: repete os sinais para que a cidade comece a existir."

“Cidades Invisíveis” (capitulo II)
Ítalo Calvino

Um livro que parece ter perninhas. Lá voltaste à minha bolsa, à minha rotina, às minhas horas de descanso, ao jardim visitado depois de almoço, ao autocarro apinhado na hora de ponta. Mas tens de voltar à estante. Vou pôr-te um ponto final. Preciso de mais, tu já me deste sinais que chegue.

terça-feira, 20 de março de 2007

Partilha


A força dos desejos e dos impulsos
Desta vez matinais

Abre-se a porta, num murmúrio
Entras pé ante pé

Volto a sentir a tu boca e o teu toque
Sou tua, porque sempre fui
Mesmo não tendo sido

Os raios de sol confundem-se com nosso calor
Que ternura

Adormeço
Num embalo… perfeito

Já tenho saudades
Tenho sempre

Faz-se silêncio
Silêncio sentido, feliz
Partilhado na dualidade da distância

segunda-feira, 19 de março de 2007

Insónia


Era tão bom que tivéssemos um botão daqueles botões de on/off.
Não quero voltar a entregar-me a vocês.
Passo a mão pelo corpo, suspiro, tapo-mo e destapo, não sei se tenho frio ou calor, não sei o que tenho, só sei o que quero.
Quero dormir!
“O General e o Juiz” de Luís Sepúlveda é o livro de cabeceira, mas estou inquieta demais para ler e o acto de ler merece mais de mim.
Já tentei tudo.
A música desperta-me e não me embala. Alias, não gosto de nada. Hoje só se fosse Fado Vadio.
A mão outra vez. As mesmas curvas percorridas. Procuram alguma coisa, alguém de quem já são dependentes. Culpam-me! Censuram: outra vez!
Estou confortável, os suspiros confundem-se com o olfacto assim como a memória ignora a vontade de dormir.
Mas preciso tanto e não quero entregar-me a vocês.
78 cêntimos no telemóvel, casa vazia, quatro resistentes na net. Aturam-me os 93 do costume, aqueles que já adivinham as minhas noites assim e sabem que são cúmplices delas.
Já são horas… vocês estão a ganhar terreno. Sou fraca!
Enrolo-me nos lençóis, rebolo na cama, fecho, abro, pisco os olhos com força.
Já não consigo pensar, só quero adormecer!
Mas resisto, não vou entregar-me a vocês outra vez!

Esta noite lembro-me…


Lembro-me de ser pequenina e ter medo da noite que hoje amo tanto.
Lembro-me de ter medo de não acordar no dia seguinte.
Lembro-me de ficar contente por a minha avó me chamar para rezar o terço quando ela tinha insónias.
Lembro-me de rezar e até me lembro do que rezava, mas há muito tempo que não rezo.
Lembro-me da minha irmã me embalar o sono, desesperada porque não a deixava dormir.
Lembro-me de ter aprendido a tabuada por a ir repetindo ate adormecer.
Lembro-me de não gostar de ver o meu pai à noite porque era sinónimo de jantar e cama.
Lembro-me de gostar de o ouvir chegar das jantaradas ou de jogar futebol, às quintas, e de querer acompanha-lo enquanto comia qualquer coisa. E lembro-me de ser a única a gostar de ser acordada por ele e de sentir orgulho nisso.
Lembro-me de gostar, já nesse tempo, de ficar do lado direito.
Lembro-me que gostava mais da cama de Guimarães do que da cama da Póvoa. Até me lembro do meu pijama preferido na infância.

Lembro-me que, antes das obras, a televisão se via só de um dos lugares da cama, e que esse lugar era, pelo respeito da idade, da minha irmã.
Lembro-me de gostar de sexta e de sábado, porque ela voltava a casa, e já nem me interessava o lugar da tv.
Lembro-me de achar que tinha monstros debaixo da cama.
Lembro-me de ligar as luzes todas, uma por uma, para ir à casa de banho.
Lembro-me de olhar para a luz do despertador e achar que eram os “olhos do mau”.

Lembro-me de pedir, à minha irmã, que me acordasse se me ouvisse a deixar de respirar.
Lembro-me de ela me agarrar forte durante o sono, enquanto sonhava, e de gostar disso.

E tu lembras-te destas coisas? Lembras-te das competições para ver quem vestia o pijama primeiro? Lembras-te de mim, às vezes, antes de adormecer?

Hoje lembrei-me, de uma forma muito nitida, como se fosse um eco, da frase que inventei contigo, com a pessoa com quem melhor dormi na vida, que mais descanso ao sono me deu até hoje. Quero dizer-ta porque não a dizemos à muito tempo. Gosto de ti assim, gosto muito dele também, do meu novo irmão mais velho, mas tenho saudades de ti solteira... “Boa noite, até amanhã, dorme bem, sonha com os anjos e comigo também” (só nossa)

domingo, 18 de março de 2007

Promessa é promessa…

(Sobre: quinta-feira, 15 de Março/07)
Sentadas no Piolho na que foi a verdadeira “saída caseira”: primeira vez sozinhas, a vez mais cúmplice, com a solidariedade a embrulhar a noite sem lua, ouviu-se: “Tens aí aquele livro de poesia?” ; “Sim”.
Aberto ao acaso, que nunca se engana, eis o poema que celebra o nosso momento. Prometi publica-lo (apesar de ser enorme) em jeito de dedicatória e de sumário da noite.
A foto: os Aliados como cenário, a bebida de eleição (quantos foram? Ahh 2+3+4) e algo de natureza para fazer-nos sentir os pés na
Terra.
Promessa é promessa colega… (olha o titulo com os três pontinhos de que gostas tanto) aqui tens, para ambas reflectirmos e partilharmos!
...
Tenho o furor de amar. Meu coração é louco.
O quando e o onde, e a quem, importa pouco
Que o clarão de beleza, virtude, ou pujança
Brilhe, e ele se precipita, e voa, e se lança.
E, enquanto a posse dura, de mil beijos cobre
O objecto ou o ser que o seu entusiasmo dobre
De um valor que não tem. Quando a ilusão se encolhe.
Regressa triste e só, mas fiel, como quem escolhe
deixar de si aos outros, ele, alguma cousa
De sangue ou carne. Mas não morre, nem repousa,
E o tédio o faz partir para a terra das Quimeras,
De onde nada trará, só lágrimas severas
Que saboreará. Teimoso segue avante,
Sem querer se dar conta que na infinitude,
Navegador casmurro, há sempre um escolho que há-de
Fazê-lo naufragar antes que aporte à margem
A que apontara o rumo da perdida viagem.
Mas trampolim ele faz do escolho, e logo nada
Para a praia. Lá está. Mas estranha vezada
Será que avidamente não corra e percorra,
Desde que o sol é nado até que o presente morra,
De lés a lés o promontório inteiro.
E nada! Árvore ou erva ou fonte no braseiro,
Mas fome só, e a sede, e o sol como metal,
E nem vestígio humano, um coração igual!
A ele não – jamais há-de encontrar alguém –
Mas coração humano, um coração também,
Que esteja vivo, ainda que falso, palpitante!
E espera, sem perder a força latejante
Que a febre lhe sustenta, e que o amor lhe ganhe,
Que um barco o mastro erecto ao longe lhe desenhe,
A que faças sinais, e venha, e que o recolha:
Assim ele raciocina. E quem se fia? Olha!...
Apóstolo tão estranho, um dia há-de acabar.
Se a morte o deixa sempre, aos outros quer matar.
Os mortos, os seus mortos, mais morto ele está
Uma fibra qualquer, sempre nas tumbas há,
Do seu fogoso ser, que aí vive docemente.
Aos mortos amo como uma ave o ninho quente.
Lembrá-los – almofada em que adormece e vai
Sonhar com eles, vê-los e falar-lhes. Sai,
Ainda embebido deles, para uma aventura horrenda.
Tenho o furor de amar. E então? Não tenho emenda.
...
Paul Verlaine

sábado, 17 de março de 2007

Amorzade

Tive uma semana muito boa no que se refere a esse sentimento que tem tanto de bom e profundo, como de inseguro. Os amigos servem para amar e mostrarem/projectarem amor. Disseram-me que também serviam para perdoar, eu penso que servem para aceitar.
Gosto de estar presente em festas de anos, acompanhar as etapas felizes, da mesma forma que gosto de marcar presença naquele cafezinho ao fim da tarde que tem sabor de desabafo.
Gosto de trocar um olhar cúmplice com a amiga de sempre por causa do miúdo giro do canto da sala, da mesma forma que gosto de piscar o olho ao amigo que precisa de um ombro.
Esta semana senti-me sozinha no meio de uma multidão (multidão de gente, multidão de sentimentos) e quase ao mesmo tempo recebi bonitas demonstrações de amizade, momentos espontâneos de afecto que souberam a reencontro. Um reencontro silencioso marcado por um abraço voluntário entre corpos que quiseram perdoar-se… Não, quiseram aceitar-se.
Entre silêncios partilhados (palavras que me parecem cada vez mais conjugáveis), embalos nocturnos, encontros que projectam o passado a provar que esta vivo o presente, e eternizado o futuro, entre jantares simples, com cozinhados simples, feitos com o coração, saídas que começam e acabam com solidariedade, e entre algumas promessas íntimas e solitárias, alguns ciúmes que só elevam o ego, e frases que, interpretadas como elogio, sabem a reprovação e ameaça… tive uma semana pautada de amizade.
E a amizade é amor!
É tão bom sentir amor outra vez…



Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado.
Goethe

terça-feira, 13 de março de 2007

Duas amigas


20h00//Ermesinde //Condomínio das Formigas//Jantar e um belo serão

Uma sopa de ervilhas porque o feijão verde dá trabalho a arranjar e afinal, nem é preciso, porque é primo das ervilhas. Pizza congelada a lembrar a vida de estudante (que saudades das noitadas, da paprica, da casa acolhedora perto de tudo) e frutinha aos bocadinhos para ficarmos bem alimentadas.
Cigarrito e cozinha arrumada, chega a hora de pegar na tese e nos artigos da edição desta semana para o belo JM.
Conversa caseirinha: “Queres tostas com Vaca que ri? Olha que é ligth”, diz a Lena. “Tu não és preta, a mãe é que é branca demais”, diz a Paulinha. “Já não gostava do cenário mas acho que ainda ta pior” (sobre o “Um Contra Todos”). Resposta: “Ta xoxo”. (fica no ar “xoxo” é com ‘x’ ou ‘ch’?). Aleluuuuiaa (com quantos ‘u’? 3/4, com quantos ‘a’ – põe só 2).
Perdeu-se um talento musical por causa das muitas faringites de infância: consta que a Lena tinha uma boa voz para as visitas pascais.
Regina Duarte e Sónia Braga, duas actrizes brasileiras bem conservadas e que não precisam de provar nada a ninguém, protagonizam o momento novela deprimente da noite: “Tapa de amor não dói”. Por sua vez, Isabel, Simone e Jorge de “Páginas da Vida” protagonizam o melhor momento: “Tou com você para rir e para chorar”.
ESTA DECIDIDO – vamos postar isto nos nossos blogs. Perfeito, perfeito… Só se fosse ao mesmo tempo!
Da brasileirada passamos para a Maria Laurinda e viva a Floribela acabou, paz à sua alma, mas só temos um mês de férias, porque a “Tripeirinha” às flores ressuscita daqui a um mês.
23h12
Tese: 0 – Noticias JM: 0
Humor: muito – Responsabilidade: pouca
GANHA: a amizade, que é como quem diz, ganha o ócio, o belo do “não fazer nada”.
Lena chiba-se, vai ganhar o dobro em Viseu, junto do aconchego dos pais, numa empresa que já lhe chama mestre, mas numa plataforma que ainda não domina. Paulinha responde: “Vai pra Viseu, já nem tenho pena de ti, minha desgraçada”.
Eis que surge o som do grande Tony Carreira na TV, cabelo seco, pijama emprestado, soninho a vir e a ir entre a escolha da foto apropriada ao momento.

“Eram duas amigas desfolhando a sorte
Acenando os dotes que a vida lhes deu
Eram duas compinchas a tagarelar
Dispunham de tempo e espaço
O limite era o céu”
JORGE PALMA
...
PS: faltam tantas saídas brilhantes da noite bem passada, cortamos na casaca de tantos/as. É vida, não registamos, não por cobardia, mas sim porque não queremos ferir susceptibilidades e guardamos para a memória o melhor do (re)encontro/despedida das formigas.

Um convite simples

O nome surgiu por causa do papel de parede escolhido, a rua é a da Picaria, pleno coração da baixa portuense. Chama-se Rosa Escura e é um salão de chá/lounge café que faz o paralelo entre o bem-estar e a arte.
“A nossa intenção é ter um público-alvo semelhante ao do Lusitano [ali tão próximo - Rua José Falcão] e dinamizar a baixa do Porto”, explica Pedro Torres, um dos dois sócios do Rosa Escura.
A decoração do espaço ficou a cargo de João Madureira. Sobressaem as cores quentes do mobiliário de época (anos 60/70) que se interligam com o verde água da parede ou com o “muro” de papel cheio de rosas negras. A conjugação entre os elementos da natureza é conseguida através das almofadas cor de vinho e verde forte, enquanto uma cor prende o cliente à terra, a outra encarrega-se de o ligar ao ar e ao mar. “Queremos que as pessoas estejam confortáveis como se estivessem em casa”, adianta Pedro Torres.
Uma das curiosidades deste café é que todo o mobiliário está à venda. Qualquer cliente que se sinta atraído por um dos candeeiros de pé ou pelos espelhos e quadros que ladeiam as paredes e o balcão, pode pedir a lista de artigos e consultar os preços. Segundo o sócio do Rosa Escura, a ideia é “garantir que este espaço estará em permanente remodelação”.
E para além de desfrutar de um espaço confortável que convida o cliente a pôr a leitura em dia – a mesa com jornais diários e revistas fica logo à entrada – estão patentes exposições de artistas autopropostos. O pintor Alexandre Santos foi o primeiro e Pedro Torres lembra: “Estamos abertos a propostas. Além de pintura temos projectos ao nível de fotografia, escultura e artigos em prata”.
Aconselham-se os chás e fatias de bolo para o lanche e os copos de vinho acompanham uma boa conversa ao serão.

Rosa Escura
Rua da Picaria
Aberto das 10h00 às 01:30 (até às 02h00 aos sábados)
Sem consumo obrigatório
TEXTO: escrito em Out/06